quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Encantado, passou a viver

Levantou da cadeira, saiu maravilhado. Os olhos de seu coração haviam transmitido tudo que enxergavam com sentimento para os olhos do rosto. Levantou cambaleando de tanto sentimento, de tantos pensamentos. Segurou-se no braço da poltrona como quem segura um fio de ideia entre os dedos. Agarrou-a e fê-la habitar em seu ser - a poltrona, tudo. 
A cada passo que dava, parecia não se mover, apesar de sua mente estar se movimentando ainda mais rápido do que qualquer outro movimento feito pelo corpo, até mesmo os próprios batimentos cardíacos, que aceleravam apostando corrida com o batimento do segundo anterior. 
Nunca se esqueceria de tal dia, nunca se esqueceria de tais cenas. 
Tudo se passava rapidamente, e não como um filme, mas como um livro que respira e se move. Tinha vida, se mexia, sentia, respirava, até sorria. E fazia-o sorrir, respirar, sentir, se mover e, principalmente, viver. Vivia por ter visto o que viu; por ter vivido o que foi vivenciado por outro, passava a viver, passava a enxergar. Passou a caminhar com o coração, a caminhar com o ser humano que estava prestes a se entregar ao abismo da realidade cruel criada por outros ao seu redor, mas que foi resgatado no último minuto da sua existência. Passou a pensar. Passou a não somente passar. 
Assim, passou por mim pela porta do teatro ao fim da primeira peça que ele teve a oportunidade de assistir. Encontrei-o no final, parado em frente ao teatro olhando-o como quem olha para o tempo que se vai, despedindo-se do que era antes de encontrá-lo e abraçando o novo que estaria por vir.

[Inspiração: você  lembra da primeira vez em que foi ao teatro?]

5 comentários:

Thaís. disse...

Bem, primeiro quero dizer que fiquei muito feliz de ler seu comentário em meu blog. Perceber que você leu e se identificou bastante com o texto é muito bom. Aliás, acredito que todos nós que estamos no blogpost gostamos quando isso acontece. Mesmo que escrevemos para nós mesmo, há sempre aquele sorriso que brota ao perceber que você fez alguém se identificar ou gostar do que leu. Pode deixar, a inspiração anda um pouco de lado, porque tenho vivido mais do que ando escrevendo, mas logo ela volta com força total. Enquanto ela está ausente, já me garanti com alguns textos reservas. Foi bom ter sua visita, quero te ver mais vezes por lá. E eu voltarei também, pois adorei a sua forma calma de escrever.
Um beijo, @pequenatiss.

Rita Araújo disse...

''Passou a pensar. Passou a não somente passar.'' Eu parei nessa parte o tempo suficiente para entender sua essência. Ignorando, botando de lado e simplesmente passando, levando, empurrando com a barriga... Pensar, é isso que o mundo precisa, que as pessoas precisam. Refletir, às vezes, é tão "segundo plano". Ser um robô, uma peça ligada no automático, simplesmente seguir, sem olhar para o que é verdadeiro, sincero e real. Gostei muito do seu blog, Andorinha (hahaha adorei isso)! Leve, objetivo e reflexivo :)

http://gabipuppe.blogspot.com.br

Luana disse...

Creio que não exista nada melhor do que refletir. As pessoas passam por cima de tantas coisas que as vzes se torna difícil não ser superficial.

Andorinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Andorinha disse...

Realmente, Luana, refletir é bom demais. A gente precisa reservar alguns momentos para reflexão (precisa, é necessidade).
As pessoas acreditam tanto no que pouco são que acabam tornando o pouco delas em muito. E o muito verdadeiro se vai... É triste. Mas é isso que o mundo faz. O problema é quando a força para resistir passa a ser também superficial.