domingo, 13 de outubro de 2013

Narrador,

o que eu preciso saber mais é: sentir. Sentir-me, na verdade. Quando pensava mais antes de falar, sabia o que era certo. E o não falar não fazia com que as palavras fossem embora. Elas, se não ditas, ficavam para um outro momento. E, assim, se reproduziam infinitas. Os momentos não se acabaram. As palavras não se acabaram. Eu pensava. E falava. Andei somente falando, ultimamente. É como andar mancando. Mais fácil topar com tropeços e quedas assim.
Caí tantas vezes. Caí sem perceber que caia. Caí lentamente. Caí distraída. Caí derrubando-me. Caí, derrubaram-me. Caí, derrubou-me o dia, o mundo, a vida. Caí. Tantas vezes caí, tantas. Alguns tombos nem senti; outros, pensei que jamais levantaria.
Estou caída agora. Entre o passo de levantar e o passo de deitar de novo no chão. Saber como está: detalhe que se perde a ponto de tornar-se desafio. Desafiei-me. E, sim, estou caída. Ao aceitar o desafio, há outros acompanhantes do primeiro que aparecem: por quê? Por que caí? Caí porque esqueci-me como se parava de andar e quis correr. Quis correr. Achei: bastava saber como se anda. Não. Não. Não. Não basta. Os passos mudam constantemente, e se não atentar-nos às suas mudanças... Caí, narrador. E sei: preciso ficar aqui um tempo. Enquanto minhas pernas retomam as forças e recuperam-se do susto, lembro. Memorizo. Retorno ao que esqueci enquanto lembrava somente do ciclo obsessivo (correr) e agora ando pelas memórias, vago mesmo estando parado. Sinto-me o que fui anteontem tão distante-perto, o ontem tão perto-distante, refletidos no agora, que é nem perto nem distante (é agora). Tudo é um espelho. Esqueci de observar os reflexos.
Os reflexos: para observá-los, é preciso de silêncio in-exterior. Para observar e ouvir os silêncios, é preciso coragem. Tive medo. Sabia que poderiam revelar o que eu não gostaria de descobrir. Mas não sabia que: eu poderia suportar, poderia compreender, poderia mudá-lo para belo. Não sabia que poderia mergulhar fundo no não-queria e encontrar ainda luz e cores, deixar que me guiassem até a superfície. A superfície que estava em tempestade ficaria em plena calmaria. Havia descoberto o motivo da chuva, em vez de encará-la pensando ser forte o bastante sem ser. Narrador, eu... Eu sinto que me levantarei. E, dessa vez, a queda irá demorar. Se eu cair é porque algo está errado. Vou mergulhar de novo. No silêncio do submergir posso encontrar tesouros. Levantarei. E, narrador, narrador! [Veio-me com aquele tom de criança que acaba de perceber algo novo e vai contar aos pais.] Descobri que não é preciso correr para alcançar o que está perto de você. [Sorri.]

O narrador:

Tu não és mais quem escrevi. Não vives mais somente em mim. Teu tropeço foi um passo além. O passo mais veloz do que qualquer ritmo corrido. Um passo. (Não esquecerei.) Antes, personagem. Andes pelas cordilheiras e planícies. Já podes. Viva.                                                                                                                            

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