sábado, 14 de janeiro de 2012

Ela seria a sua própria filósofa

Ela estava sentada no sofá do consultório enquanto ouvia aquelas perguntas, uma atrás da outra, ao perceber que, mesmo sendo perguntas sobre ela, não sabia responder. Percebeu, também, que ela não era o seu assunto preferido para pensar, se preocupar e que, mesmo sendo ela, não sabia sobre si mesma. Como pode? Não há outra pessoa no mundo em que ela havia passado mais tempo perto do que ela própria. Como não podia conhecê-la? Como não conseguia responder aquelas perguntas?
Sua voz começou a tremer, sua mente procurava incansavelmente por respostas, ela não conseguia organizar os (milhões de) pensamentos que se passavam e que competiam entre eles para ser a melhor explicação, a melhor resposta, mas nenhum servia. Ouvia-se apenas um silêncio ensurdecedor que parecia que nunca mais cessaria.
Suas mãos começaram a suar, o nervosismo a encontrou. Ela disse qualquer coisa só para acabar com o silêncio e o momento, aparentemente, passou. Aparentemente porque este momento havia ficado dentro dela, e não iria embora enquanto não fosse resolvido da maneira que deveria ser. Porém... como ele deveria ser?
Precisava se perguntar mais sobre ela mesma, tentar se descobrir mais. Percebeu que de tanto escondê-la do mundo, acabou se escondendo em si, e fez isso tão bem a ponto de ficar difícil dela mesma se encontrar.
Ela costumava se descobrir no meio da madrugada, enquanto dormia, sem perceber que havia se descoberto. Deveria encontrar algum momento do dia, em que estivesse acordada (e talvez até despercebida), para retirar a coberta de dentro dela. Para isso, seria preciso armar um plano contra ela mesma e ele a desmascaria, e é exatamente isso que queria. Assim, passou a pensar sobre o que nunca fora pensado por ela sobre ela.
Há pessoas que se preocupam em observar os detalhes, aquilo que quase não é observado ou percebido pelos outros. Ela faria o mesmo, mas não seria com aquilo que estivesse ao seu redor, mas com o que está dentro dela. Pensaria sobre aqueles pensamentos que tinha de costume, talvez até diariamente, e que, por causa disso, não eram mais notados. Pensaria sobre o que os olhos dela, naquele momento, não viam, e faria com que vissem. Pensaria sobre o que não deveria ter acostumado em pensar, mas que acabou acostumando. Pensaria sobre ela como filósofos pensam sobre o mundo. O primeiro passo seria: pergunte-se a procura de respostas e explicações sobre si.
Deste modo, havia acordado do próprio sono. Estava disposta a ser a filosófa de si que questionará sempre os seus próprios pensamentos, objetivos e sentimentos. Assim, poderia se descobrir, se ajudar, se melhorar e ser mais quem realmente era sem ter sombras dentro da própria personalidade.

2 comentários:

Karoline Freitas. disse...

Vou tentar explicar de uma vez por todas o que eu sempre quis dizer depois de te ler e nunca consegui.
Tu escreves com muitos detalhes, explica bastante e transforma possíveis descrições bobas e comuns em frases inteligentíssimas. Parece que se outro alguém fosse escrever contando a mesma coisa, o faria sem graça. Tu coloca um encanto no texto. Dá para percebê-lo tanto nas palavras que usa quanto na ordem dos fatos. Eu. Eu. Eu... Eu vou ler de novo. Tchau.

Nicolle Corintho disse...

Muito perfeito, só posso dizer que estou adorando a leitura por aqui, já vi vou me tornar uma visita constante por aqui!