sábado, 30 de março de 2013

Pensamento 14 de 365

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Amanhecer Clarice

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Eu escrevo mesmo sem rumo. Como um vento que brota sem querer e vira ventania para ser quem é de vez em quando: vento. E aí, venta. Só para não se esquecer. Não se esquecer de quem é. Não se esquecer do que faz. Não se esquecer de como é ser quem é, de como é fazer o que faz. Não se esquecer. (Ou se lembrar enquanto esquece?) O dia a dia engole qualquer um, o vento pode não ser exceção. Então, vento também. Vento, sim. Junto com o vento que me vem. Ultimamente, o que me encontra é o da agonia. Ando devendo muito ao devir*. 
Escrevo sem rumo. Não sou profissional. Só crio esquemas se for para me libertar ainda mais. Gosto de interrogações. E como é bom criar sem saber como irá acabar. Começar a escrever sem saber de nada que será. Deixar somente que as palavras se escrevam por si só. Deixar o vento traçar o caminho sozinho, guiando o pensamento pela mão, os dedos, as palavras que brotam sem saber se serão fruto, fruta, semente, árvore, ninho, espinho. Sem saber se, ao menos, serão algo.
Escrevo mesmo sem rumo. É assim que levito, que esvazio minhas dívidas ao tempo. É assim que levo-me ao leve. Leva-me o leve, mesmo que pesado. Mesmo que corrente. Mesmo que lágrima não chorada. Mesmo que sorriso impossível de se sorrir. O leve ainda existe. Mesmo que os mesmos quês existam. Existe.

[Enquanto eu escrever sem rumo.]

*"Nunca dever ao devir / Nunca deixai de ouvir com outros olhos, com outros olhos" Teatro Mágico

3 comentários:

Rayanne Albuquerque disse...

Uma tradução de mim em um escrito teu: "Escrevo mesmo sem rumo. É assim que levito, que esvazio minhas dívidas ao tempo."

Aparecerei mais vezes.
Um beijo grande e um abraço forte.

Vanessa Carvalho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vanessa Carvalho disse...

e escrever
é assim mesmo:
sem rumo.
começamos
querendo
tomar um,
mas cá
estamos nós,
no escrever,
indo
de um só vez
à vários
mundos.


(flores)