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segunda-feira, 30 de março de 2020

O sorriso dela

Me encontrei só. E tão dolorida. Uma coisa estranha. Não estava doente. Mas era uma dor que parecia o início de uma. Mas ainda não era nada. E nesse estranhamento, nessa tristeza, ela me veio. Com um sorriso simples que eu nem acreditava. Nem prestava atenção no sorriso, ideia afastada de mim. Mas ela sim. E me veio assim. Delicada. E tão simples como é. Usando a voz de uma palavra terna e calma. Me disse algumas palavras que ressoaram tudo por dentro. Remexeram algo. Uma peça que faltava? Um pensamento que não vinha. Estava distante. E apareceu. Um pequeno clarão. E que retira todas as águas dos meus olhos. Pelo menos por enquanto. Por enquanto, parecem que não vão mais voltar. E com ela, me veio, me chamou, tão sincera. Tão antiga. Palavras tão antigas. De gente que eu não conheço. Que não me conhece. De gente que já se foi. Mas me atinge. Até agora. A palavra fica. E encontra outros. E melhor: traz mais vida. 

Obrigada, minha linda, pequena, singela, pura, 

Poesia. 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Inspirando, de repente - inspiração

Acontece que não tem hora certa. Simplesmente vem e encontra. Como um bicho que vem voando não sei de onde e pousa e incomoda. Melhor do que isso, formiga. Vai mexendo por ali devagarinho até você perceber, até você sentir e se mexer também. Quais mais se mexe, mais percebe, mais sente. Mais cresce. Vem como o canto do passarinho que inflama do peito quando vê à tarde caindo, a manhã subindo. Vem como a borboleta que não sabe quando vai ventar mas, quando venta, voa. Vem como um sorriso que não se percebe quando ele chega, de repente está lá. Vem como aquela vontade de abraçar. Aquela vontade de dizer: que saudade. Que saudade. Que saudade desse vem. Nunca sei quando vai chegar. Mas ele vem. De vez em quando, sempre vem. Traz essa coceirinha no coração. Cria essas asas. Uma imaginação própria. Cheia de vida que diz pra minha vida que não simplesmente pro tempo passar.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Para Ester

Há pessoas que tocam nossas almas. No momento em que os olhos se encontram, não se percebe, mas já estava guardada. Guardada pra encontrar o meu caminho, pra me tocar. E mais do que isso: me ajudar a crescer. E cresço. No momento não se entende, mas, depois, como um amigo mais velho que sabe da vida, o sentido se aproxima e se esclarece. Era para ser assim. 
- Te fiz uma surpresa. Mais uma. - a vida. 
Por mais difícil que possa ser, deixa uma chama viva: permaneça comigo. Te quero aqui. No tocar dessas almas, nascem flores. A gratidão, a sabedoria. O bem. Só se acrescentam, só desabrocham. Só, como se fosse apenas isso. E no momento desse encontro, a vida me testa. Para saber se estou pronta ao próximo encontro. Se respondo com a mesma gratidão, mesma felicidade. Se cresço verdadeiramente. Eu espero que esteja. 

A flor que levei em minhas mãos, com terra, foi pra florecer. Assim como eu flori um pouco mais e simplesmente por você ser quem é. O coração de mãe. O enxergar o bem e o acreditar no outro. Acreditar em mim, saber da minha verdade, da minha ajuda. E me ajudar. E ajudar outros. Por ter em mente o que era o certo. Tua luz encontrou a minha e quero seguir irradiando. Que sigamos.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Resistência II

De reconhecer que o caminho que escolhi não era o melhor. Foi o melhor. Mas de saber que agora há outros caminhos, e você escolheu primeiro. Disse que era eu. Mas foi você quem escolheu primeiro. E aí veio o descompasso. A estranheza, essa coisa estranha.

Mas sou firme.
Somos.

E a vida é feita de caminhos.
Estarei naquele que for o melhor.
Aquele que ela escolheu pra mim.

E agradecendo por todos que vivi.
Isso como uma construção por dentro. Em que não sou mais a mesma, mas estarei ainda mais perto de ser quem eu sou.

Essa, a coragem de encarar o caminho.

sábado, 31 de março de 2018

Oração na Páscoa

Senhor,
ensina-me a tua humildade.
Quando penso que amo,
amo pouco.
Tu amou infinitamente mais.
Ensina-me o Teu amor.
Ensina-me a amar.
Para que minha vida se consagre
como um presente Seu.
Para que não seja em vão.
Para que eu seja Tua luz.
E possa ir em paz.

Ensina-me o meu caminho
e o valor dos dias.
Para que me venham como
o desabrochar da natureza.
Ensina-me o Teu coração
em meu coração
e a Tua verdade.

Que Teu nome esteja presente
em minha voz
em minhas palavras
em minhas escolhas.
 
Agradeço por hoje
e pela vida do Teu filho Jesus.
Pela luta e coragem.
Pela resistência.
E principalmente,
pela fé.

Que possas renascer em minha vida.
Nas nossas.
Hoje e eternamente.

Em nome do Pai,
do Filho,
do Espírito Santo,

Amém.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Expressar: ser quem sou e é mulher - Parte III

Vi(m) viv/ser

Mais uma flor para o jardim interior.
Flor de uma dor.
Flor, uma das mais florescidas, mais bonitas.
Uma flor de plena vida.
De perfume que não compõe o meu.
É o meu. 

Às mulheres,
o amor a si mesmas.
O autocuidado.
O levantar umas as outras
com tudo que foi vivido
e aprendido.
O se levantar e não permitir
que a flor em ti que iria murchar
murche em outras.
Tua experiência é aprendizagem.
É ensinamento.
Palavra para regar.
Cultivo.

Para os homens.
Não temam.
Que da tua insegurança,
possa renascer a coragem.
E não a fraqueza que ela sugere.
Sempre há escolha.
Até mesmo pelo pensamento.


A todos nós,
que possamos viver
 em paz.
Nosso caminho
foi para que o amor
prevalecesse.
E ele pertence a todos nós.
Nos habita, somos morada.
Isso nos acrescenta.
Mais vida.
Mais tempo de vida
a nós.

 


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Com o silêncio, coração(ões) crescente(s)

Talvez o silêncio tenha me escolhido. No silêncio e o quanto eu sinto. As palavras e o interior delas, os desdobramentos, o que quer realmente dizer e não é dito, se esconde mas se revela no silêncio que me escolhe para percebê-los. O quanto o mundo se abre, e o quanto também ele se fecha mesmo quando não há uma só palavra. E o que fica nesse interior, parte vem a mim. Às vezes me pergunto se alguém também vê. Se veem, muitos ficam também em silêncio e, em vez de serem penetrados por ele, o ignoram e agem errado, escolhem errado todos os dias. Mas o silêncio sempre existe. E assim existe também a mudança. Como ele é. O impacto que ele tem. A ruptura entre uma palavra e outra. A ruptura na busca de uma palavra, ao não saber o que falar nem mesmo pensar. Ao pensar do que dirá, o cuidado. E a resposta é que alguns sentem, sim. Mas parece que agimos distantes um do outro, cada um com o que os cerca. E assim parece que, no final, agimos juntos. O silêncio que muitas vezes parece um peso, é, se transforma, num presente.

Texto infinito (por saber que sempre estarei por terminá-lo)

Uma hora é preciso largar tudo que me segura. Tudo que me segura para ir direto, correndo, sem cambalear, duvidar, para aquilo que é mais puro em mim, mais interior. Largar o que seguro em minhas mãos, o caminho para onde eu ia ao perceber que existe um que é antes de todos. O próprio perceber. Diante dele, não há preguiça ou motivo para desviar, apenas a única e melhor escolha se segui-lo. (O quanto já me fez sofrer... eu nunca saberei, nem mesmo o quanto eu ainda sofrerei por ele.) E então vou. Não é pressa, mas determinação que me leva. E me faz pensar um pensamento indo para o outro, que parecem seguir ainda mais do que eu ou ir embora. Por isso eu vou, antes que vão. E vão também. Como já percebi também esse momento e como dói não vivê-lo. Como pode algo que faz parte de você às vezes parecer ir embora como se não fizesse? Mas ainda bem que existe o momento que essa parte volta. Até porque, é parte de mim. (E nunca se vai. Eu que vou, não é ela.( Que eu sempre volte.).) E continuará sendo, assim, dessa maneira uma das únicas de me libertar: escrever. No infinitivo. Desviar-me do que me desvia, do que eu seguro e me encontrar. Mais uma vez. Todas necessárias. Todas essências, e sempre em minha essência. Mesmo que eu nunca consiga escrever de verdade o que realmente é, mas enquanto houver esse lampejo, escreverei. 

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O bem raro

Aquele bem que parece que mais ninguém enxerga. Uma preciosidade que não pertence a mim, muito menos está em minhas mãos, mas cuido carinho. A beleza vem e só de enxergá-la, só de saber que ela existe da maneira como é. Com as palavras que diz. Com o sentimento que sente. Com a vida que vive. A vida de todos os dias. Que nos vem repleta de momentos diferentes, desafios que são capazes de mostrar ainda mais quem somos, ainda mais a beleza. Que quando se declara, não há mais palavras, ela é. Como é. Um ser no infinitivo. A promessa do infinito que não é a vida que prova, mas que prova a vida a cada dia.
Eu não sei quem mais enxerga. Mas sei que, enxergando, outras tantas belezas podem se despertar. Seja em mim, seja no outro, que também vai passar a enxergar, seja naquela mesma beleza que fez surgir outras. Cada um a sua maneira, com a sua raridade. Que o sincero e simplicidade resplandeça, renasça, permaneça. Ainda que não enxergue visivelmente, que permaneça. Por ser precioso, será essencial. Uma voz. Um canto. Um olhar... Um brilho. Um ano inteiro. Um início. Erros, sim. E um eu acredito.

Que a sutileza
nos acompanhe
construindo
quem somos.




domingo, 12 de abril de 2015

Permanência

Sempre é bom repensar pensamentos. Aparece-me aquele subpensamento que quase nem percebo quando aparece e de repente, entre um silêncio e outro existente entre a voz de um pensamento e outro, ele aparece. Quase imperceptível. Miúdo. Quase calado e sem voz, porém fala. Baixo e curto, e é ouvido assim como é. Quanto mais aparece, por mais mínimo que seja, aparece ainda mais. Cresce cada vez um pouco mais. Até que se transforma em quem é: pensamento. Até que se transforma em quem deve ser: atitude. Até que se revela em quem sempre foi: sentimento. 
Todos como uma semente. Primeiro uma que imaginamos pequena que nascerá, depois a sentimos nascer ainda pequena, um broto protegido que dentro de si já há a primeira folha, a primeira raiz. Cresce, virá planta, a sentimos cada vez mais, a pensamos cada vez mais e agimos com ela ainda mais. Cresce, virá árvore e permanece em nossa vida. 
Assim é o ensinamento. As ideias. A imaginação. O sonho. A realização. Uma planta que vive em nós e por isso nos faz ser diferente por toda a vida. Uma planta que é parte e é quem somos. Uma planta que é a nossa própria semente que se transborda, se revela, é no mundo ao redor, no sentimento ao redor, no olhar ao redor, nas pessoas ao redor e por simplesmente ser quem somos.
A escolha dela define um caminho. Por tantas sementes que tive, tantos reflexos me vieram. Tantas alegrias. Uma semente a mim é aquela de notar uma semente ruim sempre a tempo de pensar uma boa. Esta é jovem, mas forte e, diante de uma tristeza, faz enxergar as alegrias que se recobrem por dentro e só são possíveis se eu me dispor a possibilidade de enxergá-las. Que esta cresça. Que em mim haja árvores sempre boas e eu sempre possa plantar um pouco delas em cada um a cada dia, cada aniversário, cada encontro, cada palavra, conversa, demonstração. Cada vida. Cada viver. Que o pensamento seja em harmonia ao sentimento e a ação, sem espaço para dúvida permanente sobre "o que não pode ser, porque não é" e sim a certeza do que é, está aqui, existe, precisa ser em pensamento, sentimento e ação.


Com essa postagem, volto a escrever.
Meus melhores desejos a todos.
Que possamos ser sempre a simplicidade e a beleza de quem somos
a cada dia.
Apesar do mundo ser como é, somos quem somos e isso não muda.
Nós o mudamos.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

De tanto tentar descobrir quem sou, a surpresa (que sempre fui quem era) / Sintonia, vida surpresa ao descobri-la

Passei sonhando com o futuro.
O passado que me conto
o torno possível ou não
O presente que me vivo
o torno sensível ou não.

O sonho como o que cega.
Perdi-me um pouco no tempo.
Olhar ao redor é agora a solução.
Ao redor e ao que há dentro de mim
(em mim, todos os tempos em um).

Como tudo pode acabar num suspiro.
Toda efemeridade, um dia
me enlouquece.
Me faz viver
por mostrar-me o que não vi.
Tudo tão escondido
Encolhido que se expande
no mistério de si.

Decifra-me ou devoro-te.
Tentar decifrar foi o caminho do te devoro.
Necessário apenas se sentir
se enxergar
Mas mais difícil do que isso
seria fazê-lo plenamente
(um dia, consigo)

(talvez viva uma vida e
perceba no fim que o fiz
a vida inteira).

As surpresas que me esperam,
um caminho para colher flores
enquanto se vai pra casa.

Às surpresas que me esperam.
                                                 
[Descobertas
Do pensar e sentir
 em sintonia com o agir.
Do ser quem realmente é.]

sábado, 24 de maio de 2014

Do dia a dia

Palavras que você lerá um dia

Se digo que vou, não é por desinteresse. Mas saber que posso dizer que vou por ter comigo a certeza da minha volta. E, assim, mesmo na minha ida, a presença da permanência.

A cada pequeno adeus de cada dia. A cada acordar do outro dia. A cada reencontro. Ao vivê-lo juntos.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Help, a hero is bleeding

- Como ele está?
Lembrei-me de seus olhos e a lembrança me respondeu. Uma mania que estou tendo era fugir de respostas que não me agradassem - caminho perigoso, eu sei. Às vezes é fugir, às vezes evitar, outras procurar por uma outra resposta que a anule - às vezes encontro. Seus olhos ali tão agitados, refletiam ao fluxo de seu pensamento, todos rápidos, muitas percepções ao mesmo tempo - e o que eu sempre admirava: as palavras certas. Por mais que parecesse inquieto, as palavras eram certas, alvos, peças da minha procura. E acalmavam. Diante de uma realidade assombrosa de egoísmo ou de uma beleza da vida, acalmavam. Elas permitiam o abrir dos olhos, o enxergar, o coração em pleno ritmo com a mente, trazendo paz (mesmo que inquieta). 
Esperei para ouvir a resposta:
- Você não soube...? Ele não está bem.
Ele não está bem. Era a mesma resposta de seus olhos. A diferença era que eles aqui me gritavam: eu não estou bem. E intocável (por não saber de suas dores) e com vontade de abraçá-lo ao mesmo tempo, me respondiam. Respondiam em cada palavra dita, em cada lugar para que olhava. Respondiam com a paz - ainda existente - pedindo ajuda. Não sabia de quem. Nem como. Ajuda. Pura. Desde as simples até as complexas. 
A partir daí, veio a sua ausência. Encontrar um ser parecido com você (e da lembrança que tenho da sua melhor época) faz-te ausente ainda mais. Saber que não entrará pela porta que abre caminho aonde estou faz-te ausente. Ausente no lugar, ausente no momento, presente em mim. Presente em tudo que te ausenteia. 
Saudade.

Duas vezes tu me levantaste. Numa, eu estava me reerguendo, noutra, caindo. E, - já com a semente de inquietude que hoje te perturba -, me salvaste acreditando em mim. Me lembrou que posso falar ao me ouvir. Me lembrou que posso agir: 
"Laryssa, enfrenta. 
Enfrenta.
É isso que você quer? Então!, enfrenta."
Teu acreditar foi uma luz que acendeu o meu acreditar. Fê-lo emergir da onde quer que estivesse, fê-lo viver. Eu posso falar e posso agir; saber disso foi como aprender a andar: o momento em que os passos que nascem dentro de ti surgem até os seus pés e te fazem caminhar. 

Sofremos. Eu, constantemente. Tu, pelos motivos que te tornam intocável e abraçável. Eu, por não saber como te abraçar agora. Se sofremos, acredito que é para ser melhores do que somos. Um dia, nos encontraremos com a calma no coração que sonhamos. 

domingo, 30 de março de 2014

Parenthesis of the text

Who am I here? Where am I walking? I have dreams, because of them I kind know who I am and where I'm going. (They are the voice of my heart.) But actually I will never know. But actually I know every little second. (We don't have to wait to get there, arrive). I don't know what I will know in the end, I know that I'm knowing something important now: live. Sometimes it has the sound that you're living nothing, but you are. You're living always, even when you forget it for a while (you'll remember. This forgetfulness is just a time to remember.) it comes to remember that you live. That you exist.
Now, I remember. With all I have, that is all I had and all I will have. Because of my know non-knowing, I find an art. Invent. I'm inventing my way. Inside of it, there is another art: reinvent my steps. (I'm walking but it doesn't forbid me to dance sometimes or fly.) Now, I'm flying. Calm and seren, a bird that knows that has a nidus. (But never calm not find a new stick to build it each little, fast and eternal day.) 

(Going back to it can makes my-self higher.)

domingo, 9 de março de 2014

Andorinha,

vivi te pedindo que ficasse comigo o tempo todo.
ao viver, percebi:

                     vive em mim.

Pensamento 20 de 365

Acontece como se nada acontecesse. Acontece que não aconteço. Acontece que não me conheço. 

Mas
as descobertas
acontecem
(aconteço)

De repente, aconteço - aconteço! -. Aconteço por saber que já acontecia. Aconteço por saber que aconteci e continuo com o que me aconteceu aqui, comigo, o ser.  É tão singelo que existe o medo de perder as palavras para dizê-lo, de deixar o momento escapar. É tão singelo que parece que nunca irá escapar que, por ser simples, torna-se natural e vive com o que existe também dentro de quem sou. 
O mundo e o mundo que há em mim: conflito. O que há parece maior do que é. Parece, mas o acontecer é como o caminho de equilíbrio dessas duas linhas que se conversam, se entendem, se complementam. E quando aconteço, vivo os dois mundos, encontro com os dois, sinto os dois. Vivo, realmente. O respirar deixa de ser um simples ato de inspirar e expirar, mover com o peito pra cima e para baixo, e torna-se um sentido, significado da vida: o existir. Existir como ser. Existir como ser que influência (simples) no ar, que se adentra e aquece e encontra o coração que encontra tudo que encontra os pensamentos que encontra os sentimentos que encontra tudo e assim o somos: humanos. 

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O livro que começa com ponto-e-vírgula e termina com dois pontos: o ponto que não terminei e a vírgula que não comecei. Dois pontos: a busca entre o breve - e eterno - espaço do fim e do começo. 

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(Clarice, era assim também com você?)

Silêncio. É silêncio. E um grito: a voz de quando se está sozinho, faz tudo ganhar vida, o ouvido se atenta e percebe os estalos, os estalos como surpresa ou susto tocam o coração ou os pensamentos e mudam o olhar, uma nova percepção aparece e - lembrança - sua aparição não vêm para aniquilar as que já vieram um dia. Todas se conversam, se entendem, se complementam; pois já no caminho do teu ser, leva ao caminho ainda mais profundo: um novo aconteço e, assim, ser mais o que já era sem saber ou ser além (o não-ser também existente, silencioso, com esperança silenciosa pelo próximo estalo);
E o que acontece ou acontecerá: a aparição do simples e mais: seu acolhimento no ato de respirar, como os batimentos cardíacos: estão ali mas são só ouvidos quando se chega perto e os descobrem, quando se aproxima e os sentem, que os escutam e vi-ve. Por saber, aqui bate um coração, vive. E o que acontece o inteiro interior do tempo é: aconteço. 

Sobre o não acontecer inicial: estado de dormência para um novo acontecer.
Eu aconteço.
Nesse corpo
há um ser.

sábado, 26 de outubro de 2013

Infinitivo

Entre a fala, soltou uma palavra. Um susto, na verdade. Um impacto. 
- Para!
O susto respondeu, assustado. Tomou controle do meu corpo, moveu meus lábios. Sem respirar, disse. 
- Para... - respirando - O que você disse?
- Disse o quê?
- Isso que você acabou dizer, o que foi?
- Isso que eu... (susto)... Ser? Eu disse... 
- Ser, disse ser! 
Estranhou a própria voz que tinha saído ao dizer aquela palavra. Estranhou a própria palavra ter saído ali, naquele momento. Estranhou. Não sei se percebeu - percebi -, mas não havia hora mais certa para ter aparecido. Tinha que ser dita. Ali. Tinha que fazer parte do vento daquele ambiente. Saltou como um passarinho que voa tão alegre que parece até assustado, de tão veloz. E também como o passarinho: poderia ser perdida no segundo depois, se escapar entre os sons das palavras e dos silêncios, de tanto que sabe cortar o ar e viver camuflada. Camufla-se por ser camuflada por nós. Ela não tem necessidade de autoproteção, nós que temos a mania de nos proteger da realidade, escondendo-a embaixo dos narizes, dos tapetes. Mas narizes não aguentam o mundo; mas de poeira em poeira, o tapete forma uma montanha e passa a  ser notado. E quando esse for o agora? 
Ser.
Ele disse ser. Disse ser no momento em que eu contava-lhe sobre a realização de um dos meus planos, o caminho que segui após ter decidido não temer ao medo e me expor ideias filhas de meus valores que carregava comigo em silêncio. Elas em silêncio, eu em silêncio. Falava sobre o momento igualíssimo em que apareceu: o pensamento interior que se exterioriza: s e r. Vozes-flashes permanentes que se tornam palavras, e são ouvidas, e pintam-te como exatamente o que há dentro de se: s e r. 
Ser entre sonhos. Ser entre caminhos. Ser entre passos. Disse ser entre frases. E foi. A voz veio do eu-interno que quase não fala com o mundo, num tom incontrolável que se demorasse mais um segundo passaria a ser controlado e não mais teria existido. Um grito: ser! Ser, no infinitivo. Enquanto passados são o fui-fora, futuro era seria-será, presente é, este veio no tempo do infinito. Não dizia para ser, que foi, que seria, que era. O grito-quase-perdido tão pequeno-enorme quanto o ar, disse: ser. Ser. Acima de tudo, ser. Apesar de tudo, ser. Ser, todavia, entre as vidas. Entre todas as vias, os caminhos seguidos e não, ser. Ser, já que foi. Ser porque é. Ser por será.

[Ser. Disse ser.
O tom fez-se presente e instante que existe.
(Canto, Clarice.)
Dia 29 de julho de dois mil e ter-se.] 

sábado, 7 de setembro de 2013

Excertos de um monólogo interior

Já não sei mais onde está o que escrevo. Os versos vêm, a prov[s]a vêm, acomodam-se em algum lugar de mim, aconchegam-se e perco-os de vista. Seus rastros ficam, sinto, aparecem como imagens escritas que dançam pela mente, correm pela mente como quem surge do esconderijo para ver se você consegue seguir e encontrar aonde está escondido. Mas é rápido, rápido demais. E meus passos são lentos, lentos demais. Tornam-se lentos a medida que tento correr. Se o cotidiano é corrido - a ponto de transformar-se em corriqueiro [não!] -, não ando. Com o mundo, a pressa deve ser devagar. Com as palavras, o devagar deve ser a pressa, que é a vontade e a curiosidade de descobrir o que está além, mesmo que os olhos estejam voltados ao aquém, pois há além no aquém [e se há]. Nos dois: quanto mais lento se for, mais longe se chega. O lento é a calma. A calma dos passos, do caminho, do refletir, do escolher. O refletir é olhar para si e transmitir o que vê para o exterior. Antes, o interior precisa ter traços simples e próprios. Não é transformar-se em arte final, não [olha, a calma]. Mais simples, depois próprios. Virão quase juntos, acompanham-se. Se achar a simplicidade, te achará (o próprio). Os passos e o caminho, formaram os ninhos e as paisagens. O nascer, o por, o tarde. Escolhidos são pelo olhar ao passo que o caminho é traçado. Nos quatro: a calma. Na calma: o descobrir-se. Estou eu diante de que céu? 

Texto-suspiro-sufocado, setembro.