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domingo, 10 de março de 2019

De viver com o tempo

Acontece que a vida gosta. Gosta de encarar a gente. De observar. Será que consegue, será que aguenta. Mesmo sabendo que sim. Mesmo sabendo que sim, gosta de ver como lidamos com o que nos encontra no caminho. Sabe antes de tudo que não estamos prontos, mesmo sempre estando. É que descobrimos depois, nos surpreendemos depois. Os momentos veem e se achegam desse jeito, uma simples, difícil e bela surpresa. 

Eu realmente achava que não conseguiria. Mas olhar para trás e viver por isso trouxe ainda outras tantas lembranças. E o olhar por outro, sabendo que vive o mesmo, que está aprendendo. Nada como o tempo. Nada como o tempo para perceber o quão está errado. O quanto nossa arrogância é sem justificativa. O quanto perdemos por não enxergar, e afastamos. Os sinceros, os humildes, os que amam. 

Mesmo sabendo que ainda não está completo, que não está perfeito, já é o caminho. Tão cheio de fraquezas, tão cheio de brilho que me traz depois. Esse brilho que tenho, se tenho, é dele. Um caminho conjunto, eu o construo e ele me constrói. Tudo num mesmo som, mesma harmonia, ainda que não percebida. Tão singela, tão perfeita. Que percebê-la um tanto me traz esses olhos cheios d'água, de dentro. Essas águas cessam e ficam um pouco, como paixão, como o brilho, de vida. Poder contar pelo o que passei é simplesmente uma honra. Sentar um pouco e contar, como uma história dos antigos, hoje rara entre fogueiras, comum em restaurantes, casa de amigos e família. Tão comum, tão presente. Entre risos, entre tensões e silêncios de escuta. Tudo harmonia. Tudo crescimento. 

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Para Ester

Há pessoas que tocam nossas almas. No momento em que os olhos se encontram, não se percebe, mas já estava guardada. Guardada pra encontrar o meu caminho, pra me tocar. E mais do que isso: me ajudar a crescer. E cresço. No momento não se entende, mas, depois, como um amigo mais velho que sabe da vida, o sentido se aproxima e se esclarece. Era para ser assim. 
- Te fiz uma surpresa. Mais uma. - a vida. 
Por mais difícil que possa ser, deixa uma chama viva: permaneça comigo. Te quero aqui. No tocar dessas almas, nascem flores. A gratidão, a sabedoria. O bem. Só se acrescentam, só desabrocham. Só, como se fosse apenas isso. E no momento desse encontro, a vida me testa. Para saber se estou pronta ao próximo encontro. Se respondo com a mesma gratidão, mesma felicidade. Se cresço verdadeiramente. Eu espero que esteja. 

A flor que levei em minhas mãos, com terra, foi pra florecer. Assim como eu flori um pouco mais e simplesmente por você ser quem é. O coração de mãe. O enxergar o bem e o acreditar no outro. Acreditar em mim, saber da minha verdade, da minha ajuda. E me ajudar. E ajudar outros. Por ter em mente o que era o certo. Tua luz encontrou a minha e quero seguir irradiando. Que sigamos.

sábado, 26 de outubro de 2013

Infinitivo

Entre a fala, soltou uma palavra. Um susto, na verdade. Um impacto. 
- Para!
O susto respondeu, assustado. Tomou controle do meu corpo, moveu meus lábios. Sem respirar, disse. 
- Para... - respirando - O que você disse?
- Disse o quê?
- Isso que você acabou dizer, o que foi?
- Isso que eu... (susto)... Ser? Eu disse... 
- Ser, disse ser! 
Estranhou a própria voz que tinha saído ao dizer aquela palavra. Estranhou a própria palavra ter saído ali, naquele momento. Estranhou. Não sei se percebeu - percebi -, mas não havia hora mais certa para ter aparecido. Tinha que ser dita. Ali. Tinha que fazer parte do vento daquele ambiente. Saltou como um passarinho que voa tão alegre que parece até assustado, de tão veloz. E também como o passarinho: poderia ser perdida no segundo depois, se escapar entre os sons das palavras e dos silêncios, de tanto que sabe cortar o ar e viver camuflada. Camufla-se por ser camuflada por nós. Ela não tem necessidade de autoproteção, nós que temos a mania de nos proteger da realidade, escondendo-a embaixo dos narizes, dos tapetes. Mas narizes não aguentam o mundo; mas de poeira em poeira, o tapete forma uma montanha e passa a  ser notado. E quando esse for o agora? 
Ser.
Ele disse ser. Disse ser no momento em que eu contava-lhe sobre a realização de um dos meus planos, o caminho que segui após ter decidido não temer ao medo e me expor ideias filhas de meus valores que carregava comigo em silêncio. Elas em silêncio, eu em silêncio. Falava sobre o momento igualíssimo em que apareceu: o pensamento interior que se exterioriza: s e r. Vozes-flashes permanentes que se tornam palavras, e são ouvidas, e pintam-te como exatamente o que há dentro de se: s e r. 
Ser entre sonhos. Ser entre caminhos. Ser entre passos. Disse ser entre frases. E foi. A voz veio do eu-interno que quase não fala com o mundo, num tom incontrolável que se demorasse mais um segundo passaria a ser controlado e não mais teria existido. Um grito: ser! Ser, no infinitivo. Enquanto passados são o fui-fora, futuro era seria-será, presente é, este veio no tempo do infinito. Não dizia para ser, que foi, que seria, que era. O grito-quase-perdido tão pequeno-enorme quanto o ar, disse: ser. Ser. Acima de tudo, ser. Apesar de tudo, ser. Ser, todavia, entre as vidas. Entre todas as vias, os caminhos seguidos e não, ser. Ser, já que foi. Ser porque é. Ser por será.

[Ser. Disse ser.
O tom fez-se presente e instante que existe.
(Canto, Clarice.)
Dia 29 de julho de dois mil e ter-se.] 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poema segundo abraços

Encaixar um ano nos abraços de
segundos.

Encaixar um ano
inteiro
nos (a)braços dos segundos

Abraços
de um ano
a cada cinco segundos:

                                                                               re
                                                                                encontros.


[Segundos. Inteiro(s). De um ano.]

sábado, 24 de novembro de 2012

Reticências, primeira parte.

- É tão difícil...
- Tão difícil o quê?
- Tudo... Tudo é difícil. É difícil falar até mesmo a palavra difícil. É difícil te responder, me fazer falar quando estou com você... É difícil te olhar, deixar o meu olhar no seu... É difícil... É difícil terminar uma frase contigo. É difícil, meu Deus, como é difícil.
- É difícil, mesmo. É difícil te olhar quando sei que o seu modo de olhar não é o mesmo que o meu. É difícil saber que seus pensamentos sobre mim são diferente dos meus sobre você, que os seus sentimentos, ah, os seus sentimentos... É difícil... É difícil, fico com nó na garganta, aperto no peito, vontade de te abraçar, de te levar pra Terra do Sempre comigo... É difícil saber que você veria esse abraço de uma forma diferente do que ele realmente seria. É difícil saber que... que... Ah... Por que isso foi acontecer, meu Deus? Por que você? Por que eu? 
Mexeu o café com suspiros e concentrou seu olhar vago nos movimentos também vazios do café como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. Deixaram os olhares perdidos na paisagem fora da janela. Queriam perder os olhares fora da janela daquela situação, assim, com salto, pulo, fuga; queriam quebrar o vidro daquela paisagem deles e sumir com todos os cacos que se espalhariam por dentro do possível nós; queriam olhar tudo de cima, queriam não sentir o que sentiam, mas sentiam, sentiam, sentiam. 
Uma lágrima caiu. 
Era impossível controlar qualquer reação naquele momento. Se a lágrima ameaçasse cair, ela cairia. E caiu.
Desprendendo-se do vazio num susto, ele olhou para ela... 
- Não chore, por favor, não chore. 
- Não chorar?! - Dizia ainda com os olhos cheios de estrelas mortas que brilhavam insistentemente - Venha, pegue meu coração, arranque-o de mim, só assim não vou chorar. Venha, pegue meu coração e coloque-o no lugar do seu, quero ver se não irá chorar assim. Venha, pode pegar até porque ele não mais me pertence, não mais bate a todo segundo para me manter respirando, para me manter pensando, para me manter viva, mas somente bate para te manter respirando em mim, para me manter pensando em ti, para te manter vivo, bem vivo aqui.
- Sou difícil de chorar mas, acredite, estou dilacerado. Cada canto meu chora. Definitivamente, não estamos em tempos de risos. 
- E pensar que poderíamos acabar com isso tudo...
- Poderíamos?
- Poderíamos. Mas não podemos, não vê? Não vê que o que traz tanta dificuldade são todas essas correntes que carregamos em nós? Não vê que o difícil não está na situação, mas na gente? Porque a situação está aqui, e isso você consegue perceber, conhecer cada detalhe. Mas e o que te prende? Consegue se soltar? Consegue se deixar voar pelo o céu da gente, só da gente? As nuvens só nossas nunca formariam uma tempestade... Mas seus olhos preveem somente tempos cinzentos, pensou.
Não teve coragem de dizer seu pensamento em voz alta. Se fosse dito, mesmo que em sussurro praticamente inaudível, a praga poderia tornar-se realidade. Mas a verdade era que o "tornar-se realidade" já era real, já havia se tornado faz tempo mas... E o medo de admitir e trazer outros tornados ao bom tempo? 
Entre toda a agonia, uma pausa, um sorriso tão pequeno que quase não era um sorriso. Ela ficou imaginando o céu, os passarinhos, o tempo de cantos de volta. 
-  Não vejo, não consigo. - Ele respondeu.
O não-estamos-em-tempo-de-sorrisos voltou para ela antes mesmo que algum passarinho pudesse dar o primeiro pio, o primeiro voo.
- Não vejo... não vejo... Sou cego do coração... Sou insensível dos olhos... Sou surdo da mão. A minha corrente é não me acorrentar. - Admitiu isso com enorme pesar, desejou baixinho e de fininho que não fosse assim como era.
- Não se acorrentaria... Não vê que assim seria livre? Se sua corrente é esta, está me dizendo que tem uma corrente, então, se acorrenta. E onde está a parte do não se acorrentar? 
- Liberdade... Sonhei tanto em consegui-la... Nunca a terei... - Seus pensamentos envolviam-no como num sonho, nem mesmo ouviu o que foi dito.
- Terá... Comigo... Teremos. - Sua voz soava como uma súplica, assim como o seu olhar.
- O tempo me acorrenta, a vida me acorrenta, será o amor mais uma corrente? Farto estou de correntes da alma... Farto estou de correntes da vida... 
- E não vive. 
- O quê?
- Não vive, simplesmente não vive. Não ama, tem medo, morre de medo de amar. 
- Medo?
- Sim... Não vê de novo, já sei... 
- Medo, nunca tive medo, que história é essa?
- Nunca teve medo?! Ah, ora essa! Então, prove. Olha pra mim, me encare. 
Ele desviou o olhar, não conseguia deixar que seus olhares se encontrassem por muito tempo.
- Eu disse olha pra mim. Olha. 
Relutante, olhou. Olhou tímido, prestes a desviar novamente, mas algo o acorrentou e não conseguiu voltar seus olhos para o nada, para o vento que balançava a árvore tranquila lá fora, fora de toda a cena, fora deles. Viu o que queria ver mas não conseguia. Viu o que não se permitia enxergar mas que esteve na sua frente todo o tempo. Viu-a. Viu seus olhos. Viu seus lábios, seu cabelo, suas mãos perto das suas. Implorou, mentalmente, para que elas se mexessem, se aproximassem somente mais um centímetro, que se encostassem, se tocassem, se sentissem. Viu a realidade. Não viu mais a dificuldade. Tudo estava ali, o suspiro, o café, tudo. 
Os corações trocaram-se naquele momento, o dele passou a ser dela e o dela, bom, o dela já era dele. Os corações suspiram de felicidade, de alívio, deixando todos aqueles suspiros que mergulhavam e nadavam no café sonhando em ser, um dia, como eles.
Ela. 
Ele.
Jun
Tos.
Final
mente.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Encantado, passou a viver

Levantou da cadeira, saiu maravilhado. Os olhos de seu coração haviam transmitido tudo que enxergavam com sentimento para os olhos do rosto. Levantou cambaleando de tanto sentimento, de tantos pensamentos. Segurou-se no braço da poltrona como quem segura um fio de ideia entre os dedos. Agarrou-a e fê-la habitar em seu ser - a poltrona, tudo. 
A cada passo que dava, parecia não se mover, apesar de sua mente estar se movimentando ainda mais rápido do que qualquer outro movimento feito pelo corpo, até mesmo os próprios batimentos cardíacos, que aceleravam apostando corrida com o batimento do segundo anterior. 
Nunca se esqueceria de tal dia, nunca se esqueceria de tais cenas. 
Tudo se passava rapidamente, e não como um filme, mas como um livro que respira e se move. Tinha vida, se mexia, sentia, respirava, até sorria. E fazia-o sorrir, respirar, sentir, se mover e, principalmente, viver. Vivia por ter visto o que viu; por ter vivido o que foi vivenciado por outro, passava a viver, passava a enxergar. Passou a caminhar com o coração, a caminhar com o ser humano que estava prestes a se entregar ao abismo da realidade cruel criada por outros ao seu redor, mas que foi resgatado no último minuto da sua existência. Passou a pensar. Passou a não somente passar. 
Assim, passou por mim pela porta do teatro ao fim da primeira peça que ele teve a oportunidade de assistir. Encontrei-o no final, parado em frente ao teatro olhando-o como quem olha para o tempo que se vai, despedindo-se do que era antes de encontrá-lo e abraçando o novo que estaria por vir.

[Inspiração: você  lembra da primeira vez em que foi ao teatro?]

sábado, 13 de outubro de 2012

Pincelada de eternidade

A festa acabou, era hora de nos despedir. Flor pegou o seu casaco, vestiu o seu melhor sorriso e cumprimentou um a um.
- Tchau, querida. Fica com Deus. Ah! Continua linda desse jeito que você é. Tchau, tchau, até.
Passou por mim, me abraçou, falou comigo. Quando terminou, olhou ao redor e disse:
- Faltou falar com alguém? Não, né? - Mas o seu olhar cruzou com o meu e...- Ah! Como pude me esquecer de você? Poxa, vida! Tchau, tchau, querida. Continue com toda essa beleza. Ah, que sorriso lindo! Não deixe que ele desapareça, se cuida, até. 
Falou comigo novamente.
E, assim, passou a cumprimentar a todos mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. 
Seus filhos tinham paciência. Deixavam que ela falasse com todos duas vezes, pelo menos, mas chegava uma hora em que precisariam colocar um ponto final em todos aqueles abraços e beijos, se não nunca sairiam de lá.
Flor falou comigo de novo. Abracei-a com gosto e sorri, como da primeira vez. Recebi o mesmo olhar, o mesmo abraço, o mesmo sorriso, o mesmo carinho, as mesmas palavras, os mesmos desejos e pedidos delicados como se fosse a primeira vez em que eu tivesse recebido-os. 
- Vamos, mãe. A senhora já falou com todos. 
- Não, não. Falta falar com a tua tia. Só um minuto, filha, só um minuto. Ô, Cibele! Não falei contigo, vem cá, vem cá. 
E lá ia ela novamente. 
Do canto, assistia Flor com cuidado, com um sorriso fraquinho nos lábios que escondia uma preocupação: será que piora? Por enquanto, era engraçadinho. Mas, com o passar do tempo... E se ela se esquecer de todas as suas outras memórias? Ah, ela tem memórias tão lindas. Sempre que nos encontramos, ela me conta sobre a época em que vivia na fazenda de seu pai em Minas Gerais. Lembra de tudo tão perfeitamente que cada palavra dita me pega pela mão e me faz voltar no tempo com ela, ir até Minas, andar a cavalo, sentir o vento... Ah, Flor, Flor... Ah, Flor...
Acordei ao ver que ela estava caminhando até a mim novamente.
- Tchau, querida. 
- Vamos logo, mãe!, gritou sua filha do portão. 
- Ai, esses filhos de hoje em dia não sabem mais esperar... Tchau, tá? Continua sempre... 
- Com esse sorriso. 
- O meu nunca mais morrerá.
- Não esquece de fazer as suas cruzadinhas, viu?
- Não esqueço, não.
Lançou-me um olhar de carinho, passou a mão pelo meu cabelo. Ficamos assim não sei por quanto tempo. A tela pintada por este momento me presenteou com uma pincelada de eternidade que, mesmo quando passasse, continuaria em mim, seria eterno em mim. Despertamos assim que sua filha gritou novamente. Apressada, porém ainda com olhar calmo, ela disse: - Um beijo, se cuida. 
- Tchau, Flor, tchau. E... não se esqueça de lembrar, por favor.