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sábado, 17 de outubro de 2020

Sólido de mim

 Sobre aprender a ser só, Gil.

Vivo e enquanto penso, vivo. Enquanto penso, vivo. E no enquanto desses pensamentos (ou no enquanto dessa vida), vai despertando uma ideiazinha dizendo: é preciso aprender a viver só. Não necessariamente solidão. Mas o aprender a lidar com o sólido de si. O encarar. O respeitar. E o mais lindo, encontrar felicidade na minha solidez. Vê-la parte se dissolvendo, parte se recriando e o sólido permanecendo, entre mudanças, permanecendo. 

Nessas manhãs o sólido me vêm. Me vêm cheio de palavras, cheio de sorrisos, em silêncio, que abraça. Nesse tempo que não há tantos abraços, ele me vêm no só, me abraça. Não quer nada em troca. Quer só dizer, só sorrir e só deixar por aqui, em algum espaço do estar só, em algum espaço da solidez, o seu abraço. A sua presença, que é a minha. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Um canto de passarinho

 De relembrar um querer.

De perceber que esse querer é um desejo. 

De saber que esse desejo é um sonho. 

Esquecidinho. 

Mas relembrado. 

Nesta noite

que precisa sim

ser relembrada.


Que acordem os sonhos

ainda que eu durma

que me acordem

me despertem

sempre e mais.


Do livro.

Da viagem ao mundo.

Da defesa de quem precisa.

Da casa simples, da família simples.

Do amor de todo dia. 

Que eu sempre aja 

com muito amor todo dia, todo o dia.


domingo, 5 de maio de 2019

A fala do eterno

E pensar
que mesmo não existindo,
já te escrevo.

Sei que será tão bela,
tão vida
que sonho.

Não quero que sejas minha
- que não seja de ninguém -
mas que simplesmente seja.

Dos sussurros dos dias.
Que tanto pertencem a nós.
- ai de mim fazer o caminho contrário -
que tanto preciso ouvir. 

Da teimosia feroz

O filho nasce e penso que seria diferente.
Penso o quanto mudaria.
Que viria, sinceramente, uma nova visão
- a esperança.

Mas tudo continua o mesmo.
O mesmo erro.
O mesmo egoísmo.
A mesma falta de enxergar.
E exclusão.

Essa que dói tanto.
Não queria afirmar.
Mas não posso deixar de fazê-lo,
seria ignorância
porque é, porque é ela que tá aqui
e existe.

Pulsa tanto que paralisa
o pulsar.
Daquela dor que vai parando o peito
devagar
diminui
o tempo de vida
o meu
e o seu

Seria tão fácil
tão simples
se não tão simples não fosse,
não seria
mas é e, mesmo assim,
acaba não sendo.

De um lado, ela me olha, tão imperiosa
de outro
o controle
que dá tanto o gosto
dói em quem gosta
dói em quem é controlado
em que observa e convive
vidas se perdem nesses exatos momentos
tanto impacto

De outro
a confusão
que faz pensar estar fazendo a coisa certa
engano infinito
pensamentos tão restritos
apequenadores.

Nossa condição é tão imensa
tão viva
que aqui estamos
encontramos esses pormenores
que assim deveriam ser
e viram tão maiores, gigantes
nos prendem e amordaçam
por quanto tempo?A
- por aquele tempo que você permitir

seria tão fácil
pela companhia sincera
pela sinceridade por si só
pela verdade
plena e limpa
como é
olhos claros
e cheios de brilho
vida inteira
pulsante
e imensa.

Sem fim,
existe um tempo em que tudo se explica.
Queria eu que se explicasse no agora.
Que fosse visto - tão claro.
Percepção tão pura.
Tão nós.
Que não se vai.
Permanece e agrandece,
acrescenta o sempre.

A mim e a tantos alguéns queridos. 
Dói um infinito.
Mas que venha descoberta ainda maior. 

domingo, 10 de março de 2019

De viver com o tempo

Acontece que a vida gosta. Gosta de encarar a gente. De observar. Será que consegue, será que aguenta. Mesmo sabendo que sim. Mesmo sabendo que sim, gosta de ver como lidamos com o que nos encontra no caminho. Sabe antes de tudo que não estamos prontos, mesmo sempre estando. É que descobrimos depois, nos surpreendemos depois. Os momentos veem e se achegam desse jeito, uma simples, difícil e bela surpresa. 

Eu realmente achava que não conseguiria. Mas olhar para trás e viver por isso trouxe ainda outras tantas lembranças. E o olhar por outro, sabendo que vive o mesmo, que está aprendendo. Nada como o tempo. Nada como o tempo para perceber o quão está errado. O quanto nossa arrogância é sem justificativa. O quanto perdemos por não enxergar, e afastamos. Os sinceros, os humildes, os que amam. 

Mesmo sabendo que ainda não está completo, que não está perfeito, já é o caminho. Tão cheio de fraquezas, tão cheio de brilho que me traz depois. Esse brilho que tenho, se tenho, é dele. Um caminho conjunto, eu o construo e ele me constrói. Tudo num mesmo som, mesma harmonia, ainda que não percebida. Tão singela, tão perfeita. Que percebê-la um tanto me traz esses olhos cheios d'água, de dentro. Essas águas cessam e ficam um pouco, como paixão, como o brilho, de vida. Poder contar pelo o que passei é simplesmente uma honra. Sentar um pouco e contar, como uma história dos antigos, hoje rara entre fogueiras, comum em restaurantes, casa de amigos e família. Tão comum, tão presente. Entre risos, entre tensões e silêncios de escuta. Tudo harmonia. Tudo crescimento. 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Resistência II

De reconhecer que o caminho que escolhi não era o melhor. Foi o melhor. Mas de saber que agora há outros caminhos, e você escolheu primeiro. Disse que era eu. Mas foi você quem escolheu primeiro. E aí veio o descompasso. A estranheza, essa coisa estranha.

Mas sou firme.
Somos.

E a vida é feita de caminhos.
Estarei naquele que for o melhor.
Aquele que ela escolheu pra mim.

E agradecendo por todos que vivi.
Isso como uma construção por dentro. Em que não sou mais a mesma, mas estarei ainda mais perto de ser quem eu sou.

Essa, a coragem de encarar o caminho.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Pensamento 18 de 365


                                                                                                                                              Autocrítica:
momentos-talvez-branda-demais 
momentos-talvez-exagerada-demais

As imagens rápidas. O pensamento-segundo (segura, se não escapa) prolongado nos tempos: futuro e presente (presenteia a quem? A mim vai longe (ou perto e mal sei?)). Que graciosidade perceber que ainda há interrogações. Aqueles que reclamam, pestanejam por enxergar muitas, continuem enxergando. A sensação de não tê-las por perto é de silêncio-morto e palavra-morta. Palavra que diz mas que, se não fosse dita, não faria diferença nenhuma para alguém e para quem a fala. Por que falar, então?

Silêncio.

Silêncio que não sabe o que dizer, não por vergonha ou timidez, realmente não sabe. Não por nervosismo, não por fuga das palavras. Não sabe. O que dizer? É personagem que não vive, que anda e o único pensamento é o passo (silêncio). Silêncio vago, não de mistério, é de vazio, de lugar que nem mesmo passarinhos chegam perto no recolher da tarde, muito menos no acordar da manhã, que festejam entre os bons-dias em cantos e voos. 
Se antes havia procurado ajuda por não saber expressar os pensamentos, agora a ajuda é por não saber o que expressar. E pergunto-me: por quê? Será isso o ser humano? O lidar bem com a fala não é somente o falar bem, mas falar de modo que não fique a sensação de que tudo foi falado. E as pausas entre as palavras, o que elas não disseram? Ou disseram sem dizer? Aprender a falar e a andar parece maior, parece que é para toda a vida, assim como ser. (Aliás, aprende-se?). O falar-bem trouxe-a excitação, ânimo de quanto mais se tem, mais se quer. Mais se fala. Daí, os equívocos. E da percepção do princípio de equívocos, o silêncio. Pelo menos, percebia. Não percebia tudo porque o labirinto estava montado, e assim como um belo labirinto, havia aquelas paredes que fazia-a encontrar-se com si mesma. E só aí percebia porque no caminhar, sem perceber o labirinto, pensava apenas no caminhar. Equívoco. O cultivo de pensamentos limitados a um ato. Traz silêncio e o som oco dos passos por dentro, com o tempo, dói e corrói. O eco exterior, se existe, ouvi-lo não é pecado, transformá-lo em interior, sim. Feroz, destrói possibilidades de plantações e flores que, em pensamento, imaginavam em nascer. E não nascem. Brutalidade: transformar-se em bruto, material, objeto, silencioso como coisa - silêncio de coisa, é isso -. Não quero ser pedra que só recebe as marcas da água do tempo. 


[Sobre a personagem que aparece e some de repente:
Eu ou ela? Até aonde vai o limite entre o ser-criado e o ser-que-existe?
Não sei, mas os verbos que se mesclam na terceira e primeira pessoa querem, 
sim, me (nos) dizer alguma coisa.]

terça-feira, 4 de junho de 2013

Passar, no infinitivo

"Isso passa.
Você vai crescer, passa."

Passa quem?
Passa o quê?
Passa. Passa.
Passa, dizem os pontos inquestionáveis
(que não questionam.)

Passa.
Os instantes.
As nuvens.
O eu. - Será que ainda fico quando me for?
O ser nuvem instantânea (querer ser)
logo água-rio, num piscar, chuva
sem respeitar o ciclo:

                        passa   

                       (sim)                                                 (não)

                         pa   u  s a


Eu vou crescer:
                                perdas
Vou passar:
                                perdas, perdas
Vai passar:
                                perdas, perdas, perdas

Passar, passar, passar.
O infinitivo não é à-toa,
e ainda gargalha de ti quando não o percebe
- por que se venda
quando deveria enxergar?
(Percebe-te?)

Todos também
sede passagem,
enquanto, sedentos de pressa,
passam.
São: aberturas dos próprios caminhos que não seguem.
São? Não.

Crescem
e perecem
- isso passa?

(Passam.)

Eu passo.
Vento-passarinho-pedra.
Passos.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Pensamento 15 de 365

você marcha, José!
José, pra onde?


C. Drummond 

Pra onde? Pra onde? Pra onde? 
Eu marcho... José, pra onde?


José, bem que você poderia ter todas as respostas do (mu)n(do).
Mas isso seria uma rima ou uma solução? Ou talvez devesse ser mesmo assim: você, José, a marcha, 
o onde-não-se-sabe-onde-é. 

Mas é logo ali, José. Sempre logo ali...
E, enquanto isso, a gente marcha.
Marcha, enquanto o isso
nos atropela.


[Não é poema. Não é prosa. Não tem rima. É José. É interrogação.]

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poema segundo abraços

Encaixar um ano nos abraços de
segundos.

Encaixar um ano
inteiro
nos (a)braços dos segundos

Abraços
de um ano
a cada cinco segundos:

                                                                               re
                                                                                encontros.


[Segundos. Inteiro(s). De um ano.]

domingo, 2 de dezembro de 2012

Reticências, última parte.

Sua vida foi defender-se da vida, de si... Do mundo. E isso ela fez bem. Na verdade, foi o que aprendeu a fazer de melhor durante todos esses anos: defender-se, e esta era a sua defesa contra todos os medos, inclusive o de não viver. (Falhou com este último.) 
Ao acordar do seu sonho-acordado, desejou baixinho "Vira realidade, por favor..." Seu pedido não foi uma ordem. Foi um pedido jogado ao vento que queria que passasse e levasse-na para um lugar, qualquer lugar, onde servisse de moradia para a realização de seu desejo. Mas o vento não passou. Sentiu dó, teve vontade de passar nem que fosse por um segundo... Mas, não. Ela deveria fazer isto sozinha. (Não fez.)
A lâmpada não apareceu. O gênio não apareceu para salvar aquele pobre coração que choramingava pelos cantos e que, antes mesmo de ver o ponto final da sua história, já decretava o fim. Depois, ainda se dizia esperançoso... Não sei que esperança é essa, coração. Se existir, só as paredes sabem. Elas guardam segredo nossos que nem mesmo nós sabemos, calam-se fácil. Talvez, um dia, foram como a moça que também deixava-se calar por pouco quando mais deveria seguir a sua voz, mesmo que esta faltasse no momento. Ela nasceria e haveria voz. Haveria... haveria... (Não houve.)
Foram-se embora. 
Assim que ela virou as costas, passou a inventar novamente mais um diálogo imaginário. (Ele também.)
E as paredes viram...
[De mim, nunca espere um final feliz.
Porém, se escrevo triste
não é para entristecer-te
é para criar coragem
e, nesse caso,
viver.

E outra:
nunca duvide
da imensidão
de um olhar.

Esse texto nasceu de um outro 
texto chamado Três Grandes Pontos
Pontos grandes mesmo,
por esconderem um 
mundo em si. ]

sábado, 24 de novembro de 2012

Reticências, primeira parte.

- É tão difícil...
- Tão difícil o quê?
- Tudo... Tudo é difícil. É difícil falar até mesmo a palavra difícil. É difícil te responder, me fazer falar quando estou com você... É difícil te olhar, deixar o meu olhar no seu... É difícil... É difícil terminar uma frase contigo. É difícil, meu Deus, como é difícil.
- É difícil, mesmo. É difícil te olhar quando sei que o seu modo de olhar não é o mesmo que o meu. É difícil saber que seus pensamentos sobre mim são diferente dos meus sobre você, que os seus sentimentos, ah, os seus sentimentos... É difícil... É difícil, fico com nó na garganta, aperto no peito, vontade de te abraçar, de te levar pra Terra do Sempre comigo... É difícil saber que você veria esse abraço de uma forma diferente do que ele realmente seria. É difícil saber que... que... Ah... Por que isso foi acontecer, meu Deus? Por que você? Por que eu? 
Mexeu o café com suspiros e concentrou seu olhar vago nos movimentos também vazios do café como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. Deixaram os olhares perdidos na paisagem fora da janela. Queriam perder os olhares fora da janela daquela situação, assim, com salto, pulo, fuga; queriam quebrar o vidro daquela paisagem deles e sumir com todos os cacos que se espalhariam por dentro do possível nós; queriam olhar tudo de cima, queriam não sentir o que sentiam, mas sentiam, sentiam, sentiam. 
Uma lágrima caiu. 
Era impossível controlar qualquer reação naquele momento. Se a lágrima ameaçasse cair, ela cairia. E caiu.
Desprendendo-se do vazio num susto, ele olhou para ela... 
- Não chore, por favor, não chore. 
- Não chorar?! - Dizia ainda com os olhos cheios de estrelas mortas que brilhavam insistentemente - Venha, pegue meu coração, arranque-o de mim, só assim não vou chorar. Venha, pegue meu coração e coloque-o no lugar do seu, quero ver se não irá chorar assim. Venha, pode pegar até porque ele não mais me pertence, não mais bate a todo segundo para me manter respirando, para me manter pensando, para me manter viva, mas somente bate para te manter respirando em mim, para me manter pensando em ti, para te manter vivo, bem vivo aqui.
- Sou difícil de chorar mas, acredite, estou dilacerado. Cada canto meu chora. Definitivamente, não estamos em tempos de risos. 
- E pensar que poderíamos acabar com isso tudo...
- Poderíamos?
- Poderíamos. Mas não podemos, não vê? Não vê que o que traz tanta dificuldade são todas essas correntes que carregamos em nós? Não vê que o difícil não está na situação, mas na gente? Porque a situação está aqui, e isso você consegue perceber, conhecer cada detalhe. Mas e o que te prende? Consegue se soltar? Consegue se deixar voar pelo o céu da gente, só da gente? As nuvens só nossas nunca formariam uma tempestade... Mas seus olhos preveem somente tempos cinzentos, pensou.
Não teve coragem de dizer seu pensamento em voz alta. Se fosse dito, mesmo que em sussurro praticamente inaudível, a praga poderia tornar-se realidade. Mas a verdade era que o "tornar-se realidade" já era real, já havia se tornado faz tempo mas... E o medo de admitir e trazer outros tornados ao bom tempo? 
Entre toda a agonia, uma pausa, um sorriso tão pequeno que quase não era um sorriso. Ela ficou imaginando o céu, os passarinhos, o tempo de cantos de volta. 
-  Não vejo, não consigo. - Ele respondeu.
O não-estamos-em-tempo-de-sorrisos voltou para ela antes mesmo que algum passarinho pudesse dar o primeiro pio, o primeiro voo.
- Não vejo... não vejo... Sou cego do coração... Sou insensível dos olhos... Sou surdo da mão. A minha corrente é não me acorrentar. - Admitiu isso com enorme pesar, desejou baixinho e de fininho que não fosse assim como era.
- Não se acorrentaria... Não vê que assim seria livre? Se sua corrente é esta, está me dizendo que tem uma corrente, então, se acorrenta. E onde está a parte do não se acorrentar? 
- Liberdade... Sonhei tanto em consegui-la... Nunca a terei... - Seus pensamentos envolviam-no como num sonho, nem mesmo ouviu o que foi dito.
- Terá... Comigo... Teremos. - Sua voz soava como uma súplica, assim como o seu olhar.
- O tempo me acorrenta, a vida me acorrenta, será o amor mais uma corrente? Farto estou de correntes da alma... Farto estou de correntes da vida... 
- E não vive. 
- O quê?
- Não vive, simplesmente não vive. Não ama, tem medo, morre de medo de amar. 
- Medo?
- Sim... Não vê de novo, já sei... 
- Medo, nunca tive medo, que história é essa?
- Nunca teve medo?! Ah, ora essa! Então, prove. Olha pra mim, me encare. 
Ele desviou o olhar, não conseguia deixar que seus olhares se encontrassem por muito tempo.
- Eu disse olha pra mim. Olha. 
Relutante, olhou. Olhou tímido, prestes a desviar novamente, mas algo o acorrentou e não conseguiu voltar seus olhos para o nada, para o vento que balançava a árvore tranquila lá fora, fora de toda a cena, fora deles. Viu o que queria ver mas não conseguia. Viu o que não se permitia enxergar mas que esteve na sua frente todo o tempo. Viu-a. Viu seus olhos. Viu seus lábios, seu cabelo, suas mãos perto das suas. Implorou, mentalmente, para que elas se mexessem, se aproximassem somente mais um centímetro, que se encostassem, se tocassem, se sentissem. Viu a realidade. Não viu mais a dificuldade. Tudo estava ali, o suspiro, o café, tudo. 
Os corações trocaram-se naquele momento, o dele passou a ser dela e o dela, bom, o dela já era dele. Os corações suspiram de felicidade, de alívio, deixando todos aqueles suspiros que mergulhavam e nadavam no café sonhando em ser, um dia, como eles.
Ela. 
Ele.
Jun
Tos.
Final
mente.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ir-se, início.

Ela criava um futuro que não viveria. E sabia que não iria vivê-lo. Mas criava, mesmo assim, por ter uma mente inquieta, andante entre pensamentos da imaginação, entre planejamentos do que poderia ou não acontecer.
Não perdia nada ao planejar. Se acontecesse, já estava com tudo pronto mentalmente; se não, seguiria em frente e planejaria algo diferente. Isso é o que os olhos enxergavam de longe e superficialmente. Se fossemos vê-la de perto, cuidar dos seus cuidados, dos seus detalhes, veríamos que entre um plano não realizado e outro, havia muito sentimento. Um deles era a saudade. Sim, saudade. De quê? De como viveu enquanto planejava. Tais momentos costumam trazê-la felicidade por pensar sempre muito positivamente, até quando enxergava a possibilidade de não acontecer o que ela queria que acontecesse. Pensava assim. Por que não?
Apesar de não poder adivinhar o futuro, poderia fazê-la de sua própria adivinha do que viria sem saber o que realmente estava por vir. Não há impedimentos para isso. Se existe um lugar onde somos livres para fazermos o que quisermos, este é o nosso querido pensar, nossa imaginação, nossa mente. A liberdade vive aqui, a não ser que você cisme de acorrentá-la com pensamentos anti-liberdade que, ultimamente, encontramos soltos por aí. 
Nascemos com liberdade e esta pode se perder em nós através do tempo ou não; pode ser encontrada depois ou não; pode ter uma vida curtíssima enquanto você vive longamente, pode viver longamente enquanto você vive sua vida curta, pode ser tão curta quanto a vida ou tão longa quanto ela. Pode, sempre pode. Pode qualquer coisa. Pode, pode, pode. Ela é a liberdade, então, pode. 
Entretanto, a liberdade deixava de habitar tal moça aos poucos, tão devagar e tão rápido como o Sol que surge ao amanhecer cor a cor, tom a tom; rápido e lento. A diferença é: o amanhecer, você nota quando ele se vai e a liberdade quando se vai... Ah... Talvez você não perceba, não diga adeus sem pronunciar tal palavra por, simplesmente, não vê-la partir dia após dia, segundo após segundo num tchau-de-mão tão vagaroso quanto o distanciamento fugaz que em câmera lenta se faz, se acontece. Mas, infelizmente, não se percebe, não se observa, não se vê, deixa-se partir e se deixa partir. Deixou-se partir ao deixa-la partir; partiram-se, uma de si; outra, em si.

sábado, 13 de outubro de 2012

Pincelada de eternidade

A festa acabou, era hora de nos despedir. Flor pegou o seu casaco, vestiu o seu melhor sorriso e cumprimentou um a um.
- Tchau, querida. Fica com Deus. Ah! Continua linda desse jeito que você é. Tchau, tchau, até.
Passou por mim, me abraçou, falou comigo. Quando terminou, olhou ao redor e disse:
- Faltou falar com alguém? Não, né? - Mas o seu olhar cruzou com o meu e...- Ah! Como pude me esquecer de você? Poxa, vida! Tchau, tchau, querida. Continue com toda essa beleza. Ah, que sorriso lindo! Não deixe que ele desapareça, se cuida, até. 
Falou comigo novamente.
E, assim, passou a cumprimentar a todos mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. 
Seus filhos tinham paciência. Deixavam que ela falasse com todos duas vezes, pelo menos, mas chegava uma hora em que precisariam colocar um ponto final em todos aqueles abraços e beijos, se não nunca sairiam de lá.
Flor falou comigo de novo. Abracei-a com gosto e sorri, como da primeira vez. Recebi o mesmo olhar, o mesmo abraço, o mesmo sorriso, o mesmo carinho, as mesmas palavras, os mesmos desejos e pedidos delicados como se fosse a primeira vez em que eu tivesse recebido-os. 
- Vamos, mãe. A senhora já falou com todos. 
- Não, não. Falta falar com a tua tia. Só um minuto, filha, só um minuto. Ô, Cibele! Não falei contigo, vem cá, vem cá. 
E lá ia ela novamente. 
Do canto, assistia Flor com cuidado, com um sorriso fraquinho nos lábios que escondia uma preocupação: será que piora? Por enquanto, era engraçadinho. Mas, com o passar do tempo... E se ela se esquecer de todas as suas outras memórias? Ah, ela tem memórias tão lindas. Sempre que nos encontramos, ela me conta sobre a época em que vivia na fazenda de seu pai em Minas Gerais. Lembra de tudo tão perfeitamente que cada palavra dita me pega pela mão e me faz voltar no tempo com ela, ir até Minas, andar a cavalo, sentir o vento... Ah, Flor, Flor... Ah, Flor...
Acordei ao ver que ela estava caminhando até a mim novamente.
- Tchau, querida. 
- Vamos logo, mãe!, gritou sua filha do portão. 
- Ai, esses filhos de hoje em dia não sabem mais esperar... Tchau, tá? Continua sempre... 
- Com esse sorriso. 
- O meu nunca mais morrerá.
- Não esquece de fazer as suas cruzadinhas, viu?
- Não esqueço, não.
Lançou-me um olhar de carinho, passou a mão pelo meu cabelo. Ficamos assim não sei por quanto tempo. A tela pintada por este momento me presenteou com uma pincelada de eternidade que, mesmo quando passasse, continuaria em mim, seria eterno em mim. Despertamos assim que sua filha gritou novamente. Apressada, porém ainda com olhar calmo, ela disse: - Um beijo, se cuida. 
- Tchau, Flor, tchau. E... não se esqueça de lembrar, por favor. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O sorriso do abraço, o abraço dos olhos

Da janela do ônibus, encontrei um par de olhos distraídos mas que logo encontraram os meus. Os olhos pequenos que me enxergavam, apertaram-se num sorriso sincero que sonhava em ser abraço. Os meus, sorriram o mais bonito que poderiam sorrir, abraçaram o mais forte que poderiam abraçar, pois eles sabiam que aquele momento iria partir assim que o sinal fechado se abrisse. Aquele momento de segundos que se eternizou, que até mesmo deixou o sinal vermelho sem vontade de virar verde para que pudesse observar por mais tempo a cena que presenciava; mas enverdeceu-se logo, tomando a cor da grama de um enorme campo feito para se deitar, conversar, rir, sorrir, se abraçar e se momentear. Deixei-me rolar por ela e ela rolar por mim.  Acenei para a criança dos olhos risonhos que abraçam, deixei-a partir com o vento que seu ônibus jogou nos meus cabelos, como um suspiro de quem se vai sem querer ir, de quem se vai mas, de certa forma, fica.
E ficou.
O seu sopro assemelhou-se mais a um beijo de despedida em minha testa que recebi ainda sorrindo e com o coração dizendo "Fica, fica, fica." Mas foi-se sem ficar. Mas ficou-se sem ir. 
Guardei-te. Agora, mora na Rua das Surpresas que nos Trazem Felicidade numa casinha simples que visito, com tempo ou sem tempo, visito sempre que posso.

Da série Olhares e Sinal Fechado.

sábado, 8 de setembro de 2012

Ser aspas: não se foi e séria, seria.

As aspas falam mais por ela do que quando estava sem elas. Sem aspas, estava sem roupas. 
Assim, sua vida baseou-se em aspar. Ouvia uma opinião, achava boa e dizia que esta, agora, seria dela. E fazia dela sem nunca pensar profundamente sobre o que agora chamava de seu realmente queria dizer, o que ele era, o que ela estava se tornando ao não pensar, ao deixar de ser. Só repetia, repetia e repetia; até um dia em que encontrou alguém questionador. Ele, além de questioná-la, tentava fazer com que enxergasse o outro lado da moeda, os outros peixes que nadavam no mar tão coloridos, tão bonitos, mas que ela nem notava, se negava e renegava fazer tal absurdo. Não sabia mais pensar além do que aquilo que ouviu falar. Sentia-se ameaçada, agredida, violentada por ele ter tentado tirar as suas roupas, as aspas, e afastou-se.
Ao invés de aproveitar esse momento para parar e pensar em tudo que dizia, continuou vivendo da maneira que vivia, continuou sendo quem não era, continuou fazendo o que sabia fazer sem vergonha e com medo de mudar. Continuou a aspar.

domingo, 13 de maio de 2012

Tesouro de lembranças

Numa tarde em que organizava as bagunças da sua casa, descobriu um tesouro empoeirado e escondido, mas não esquecido. Desempoeirou-o e um belo sorriso nasceu em seu rosto enquanto seus olhos passavam pelos títulos daquelas fitas de vídeo. Seu coração transformou-se numa morada de passarinhos que, naquele instante,  tinham acabado de serem soltos da gaiola. Imagine a alegria, os passos de dança que eles criaram assim que tiveram o vento, a liberdade como par.
Sem colocar nenhuma daquelas fitas no vídeo-cassete, ela conseguia lembrar de tudo que estava gravado ali como se realmente estivesse assistindo-as, pois também estavam gravadas nela. Sentou no sofá, colocou as fitas no vídeo e se preparou para a demora que seria para os passarinhos se aquietarem dentro de seu peito.
Reviu a sua vida, reviveu-a naquelas cenas, naqueles momentos que estariam sempre com ela, no peito, na memória. No fim, chorou e percebeu que o choro era de felicidade - e saudade - por saber que passara por essa vida e tinha experimentado o gosto que este sentimento - tão bom - tem. Seu coração sorriu entre as lágrimas e ela sorriu também. Depois entristeceu um pouco por não ter acreditado em como conseguiu colocar tal lembrança no baú do esquecimento, mas a alegria chegou no seu ouvido e, num sussurro doce, disse:
- Ao menos, você se lembra agora.
E, assim, a tristeza não teve vez, não teve chão e foi-se embora pisar no coração de outro alguém.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Saudade de hoje, de amanhã e de sempre

Voltei com o teu cheiro em minha roupa, sim, aquele que eu tanto gostava de sentir ao te encontrar. Ele ficara em mim logo no último dia em que nos encontramos. Ficou junto com outras muitas lembranças que também ficarão de teimosas, felizes, sorridentes, inteligentes e inovadoras que são. Cheias de conhecimento, de sabedoria, de um novo mundo do qual eu pensava em pertencer.
Teu cheiro ficou em mim, assim como tu também ficará marcado entre meus sentimentos, entre minhas lembranças, portanto, na meu coração e mente. Ficarás, há de ficar. Não fugirás nunca, mesmo que se vás, e irás, algum dia.
O mundo precisa de pessoas como tu, e se precisa!

domingo, 14 de agosto de 2011

Ela, ele e o outro

Ela saiu
num dia importante
Com ele
Deixou o outro
Com coração apertado
Sentindo um gosto amargo

Um, mandou olhar de posse
De vitória
Outro, recebeu o olhar,
Calado
Ela, não sabia de nada
Por trás de tal ato

Um, dizia que a amava
Mentia
Outro, não dizia
Demonstrava
E falava a verdade

Ela, não dizia,
Não demonstrava
Acreditava no errado
Achando-o verdadeiro
E fingia-se de cega para o certo
Não despertava

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Fichas da vida

Se é a vida for um jogo, nunca aposte todas as suas fichas numa única pessoa, num único acontecimento, numa única lembrança, sentimento, expectativa ou objetivo. Nunca aposte todas as suas fichas em algo único. Guarde-as para apostas únicas e use-as uma de cada vez com sabedoria e na hora certa.
Essas fichas descrevem como você é, como você vive e porque a sua vida é do jeito que ela está agora e dizem como você estará no futuro através das atitudes que você faz hoje, no presente. Portanto, saiba usá-las corretamente e tenha consciência do quanto são importantes.