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sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Tribulação, retribu(l)ição

Acontece que eu queria cuidar de você. Não que você precisasse. Não que fosse tutela. Mas de coração pra coração. Coração que entende o outro e acolhe, com coração. Com a quentura. Com o aconchego. Com o lar. Sereno e sincero. Te pegar pelas mãos, como no primeiro sonho, em que voávamos no vento sorrindo. E te trazer pra perto do meu. Calor com calor. Peito a peito. Conflito por conflito e soluções. Te encontrar o ainda menino. Sem o medo. Sem a vergonha. E principalmente sem a culpa. Te encontrar comigo. Te sentir contigo. Te descobrir entre tuas próprias descobertas - e as minhas. Dois aventureiros. Dois marinheiros. Desbravando. Não esquecendo que no céu quando não há a luz do Sol, há sempre as estrelas. Os astros. Estrela-guia interior e superior. Dentro e além. Viva.
Deixa eu cuidar de você, menino. Deixa eu ir até aí. Deixa que eu vá, não só você venha. Deixa a gente secar essas águas salgadas juntos, deixar ela se encaminhar pro mar. Retirar as pedras entre o curso de nossas águas. Nem que seja por algumas trombas d'água. Necessárias. Que se retirem, que se desfaçam. Nem que tenham vindo antes de nós. Reacordar a leveza pela força. A força pela leveza. Guiar este barco, este que navega até mesmo quando não sentimos. Que sintamos.
Que sej-amo-s.
Que viv-amo-s.
E isto seria apenas um agradecer. 
Eterno. 

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Para Ester

Há pessoas que tocam nossas almas. No momento em que os olhos se encontram, não se percebe, mas já estava guardada. Guardada pra encontrar o meu caminho, pra me tocar. E mais do que isso: me ajudar a crescer. E cresço. No momento não se entende, mas, depois, como um amigo mais velho que sabe da vida, o sentido se aproxima e se esclarece. Era para ser assim. 
- Te fiz uma surpresa. Mais uma. - a vida. 
Por mais difícil que possa ser, deixa uma chama viva: permaneça comigo. Te quero aqui. No tocar dessas almas, nascem flores. A gratidão, a sabedoria. O bem. Só se acrescentam, só desabrocham. Só, como se fosse apenas isso. E no momento desse encontro, a vida me testa. Para saber se estou pronta ao próximo encontro. Se respondo com a mesma gratidão, mesma felicidade. Se cresço verdadeiramente. Eu espero que esteja. 

A flor que levei em minhas mãos, com terra, foi pra florecer. Assim como eu flori um pouco mais e simplesmente por você ser quem é. O coração de mãe. O enxergar o bem e o acreditar no outro. Acreditar em mim, saber da minha verdade, da minha ajuda. E me ajudar. E ajudar outros. Por ter em mente o que era o certo. Tua luz encontrou a minha e quero seguir irradiando. Que sigamos.

sábado, 31 de março de 2018

Oração na Páscoa

Senhor,
ensina-me a tua humildade.
Quando penso que amo,
amo pouco.
Tu amou infinitamente mais.
Ensina-me o Teu amor.
Ensina-me a amar.
Para que minha vida se consagre
como um presente Seu.
Para que não seja em vão.
Para que eu seja Tua luz.
E possa ir em paz.

Ensina-me o meu caminho
e o valor dos dias.
Para que me venham como
o desabrochar da natureza.
Ensina-me o Teu coração
em meu coração
e a Tua verdade.

Que Teu nome esteja presente
em minha voz
em minhas palavras
em minhas escolhas.
 
Agradeço por hoje
e pela vida do Teu filho Jesus.
Pela luta e coragem.
Pela resistência.
E principalmente,
pela fé.

Que possas renascer em minha vida.
Nas nossas.
Hoje e eternamente.

Em nome do Pai,
do Filho,
do Espírito Santo,

Amém.

sábado, 24 de maio de 2014

Do dia a dia

Palavras que você lerá um dia

Se digo que vou, não é por desinteresse. Mas saber que posso dizer que vou por ter comigo a certeza da minha volta. E, assim, mesmo na minha ida, a presença da permanência.

A cada pequeno adeus de cada dia. A cada acordar do outro dia. A cada reencontro. Ao vivê-lo juntos.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Insistência no insistir

A vontade me serve com seus mais belos frutos; a racionalidade me condena, lançando-me seu olhar de mãe que repreende o filho quando o vê fazendo algo de errado.
A emoção é forte demais e o medo, mais uma vez, me domina. Finjo que não ouço, que não vejo, que não sinto enquanto, em mim, há um mundo. Este mundo, coitado, cala-se quando mais quer e precisa falar; recebe somente o direito de permanecer mudo, mas grita silenciosamente de um modo, que ouvido de longe, mais se parece com um sussurro que precisamos nos esforçar para ouvir mas, se ouvido de perto, terá vontade de sair correndo para longe de tão alto, tão intenso que é. E será ainda mais, ele me disse. 
Ele anda me fazendo chantagens, me provocando, disse que a surda sou eu por não me permitir ouvi-lo. E pior: a surdez está no meu coração, que foge como louco quando conhece algo que o faz sorrir e se acelerar. Parece coração idoso que tem medo de morrer enquanto seu tum de agora aposta corrida com o tum que se foi, e assim vamos num tum-tum, tum-tum, tum-tum-um-u-m-u-t-u-m sem pausa. Tum engolindo tum. Eu, engolindo-me. 
Mesmo reconhecendo o medo, ainda sinto medo só por senti-lo, só de imaginar que ele poderá piorar, se tudo melhorar porque, quanto mais isso acontece, maior a esperança, as lembranças; maiores serão todos os sentimentos. Melhorará se piorar? Piorará se melhorar? 
Ah... Queria ser profeta, adivinha do futuro; queria saber lidar com o tempo, controlar a ansiedade, a espera e esse o-que-será-de-mim-mais-tarde-?. Queria ser adivinha de pensamentos, saber te ler por dentro sem me deixar guiar pelo o que eu quero ver, mas pelo o que realmente há. Só que é difícil controlar quando os olhos insistem em enxergar somente aquilo que desejam ver. Difícil de saber a verdade quando o coração insiste em insistir sentir. Difícil saber o que irá acontecer quando insisto em não saber se insisto no insistir ou no não-insistir. Difícil de prever quando se vive o que é fácil de imaginar quando somente se inventa.


[Engraçado quando você consegue ri daquilo que um dia te atordoou.
O rascunho está realmente empoeirado.
O momento realmente passou.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Reticências, última parte.

Sua vida foi defender-se da vida, de si... Do mundo. E isso ela fez bem. Na verdade, foi o que aprendeu a fazer de melhor durante todos esses anos: defender-se, e esta era a sua defesa contra todos os medos, inclusive o de não viver. (Falhou com este último.) 
Ao acordar do seu sonho-acordado, desejou baixinho "Vira realidade, por favor..." Seu pedido não foi uma ordem. Foi um pedido jogado ao vento que queria que passasse e levasse-na para um lugar, qualquer lugar, onde servisse de moradia para a realização de seu desejo. Mas o vento não passou. Sentiu dó, teve vontade de passar nem que fosse por um segundo... Mas, não. Ela deveria fazer isto sozinha. (Não fez.)
A lâmpada não apareceu. O gênio não apareceu para salvar aquele pobre coração que choramingava pelos cantos e que, antes mesmo de ver o ponto final da sua história, já decretava o fim. Depois, ainda se dizia esperançoso... Não sei que esperança é essa, coração. Se existir, só as paredes sabem. Elas guardam segredo nossos que nem mesmo nós sabemos, calam-se fácil. Talvez, um dia, foram como a moça que também deixava-se calar por pouco quando mais deveria seguir a sua voz, mesmo que esta faltasse no momento. Ela nasceria e haveria voz. Haveria... haveria... (Não houve.)
Foram-se embora. 
Assim que ela virou as costas, passou a inventar novamente mais um diálogo imaginário. (Ele também.)
E as paredes viram...
[De mim, nunca espere um final feliz.
Porém, se escrevo triste
não é para entristecer-te
é para criar coragem
e, nesse caso,
viver.

E outra:
nunca duvide
da imensidão
de um olhar.

Esse texto nasceu de um outro 
texto chamado Três Grandes Pontos
Pontos grandes mesmo,
por esconderem um 
mundo em si. ]

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Reticências, segunda parte.

Sentiu o vento que a encontrava pela janela que quebrou todo o seu corpo - agora feito de vidro - ao piscar os olhos de seu sonho acordado. Acordou. Soltou um suspiro preso. Soltou-o ao prender-se, ao prender toda a cena na imaginação... como sempre. 
- Ah... por que é tão difícil?
Voltou ao ponto inicial.
- O quê?
- Nada...
E, de lá, não se moveu.
Não houve mais diálogo. O que existiu depois foi somente olhares presos - e não entre os olhos que se encaravam porque não se encarara - entre as vozes das paredes e das coisas ao redor que criavam vida ao rir da sua falta de coragem, do seu medo de agir. Gargalhavam e agrediam a cada risada solta. Como defesa, ela se fazia de surda, ignorava. Ele não se fazia de surdo também porque não tinha ouvidos capazes de ouvir tais risadas, mas estava se saindo um cego nato, e ignorava. Os objetos ouviam e enxergavam. A vida passava. E era só: passava....
Passou...
Seus sonhos moraram somente dentro dela, coitados, nunca conheceram lugares diferentes, nunca respiraram novos ares que não fossem os de sua mente. Mesmo assim, tinham um bom lar, disso não podiam reclamar. Apesar de serem sonhos nascidos de uma imaginação que não os realizaria, eram bem sonhados. E tinham sorte por isso. O coração sonhador que habitavam era forte e, assim, faziam com que este não perdesse sua força, sua vontade... Não os perdesse agora nem aos outros que viriam. Faziam com que ela não se perdesse. Ajudavam-na sem que percebesse.
Mas esta ajuda muito lhe custou...

sábado, 24 de novembro de 2012

Reticências, primeira parte.

- É tão difícil...
- Tão difícil o quê?
- Tudo... Tudo é difícil. É difícil falar até mesmo a palavra difícil. É difícil te responder, me fazer falar quando estou com você... É difícil te olhar, deixar o meu olhar no seu... É difícil... É difícil terminar uma frase contigo. É difícil, meu Deus, como é difícil.
- É difícil, mesmo. É difícil te olhar quando sei que o seu modo de olhar não é o mesmo que o meu. É difícil saber que seus pensamentos sobre mim são diferente dos meus sobre você, que os seus sentimentos, ah, os seus sentimentos... É difícil... É difícil, fico com nó na garganta, aperto no peito, vontade de te abraçar, de te levar pra Terra do Sempre comigo... É difícil saber que você veria esse abraço de uma forma diferente do que ele realmente seria. É difícil saber que... que... Ah... Por que isso foi acontecer, meu Deus? Por que você? Por que eu? 
Mexeu o café com suspiros e concentrou seu olhar vago nos movimentos também vazios do café como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. Deixaram os olhares perdidos na paisagem fora da janela. Queriam perder os olhares fora da janela daquela situação, assim, com salto, pulo, fuga; queriam quebrar o vidro daquela paisagem deles e sumir com todos os cacos que se espalhariam por dentro do possível nós; queriam olhar tudo de cima, queriam não sentir o que sentiam, mas sentiam, sentiam, sentiam. 
Uma lágrima caiu. 
Era impossível controlar qualquer reação naquele momento. Se a lágrima ameaçasse cair, ela cairia. E caiu.
Desprendendo-se do vazio num susto, ele olhou para ela... 
- Não chore, por favor, não chore. 
- Não chorar?! - Dizia ainda com os olhos cheios de estrelas mortas que brilhavam insistentemente - Venha, pegue meu coração, arranque-o de mim, só assim não vou chorar. Venha, pegue meu coração e coloque-o no lugar do seu, quero ver se não irá chorar assim. Venha, pode pegar até porque ele não mais me pertence, não mais bate a todo segundo para me manter respirando, para me manter pensando, para me manter viva, mas somente bate para te manter respirando em mim, para me manter pensando em ti, para te manter vivo, bem vivo aqui.
- Sou difícil de chorar mas, acredite, estou dilacerado. Cada canto meu chora. Definitivamente, não estamos em tempos de risos. 
- E pensar que poderíamos acabar com isso tudo...
- Poderíamos?
- Poderíamos. Mas não podemos, não vê? Não vê que o que traz tanta dificuldade são todas essas correntes que carregamos em nós? Não vê que o difícil não está na situação, mas na gente? Porque a situação está aqui, e isso você consegue perceber, conhecer cada detalhe. Mas e o que te prende? Consegue se soltar? Consegue se deixar voar pelo o céu da gente, só da gente? As nuvens só nossas nunca formariam uma tempestade... Mas seus olhos preveem somente tempos cinzentos, pensou.
Não teve coragem de dizer seu pensamento em voz alta. Se fosse dito, mesmo que em sussurro praticamente inaudível, a praga poderia tornar-se realidade. Mas a verdade era que o "tornar-se realidade" já era real, já havia se tornado faz tempo mas... E o medo de admitir e trazer outros tornados ao bom tempo? 
Entre toda a agonia, uma pausa, um sorriso tão pequeno que quase não era um sorriso. Ela ficou imaginando o céu, os passarinhos, o tempo de cantos de volta. 
-  Não vejo, não consigo. - Ele respondeu.
O não-estamos-em-tempo-de-sorrisos voltou para ela antes mesmo que algum passarinho pudesse dar o primeiro pio, o primeiro voo.
- Não vejo... não vejo... Sou cego do coração... Sou insensível dos olhos... Sou surdo da mão. A minha corrente é não me acorrentar. - Admitiu isso com enorme pesar, desejou baixinho e de fininho que não fosse assim como era.
- Não se acorrentaria... Não vê que assim seria livre? Se sua corrente é esta, está me dizendo que tem uma corrente, então, se acorrenta. E onde está a parte do não se acorrentar? 
- Liberdade... Sonhei tanto em consegui-la... Nunca a terei... - Seus pensamentos envolviam-no como num sonho, nem mesmo ouviu o que foi dito.
- Terá... Comigo... Teremos. - Sua voz soava como uma súplica, assim como o seu olhar.
- O tempo me acorrenta, a vida me acorrenta, será o amor mais uma corrente? Farto estou de correntes da alma... Farto estou de correntes da vida... 
- E não vive. 
- O quê?
- Não vive, simplesmente não vive. Não ama, tem medo, morre de medo de amar. 
- Medo?
- Sim... Não vê de novo, já sei... 
- Medo, nunca tive medo, que história é essa?
- Nunca teve medo?! Ah, ora essa! Então, prove. Olha pra mim, me encare. 
Ele desviou o olhar, não conseguia deixar que seus olhares se encontrassem por muito tempo.
- Eu disse olha pra mim. Olha. 
Relutante, olhou. Olhou tímido, prestes a desviar novamente, mas algo o acorrentou e não conseguiu voltar seus olhos para o nada, para o vento que balançava a árvore tranquila lá fora, fora de toda a cena, fora deles. Viu o que queria ver mas não conseguia. Viu o que não se permitia enxergar mas que esteve na sua frente todo o tempo. Viu-a. Viu seus olhos. Viu seus lábios, seu cabelo, suas mãos perto das suas. Implorou, mentalmente, para que elas se mexessem, se aproximassem somente mais um centímetro, que se encostassem, se tocassem, se sentissem. Viu a realidade. Não viu mais a dificuldade. Tudo estava ali, o suspiro, o café, tudo. 
Os corações trocaram-se naquele momento, o dele passou a ser dela e o dela, bom, o dela já era dele. Os corações suspiram de felicidade, de alívio, deixando todos aqueles suspiros que mergulhavam e nadavam no café sonhando em ser, um dia, como eles.
Ela. 
Ele.
Jun
Tos.
Final
mente.

domingo, 1 de julho de 2012

sábado, 5 de maio de 2012

Laura



Laura minha
minha Laura
doce como o
doce mais doce
do mundo

Laura doce
como jabuticaba
que não vira jabuti
nem acaba

Laura dos sorrisos
que crescem
que nascem
em mim,
da felicidade,
que parte 
do meu peito;
parte sem partir,
pois ficará sempre aqui

Laura, te terei
eternamente
na mente
no sorriso
no peito e
na alma

Laura, te quero bem
te bem quero
te quero-quero.

Laura de ouro,
de pluma,
de mel

Laura da beleza
do sorriso,
da doçura,
da felicidade
na feliz idade,
da brandura.

Laura dos sonhos,
da força,
da luz,
do brilho,
do amor.

Laura, minha Laura
este poeminha
é teu, meu amor

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Labialmente, disse-as.

Veio correndo até a mim. Sorriu sem jeito ao chegar perto donde queria chegar, sorri de volta.
- Posso falar contigo?
- Claro.
- Bem...
- Sim?
- Então...
- Diga.
- O que você...
- O que eu...?
-  Esquece. Mas, e...
- Continue.
- Só um minuto.
- Tudo bem.
Ele atendeu o telefone, dei as costas para mim, continuei a organizar as flores de minha loja até que encerrasse a ligação.
- Pronto. Aonde estávamos?
- Você ia começar a falar sobre...
- Sobre o que?
- Não sei, não terminou de falar.
- Ora, você sabe, diga-me.
- Se você tivesse falado, eu saberia.
- Já devo ter falado... Como não falei?
- Tentou, somente.
- Então, continuemos.
- Ande logo, está me deixando ansiosa.
- Desculpe.
- Sem mais delongas, sem mais rodeios, diga. Qual dificuldade há em falar?
- Nenhuma, nenhuma. - Toda dificuldade do mundo, na verdade-, ele pensou.
Ela torceu a boca, ficou a fitar os pássaros que cantavam numa árvore próxima de nós naquele dia lindo de céu azul ensolarado.
- Eles sempre deixam o dia mais lindo, mais alegre com essa cantoria que traz, a minha alma, felicidade.
- Sem dúvidas, sem dúvidas. Deixam o sol mais brilhante, sem que o calor aumente, e o céu mais azul.
- Concordo. Mas, voltando ao assunto...
- Ah, sim. Continue o que iria dizer.
- Adeus.
- Adeus? Adeus?!
E, então, partiu e deixou comigo somente essa palavra final e o comentário sobre os pássaros, que continuavam cantando. O que ela (a palavra) queria dizer? O que ele queria dizer? Parecia nervoso, tímido, não sei. Um enigma feito por uma conversa incompleta que possuia apenas um começo mal começado. "Criança, volte aqui.", eu quis dizer.
Minha dúvidas ficaram no ar. Voltei a cuidar das flores, pensativa, e assim eu ficaria ao longo de todo o dia. Fiquei imaginando o quanto éramos juntos, amigos e o que seria de mim se aquele dez realmente fosse uma despedida. Meu coração doeu, choramingou baixinho, se apertou e eu senti o que ele queria dizer. No começo, duvidei do que parecia ser mas o coração insistiu, se empenhou em me mostrar a verdade através das portas que havia dentro de mim. Todas se abriram uma após a outra. E, num segundo depois, paralisei. Tudo estava claríssimo agora.
Sem demorar muito, ele reapareceu. Dessa vez, tinha o sorriso mais aberto e o olhar estava mais maduro, encarava-me com ternura. Deixei as plantas novamente, simplesmente fui incapaz de desviar-me daquele olhar, até que ele me alcançasse novamente. Senti-me presa e paralisada. Os segundos passaram rápidos apesar dos passos longos que demoraram para me alcançar. Logo, senti um toque no meu rosto, aqueles olhos agora estavam bem próximos dos meus. Puxando meu braço, nos aproximamos ainda mais e, então, tascou-me um beijo. Senti toda a doçura daqueles lábios nos meus. Agora, sim, entendi o que ele queria dizer e não houve uma maneira melhor de dizê-lo. Agora, sim, entendi o que havia em mim e não houve maneira melhor de entendê-lo. Ficamos naquela cena não sei por quanto tempo, parecia ter durado horas mas, ao mesmo tempo, parecia ter passado em menos de um segundo. Deixei que todas aquelas palavras não ditas por ele fossem faladas agora diretamente nos meus lábios, não só pude ouví-las como também pude sentí-las, e eram lindas, meiguíssimas. Cada letra, mesmo sem ser pronunciada, cravou-se dentro mim, nem elas nem ele sairiam mais.

domingo, 27 de novembro de 2011

O encontro, parte um.

Não poderia ser. Ou seria? Não, não. Já estou numa idade avançada, não posso confiar nos meus olhos. Mas parece real. Não pode ser. Apertei mais meus olhos e agucei meus ouvidos em vão. Ele estava tão distante. Num momento, pareceu perceber que eu o estava fitando e olhou para mim. Oh, céus. Não pode... Era ele. Era ela. Eram eles três. Escondi-me nas sombras, deixando-os ir.
Passei dias repensando sobre aquele momento que durou menos de dez minutos. Parecia ter sido mais de tanto sentimentos e pensamentos complexos que se passaram dentro de mim com tamanha rapidez. 
O menino, num outro dia, quando me dei por mim, ele estava ao meu lado. Trouxe-o comigo sem que ninguém percebesse. Devolveria-o, mas só depois. Agora ele era meu. Precisava aproximar-me um pouco mais daquela criatura.
Quando o observei mais de perto e mais demoradamente, consegui estudar cada detalhe nele. Os seus olhos... Os seus lábios... Os seus cabelos loiros... A sua voz... Tudo me lembrava dela. Agarrei-me ao que  senti naquele instante e deixei que todos os sentimentos tomassem conta de mim, até que tive que virar meu rosto para outro lado. Senti lágrimas pedindo para saltar dos meus olhos. Não. Não ali e com ele. Escondi-me mas, dessa vez, foi dentro das minhas próprias sombras. Queria tocá-lo, tenho certeza de que a sua pele também era igual a dela, macia. 
Ouvi boatos de que aquele menino existia, porém recusei-me a acreditar, e, agora, ele estava alí, bem a minha frente. A destruição da minha vida existia em carne e osso e encarava-me com aqueles lindos olhos castanhos-claro tão parecidos com os de sua mãe. 

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O amor dos amantes

- Como podes me amar se nos conhecemos há tão pouco tempo?
- O tempo pode controlar tudo, menos meus sentimentos. Amo-te e deixe o tempo de fora desta conversa.
- Por que não dissestes antes se este sentimento já estavas totalmente formado?
- Falas como se fosse algo fácil de se fazer, como o abrir dos olhos ao acordar
- Desculpe-me.
- Não quero tuas desculpas.
- Sei o que queres.
- Então, por que tu não o falas logo de uma vez?
- Como se fosse algo fácil de se fazer, como o abrir dos olhos ao acordar.
- Falaremos juntos.
- Não. Já está dito. Nossos corações, além de sentimentos, criaram lábios, já o disseram.  

Ela também o amava, mas não sabia, descobriu de tal fato enquanto tinham este diálogo. Tudo passou a ser tão claro, cristalino, não havia mais dúvidas e as palavras foram ditas pelos olhares, pelo coração que mal se aguentava dentro do peito de tão tomado pelo sentimento que estava, ele teve que falar. E falou. E todos ouviram. Da janela, encostei-me e avistei  o casal, sonhei em viver um amor como o deles, os desejei boa sorte nessa caminhada.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Mar e marés

Com suas próprias calmarias e tempestuosidades, montanhas viram mares, céu vira mar e o mar continua sendo mar. Quando a nós dois? Também viramos mares, oceanos diferentes mas que muito se assemelham. Temos nossas próprias marés que apesar de seguirem diversos caminhos, sempre se encontram no final. Somos mares opostos que, mesmo com toda nossa imensidão, formamos um só mar capaz de viver tranquila ou raivosamente, capaz de destroçar ou (re)construir algo maior do que qualquer cidade, os sentimentos. Podemos ser fortes, bravos, calmos e melancólicos. Cada onda nossa é uma expressão, uma mensagem que pode ser diferente ou não. Se não, apenas reforçamos algo já dito, como assuntos relacionados ao amor que não pode ser expressado somente com uma pequena onda. Contudo, nossas ondas sempre se quebram no final, se acabam. Mesmo assim, construímos outras que podem refazer aquela já acabada de maneira única que ora é melhora, ora piora.
Às vezes, pego um dos mares sonhando em ser uma lagoa calma e sem ondas. Mas só às vezes, pois seu sonho logo é destruído pelo medo de acabar com aquilo que ele realmente é: intenso, mutável e sem capacidade de viver apenas um sentimento, mas vários. Sentiria-se vazio sem toda as mudanças internas e externas que ocorrem através do tempo. E, assim, o sonho se acaba. O mar continua sendo mar, não lagoa, e aceita a sua transformação em oceano sorrindo agradavelmente. Aceita o outro mar, viram oceano e vivem  momentos tão maravilhosos e  inesquecíveis que quando refletem sobre a vida, esquecem de todos os momentos ruins que passaram juntos e reconstroem todos os sentimentos bons que havia, algum dia, sido destruídos. 
E eu sonho em ser esse oceano que, mesmo tendo defeitos, vive inseparavelmente com o seu belo amor.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Naquela pedra, naquele sono

De uma pedra distante, observava aquela pessoa que havia prometido viver comigo até quando os meus dias cessarem aqui, na Terra. Observa-o dormir, era quase um anjo. Estava num lugar distante, muito distante, não podia tocá-lo, mas nossos corações estavam perto um do outro. Esses, sim, podiam se tocar.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Melhor parte

Num belo dia, eu disse a alguém “Quando procuro achar a melhor parte de mim, encontro você.”
Esse alguém se foi e a minha melhor parte continua sendo a mesma desse dia. Sinto falta apenas em não ver esse alguém sorrindo para mim, envergonhadamente, como resposta a minha afirmação. Era um belo sorriso. Um sorriso encantador, simples, caloroso e inesquecível que vinha acompanhado de algumas palavras doces aos meus ouvidos. Sinto falta de tudo que o envolve, na verdade. Ah, e como sinto!

sábado, 9 de abril de 2011

Escolhas

Eu estava parada, de costas para ele, tantava controlar aquele mundo de diversos sentimentos que pairavam dentro de mim. Ele veio se aproximando, aos poucos, deixando que seus braços me envolvessem naquele abraço que, um dia, eu já amei.
- Ah, você não sabe o quanto eu te amo! Por favor, fique comigo e cuide de mim. Preciso de você ao meu lado, somente você. Preciso do seu abraço, do seu sorriso, da sua presença. E, sim, se tornou uma necessidade. - Ele disse.
Meu coração pareceu que parar de saltitar sob o meu peito por um pequeno instante, o mundo pareceu parar. Eu poderia estar me sentindo feliz por estas palavras terem chegado aos meus ouvidos e estaram sendo dirigidas a mim, mas eu não me sentia feliz, muito menos, confortável.
- Por favor, não diga isso. - Respondi.
- O que eu fiz de errado?
- Você não fez nada de errado. Você, não.
- Então, o que foi?
Precisei pensar para respondê-lo. Um silêncio desconfortável pairou no ar. Ele aguardava a minha resposta com certa curiosidade e medo, enxerguei em seus olhos.
- Você não fez nada de errado. Você só se enganou, achando que eu sou a pessoa certa para você. Desculpe-me, mas eu não sou.
- Por que está dizendo isso?
- Você só pode estar brincando comigo, deve estar achando que isso é algum tipo de jogo ou algo assim. Não lembra o que aconteceu conosco há alguns meses? Não podemos ficar juntos, sabemos disso, mas você insiste que fiquemos. Eu também insistia, porém aceitei a realidade: não podemos, simplesmente. Não quero te abandonar, não estou te deixando mas, também não quero correr o risco de me apaixonar por você novamente. Só quero que saiba: você já foi a minha fonte de felicidade e, um dia, tive um sentimento por você que ia além da amizade, além da paixão.
- Você é a minha fonte de felicidade. - Ele afirmou e me abraçou novamente.
Não tínhamos pressa para que aquele abraço chegasse ao final, gostava do seu calor, gostava da maneira que me aquecia, gostava do seu abraço mas não poderia continuar alí. Não tínhamos escolhas, não poderíamos lutar contra um mundo inteiro. Ele é forte demais, iria nos derrumar sem que talvez não conseguíssemos chegar ao nosso destino, nossa meta. A única coisa que me conforta ao pensar nisso tudo é saber que eu tentei.
Aquelas primeiras palavras que ele me disse poderiam ser bonitas mas, para mim, elas soavam como facadas que despedaçavam meu coração.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O que são palavras comparadas a um olhar?

Eu estava sentindo frio, meus pensamentos viajavam para um lugar tão distante que me fizeram esquecer de onde eu me encontrava. Você segurou a minha mão e eu voltei para o meu presente num susto como se aquele gesto tivesse me puxado para a realidade de repente. Nenhuma palavra foi dita naquele momento, apenas encontramos nossos olhares e, novamente, eu havia esquecido da realidade porque parecia existir apenas eu e você, mesmo que estivéssemos num lugar rodeados de pessoas. Aquele gesto espantou o meu frio, trouxe-me um arrepio. Naquele momento, fiz uma descoberta: senti que você estaria comigo sempre que eu precisasse, segurando minha mão, oferecendo-me apoio sem, ao menos, precisar que eu peça. Naquele momento, descobri que poderia confiar em você. Descobri tudo ao, somente, encontrar e observar o seu olhar. 
Agora, peço para que não me decepcione. Peço que não me perca porque, a partir deste momento, eu não te perderei. Mesmo que você vá embora por livre e espontânea vontade ou por obrigação, você ainda estará comigo, continuará comigo, de certa forma, dentro de mim, no meu coração, num espaço que estará reservado a você, aquele espaço que eu cuidarei por você. Não o deixarei morrer, não dentro de mim. 

Não posso comparar palavras com nada neste mundo, porque sem elas eu não poderia descrever qualquer momento, lembrança, ideia e, até mesmo, este olhar.

sábado, 3 de julho de 2010

E nesse desencontro
Eu me encontro
No seu olhar
Nesse acaso
Que não é por acaso
Eu me devoro
E adoro

Brilhos rolam pelos sorrisos
Brilhos jamais vistos por ninguém, exceto nós
Brilhos singelos por nossos olhares
Ninguém repara
Nós reparamos
Eu reparo
E adoro
E me desfaço
Desabo de uma boa maneira
Aproveito e danço no mesmo rítmo das borboletas azuis que se encontram em meu estômago
Rindo
Se divertindo
Na pura dança
Do amor


Laryssa Guimarães

domingo, 20 de junho de 2010

A descoberta (des)agradável

Cheguei em casa. Não reparei em muita coisa, minha mente estava com poucos pensamentos e somente um se repetia freneticamente: eu precisava descansar.
Entrei no meu quarto. Estava tudo aquela bagunça de sempre. Joguei minha mochila no chão, minha jaqueta na poltrona. Ouvi o som dos botões de ferro batendo no couro, parei por um minuto. Havia algo mais. Algo novo, um pensamento novo. Eu precisava descansar, isso era fato, mas eu precisava de algo mais além disso... Coloquei a mão em meu peito, senti meus batimentos cardíacos. Eles estavam acelerados  de mais e isso já explicava tudo. O frio invadiu o cômodo e pairou sobre mim durante muito tempo. Sem ter muita consciência de meus movimentos, me apoiei na parede, senti a sua frieza. Sua textura gélida me fazia bem. Encostei meu rosto nela e fiquei ali, parada. Sentindo o ar frio e arrepios passando por minha espinha. Estava ignorando tudo aquilo. Por um momento, o meu cansaço, que era de extrema importância antes, se tornou algo mínimo deparado com o que eu estava prestes descobrir. Mas antes de ter qualquer pensamento a respeito, quis ter certeza de minha conclusão.
Mais uma vez, prestei atenção nos meus batimentos cardíacos e começaram a vir imagens em minha cabeça. Imagens da minha semana, períodos do meu dia em que me encontrava somente com uma pessoa entre muitos assuntos e abraços. Lembrei das borboletas que dançavam em meu estômago enquanto nós estávamos próximos, enquanto eu me perdia em seus abraços, ou no seu doce perfume.
Pensamentos confusos, sem término começaram a me ocorrer: "Será isso mesmo? Será que... Não pode ser... Ou pode?"
Enterrei meu rosto nas mãos ao terminar de repassar todas aquelas cenas em minha cabeça. Eu estava impaciente comigo mesma. Eu estava inquieta. Meu coração estava batendo mais forte e não era por mim, mas por alguém. E eu já sabia de tudo, mas passei dias e mais dias escondendo de mim mesma o que estava aos meus olhos porque a verdade era que eu me sentia despreparada para passar por isso agora, eu tenho medo de perder o rumo do qual estou me dedicando, tenho medo de me perder na metade do caminho por causa de uma mera paixão.
Ah, mas não é fácil de ignorar um sentimento desses. Sinto-me frágil por não conseguir me controlar em alguns momentos, não conseguir controlar meus pensamentos e desejos de querer estar ao lado dele com frequência. Sinto-me frágil por não ter controle de uma das coisas que mais me pertence nessa vida: meus pensamentos.
Há tanta confusão, tanta indecisão. Ah, paixão, por que quis me encontrar agora? Por que? Ah, paixão...
Vesti meu pijama e me joguei na cama sem pensar. Não queria pensar. Eu não iria pensar em porquês. Não iria pensar mais em nada. Agora, nem músicas caírião bem aos meus ouvidos.
Esqueci de todas as preocupações. Esqueci dos meus afazeres pendentes. Esqueci de todas as complicações, de todos os problemas, do dia cansativo que tive e dormi. Enfim. Dormi.
Passei o tempo inteiro dizendo "Enfim" enquanto as horas se passaram para que finalmente chegasse nesse momento de agora, onde eu me encontraria deitada na cama e dormiria igual uma pedra.
Eu previ certo. Enfim, dormi. E igual uma pedra. Amanhã é um novo dia e como todos os novos dias, terei que acordar e enfrentar novamente tudo aquilo que eu fiz questão de esquecer agora. E enfrentarei de peito aberto, sem me desequilibrar. Tentarei não me desiquilibrar.