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segunda-feira, 30 de março de 2020

O sorriso dela

Me encontrei só. E tão dolorida. Uma coisa estranha. Não estava doente. Mas era uma dor que parecia o início de uma. Mas ainda não era nada. E nesse estranhamento, nessa tristeza, ela me veio. Com um sorriso simples que eu nem acreditava. Nem prestava atenção no sorriso, ideia afastada de mim. Mas ela sim. E me veio assim. Delicada. E tão simples como é. Usando a voz de uma palavra terna e calma. Me disse algumas palavras que ressoaram tudo por dentro. Remexeram algo. Uma peça que faltava? Um pensamento que não vinha. Estava distante. E apareceu. Um pequeno clarão. E que retira todas as águas dos meus olhos. Pelo menos por enquanto. Por enquanto, parecem que não vão mais voltar. E com ela, me veio, me chamou, tão sincera. Tão antiga. Palavras tão antigas. De gente que eu não conheço. Que não me conhece. De gente que já se foi. Mas me atinge. Até agora. A palavra fica. E encontra outros. E melhor: traz mais vida. 

Obrigada, minha linda, pequena, singela, pura, 

Poesia. 

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Resistência II

De reconhecer que o caminho que escolhi não era o melhor. Foi o melhor. Mas de saber que agora há outros caminhos, e você escolheu primeiro. Disse que era eu. Mas foi você quem escolheu primeiro. E aí veio o descompasso. A estranheza, essa coisa estranha.

Mas sou firme.
Somos.

E a vida é feita de caminhos.
Estarei naquele que for o melhor.
Aquele que ela escolheu pra mim.

E agradecendo por todos que vivi.
Isso como uma construção por dentro. Em que não sou mais a mesma, mas estarei ainda mais perto de ser quem eu sou.

Essa, a coragem de encarar o caminho.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Imaginação

Sobre João Guimarães Rosa.

"Ela, com todo o seu clamor, cantava. Após o momento, esquecia, descantava."

Descantava? Existe essa palavra?

Bem, se existia ou não, tal questão já se extinguiu porque a partir daquele momento ele descobriu: pode-se inventar palavras.

domingo, 9 de março de 2014

Andorinha,

vivi te pedindo que ficasse comigo o tempo todo.
ao viver, percebi:

                     vive em mim.

sábado, 26 de outubro de 2013

Infinitivo

Entre a fala, soltou uma palavra. Um susto, na verdade. Um impacto. 
- Para!
O susto respondeu, assustado. Tomou controle do meu corpo, moveu meus lábios. Sem respirar, disse. 
- Para... - respirando - O que você disse?
- Disse o quê?
- Isso que você acabou dizer, o que foi?
- Isso que eu... (susto)... Ser? Eu disse... 
- Ser, disse ser! 
Estranhou a própria voz que tinha saído ao dizer aquela palavra. Estranhou a própria palavra ter saído ali, naquele momento. Estranhou. Não sei se percebeu - percebi -, mas não havia hora mais certa para ter aparecido. Tinha que ser dita. Ali. Tinha que fazer parte do vento daquele ambiente. Saltou como um passarinho que voa tão alegre que parece até assustado, de tão veloz. E também como o passarinho: poderia ser perdida no segundo depois, se escapar entre os sons das palavras e dos silêncios, de tanto que sabe cortar o ar e viver camuflada. Camufla-se por ser camuflada por nós. Ela não tem necessidade de autoproteção, nós que temos a mania de nos proteger da realidade, escondendo-a embaixo dos narizes, dos tapetes. Mas narizes não aguentam o mundo; mas de poeira em poeira, o tapete forma uma montanha e passa a  ser notado. E quando esse for o agora? 
Ser.
Ele disse ser. Disse ser no momento em que eu contava-lhe sobre a realização de um dos meus planos, o caminho que segui após ter decidido não temer ao medo e me expor ideias filhas de meus valores que carregava comigo em silêncio. Elas em silêncio, eu em silêncio. Falava sobre o momento igualíssimo em que apareceu: o pensamento interior que se exterioriza: s e r. Vozes-flashes permanentes que se tornam palavras, e são ouvidas, e pintam-te como exatamente o que há dentro de se: s e r. 
Ser entre sonhos. Ser entre caminhos. Ser entre passos. Disse ser entre frases. E foi. A voz veio do eu-interno que quase não fala com o mundo, num tom incontrolável que se demorasse mais um segundo passaria a ser controlado e não mais teria existido. Um grito: ser! Ser, no infinitivo. Enquanto passados são o fui-fora, futuro era seria-será, presente é, este veio no tempo do infinito. Não dizia para ser, que foi, que seria, que era. O grito-quase-perdido tão pequeno-enorme quanto o ar, disse: ser. Ser. Acima de tudo, ser. Apesar de tudo, ser. Ser, todavia, entre as vidas. Entre todas as vias, os caminhos seguidos e não, ser. Ser, já que foi. Ser porque é. Ser por será.

[Ser. Disse ser.
O tom fez-se presente e instante que existe.
(Canto, Clarice.)
Dia 29 de julho de dois mil e ter-se.] 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Sopro

Era seu aniversário. Os pais lhe deram parabéns, desejaram força; os tios e os primos, felicidade; os avós, saúde; a irmã deu-lhe somente um abraço, não disse nada, mas dentro dele, dentro do coração, havia um desejo: amor, mais amor. 
Ela decidiu fazer o seu próprio bolo. Não havia planejado nada e, para não passar o dia em branco, só em branco, decidiu que esta cor fosse acompanhada com um pouquinho de doce, granulado e chocolate. Ao terminar as compras no mercado, começou a conversar com o caixa. Os produtos lembraram-no festa, e os comentários, aqueles que costumam não dizer nada, que existem somente para disfarçar o silêncio, foram por este caminho. Festa? Digamos que sim. Só um bolo de chocolate, na verdade. Hoje eu meu aniversário, e eu não abro mão daquele momento faça-o-seu-pedido, sabe? Ele parou de passar as compras. Havia perdido muito nessa vida, mas não a sensibilidade, sabia a importância de um dia de aniversário até para aqueles que dizem "Não ligo." Liga, sim. Todos ligam. E então:
- O que há de bom nesse dia é ter vários momentos faça-o-seu-desejo direcionados das pessoas para você. Espero que você, moça, tenha sempre criatividade para recriar a realidade. Este é meu sopro, minha velinha para o seu bolo. 
De todos os desejos, a do desconhecido foi a mais sincera, por isso profunda. Por não ver marcações de tempo-humano como qualquer outra coisa do dia-a-dia, transformou suas palavras exatamente no que disse: um sopro. Um sopro de vida. Eles sentiram o resultado. O sopro saiu do peito dele, quente, chegou até o dela, tão fervoroso que deixo-a gelada. Mil pensamentos. Mil sensações. O olhar traduzia o mil que os lábios não conseguiriam nem mesmo balbuciar. E o gesto de retorno foi exatamente esse: o olhar. Mais do que suficiente, mais do que completo. Ele mostrou que o céu existia novamente, ela mostrou as estrelas nos olhos, os brilhos captaram-se.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Os nós de nós

Sempre tive vontade de montar um blog com um grupo de pessoas. Tentei uma vez e pouco consegui, a ideia continuou sendo ideia e só. Mas, nesse ano, me encontrei dentro de muita gente. Gente que me  faz bem. Gente que me quer bem. Gente que sorri ao me ver sorrindo. Gente que me abraça forte como se o abraço de hoje fosse o último que eu pudesse receber, que a pessoa pudesse me dar. Gente bonita no olhar - cheio de vida -, gente bonita de coração, gente que traz beleza em tudo e qualquer canto de si - mesmo quando canta de palhaçada e desafina por querer. Dentro dessa gente, plantei um sonho: o de escrever, o de conhecer as palavras, de fazer amizade com elas, de brincar com elas - caçando uma dentro de outra, trocando uma letrinha aqui e ali, rimando acolá. Nem mesmo sabíamos o quanto havia dessa árvore em nós, ficamos surpresos - quase assustados até - por vê-la crescer, crescer e crescer tão forte e rapidamente. E percebi, "Precisa criar raiz, arvorezinha." Não poderia crescer com tudo que pode agora para desabar daqui a um ano. Precisa criar raiz. E essa raiz se chama nó. É toda feita de nós embolados, não desamarrados. É toda feita de nós, assim, desatado nos nós da gente. O sol é a nossa ligação,  a luz é as ideias e a água, um espaço para o pensamento, para o sonho, para dizer o segredo, o que não sai de nossos lábios mas que vive, respira dentro de nós. É o espaço nosso, o espaço que temos para sermos livres e só. 
[Se, um dia, você pensou em fazer um blog em grupo, eu digo, faça. É bom demais. Antes, saiba apenas lidar com as diferenças. Por ser diversas pessoas, haverá diferenças em cada vírgula. Faça duetos, escreva poesia em trio, prosa em quarteto. É bonito ver um pensamento se ligando com o outro. É bonito de ver um nó se tornando laço. É bonito, e eu não vou esquecer.]



domingo, 1 de julho de 2012

sábado, 16 de junho de 2012

Laura, sua luz e morangos

A cura da dor, o endereço da felicidade, o brilho no olhar, a pulsação forte e rítmica. O coração ganha voz, grita para o corpo, para os olhos, para a alma, que flutua, que se alegra, que dança, que sorri, por inteiro, sem que algum cantinho fique de cara emburrada, de mau-humor. Todos sorriem. Tudo sorri. Você sorri, eu sorrio, o mundo sorri.
A distância que se fantasia de é logo alí. A amizade que anda de mãos dadas com o amor. E o amor que traz outros convidados à festa: o se sentir bem, o cuidado, o carinho, a confiança, as nuvens e as cores, o jardim florido e perfumado de você.
Ter-te comigo é encontrar o que há de melhor em mim, é me renovar, me amanhecer, me clarear. Ter-te contigo é ficar bem, é viver num mundo onde as preocupações giram somente em volta de você, é me encontrar com sentimentos verdadeiros e puros que elevam a alma e o ser, que fazem com que todos os outros dias que virão sejam melhores. Encontrar-te é estar sempre a favor de tudo, é ficar de bom-humor, é sorrir o tempo inteiro, é viver mais e melhor, é viver sorrindo e não sorrir para viver.
Peço para que nunca apague de sua memória quem você realmente é e o quanto você faz e traz o bem não só para mim, mas para todos que te amam. Em ti, há uma luz que irradia sobre todos que te enxergam - e é difícil não enxergá-la, é difícil não te enxergar. Eu só espero que a enxergue, que saiba que ela estará e está sempre presente em você, como vocês se pertencessem umas as outras. Esta tua luz irradia não só a luz, em si, mas carinho, paz, felicidade e amor. Olha só quanta coisa boa, olha só como é este poder que você - e só  você - possui.
Te amo e simplesmente sou incapaz de me imaginar sem este sentimento que tenho por você, mesmo que, um dia, tenhamos sido separadas pelo tempo ou por algum imprevisto. Mesmo assim, desejo que, assim como este sentimento, você esteja sempre comigo. Sempre, sempre e sempre.
Que tudo que você transmite para nós seja retribuído a você, que tudo que você tenha de bom seja visto por você - nunca esquecido -. Desejo-te muitos sorrisos, muitos sentimentos puros, muitos voos da alma, muitas oportunidades maravilhosas, um futuro esplêndido, saúde, muitos bons momentos, muitos abraços, muito, muito, mas muito amor, muita esperança, muitos sonhos, muita riqueza interior, muita sabedoria, muita paz, muita alegria, muita autoconfiança, muitas pessoas que te queiram tão bem quanto eu te quero e um pedaço de bolo de morango para o dia de hoje, e que ele seja o melhor que você já comeu. 

domingo, 8 de janeiro de 2012

Uma mente brilhante

Tinha pouco conhecimento sobre a função que teria a partir daquele momento, disse a si mesmo de que iria conhecer, parte por parte, ponto a ponto e passaria todo o conhecimento que adquirisse da melhor maneira possível, isto é, faria com criatividade e a criatividade dele faria com que outras criatividades, não só a dele, panhassem mais vida. 
Com animação, energia, sorrisos e sabedoria transformou todos que o conheceram apenas por suas palavras, pela sua companhia e pelo seu conhecimento. Ele transformou-se em algo que talvez não poderia imaginar que talvez se transformaria. Transformou-se com a arte, transformou-se no mais profundo ser que realmente é. Transformou-me, não só em parte de quem sou, mas também parte de minha mente, fez com que ela clareasse mais. Assim, transformou também os meus olhos, fez com que eles enxergassem mais, fez-me admirar o pouco, o detalhe, aquilo que ninguém vê, que ninguém nota. Mas quanto poder, e essa é somente uma pequena parte dele, porque nem cheguei a contar dos sorrisos, das lembranças, das memórias tão boas que vivemos e que tanto sinto falta, não só delas, mas também de você.
Sei que o que fez comigo não foi só comigo, e talvez nem mesmo tenha percebido isso. Além de mim, mudou outros "alguéns", e para um melhor inimaginável. 
Parabéns, fez o seu papel, a sua função de maneira que nunca vi igual. Todos nós temos motivos pelos quais existimos, sobre os seus, estou te contando apenas um. E esse seu motivo passa a ser nosso também, pois contagia.  A sua existência é necessária, faz bem para muitos, traz felicidade, alegria e não é todo dia em que encontramos alguém como você, sorte em tê-lo conosco.
Eu, assim como todos aqueles que te amam, agradeço pela sua existência, por estar comemorando hoje mais um ano de vida, e é realmente um dia pelo qual devemos comemorar. Eu, assim como todos que te amam, te desejo felicidade, amor, saúde, sabedoria, força, mais sonhos, mais realizações dos seus sonhos, mais sorrisos, mais boas lembranças, bons momentos. Desejo-te, além de um feliz aniversário, uma feliz vida. E saiba que é muito amado por mim, muito querido, muito bom amigo. Te quero bem, sempre bem. 


Texto dedicado ao Jorge Júnior, um grande amigo, um grande professor, um apaixonado pela vida.
 Uma mente brilhante que faz com que as outras mentes também brilhem. Uma pessoa inesquecível

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O amor dos amantes

- Como podes me amar se nos conhecemos há tão pouco tempo?
- O tempo pode controlar tudo, menos meus sentimentos. Amo-te e deixe o tempo de fora desta conversa.
- Por que não dissestes antes se este sentimento já estavas totalmente formado?
- Falas como se fosse algo fácil de se fazer, como o abrir dos olhos ao acordar
- Desculpe-me.
- Não quero tuas desculpas.
- Sei o que queres.
- Então, por que tu não o falas logo de uma vez?
- Como se fosse algo fácil de se fazer, como o abrir dos olhos ao acordar.
- Falaremos juntos.
- Não. Já está dito. Nossos corações, além de sentimentos, criaram lábios, já o disseram.  

Ela também o amava, mas não sabia, descobriu de tal fato enquanto tinham este diálogo. Tudo passou a ser tão claro, cristalino, não havia mais dúvidas e as palavras foram ditas pelos olhares, pelo coração que mal se aguentava dentro do peito de tão tomado pelo sentimento que estava, ele teve que falar. E falou. E todos ouviram. Da janela, encostei-me e avistei  o casal, sonhei em viver um amor como o deles, os desejei boa sorte nessa caminhada.

domingo, 7 de agosto de 2011

Nuvens brancas num céu azul

Sentadas no gramado do quintal, uma criança e uma adolescente, sua prima Ana, conversavam:
- Por que as nuvens são assim?
- Assim como? Quis saber a Ana.
- Assim, com formatos.
- Ah, os desenhos, claro. Elas são assim para que nossas mentes busquem imagens que se pareçam com elas. Treinam nossa memória e nosso lado criativo.
Depois de um pequeno silêncio que passaram a olhar para as nuvens, as duas riram e ficaram associando-as com desenhos que conheciam. Acharam um dragão, o Mickey, um fantasma, ondas do mar e uma casquinha de sorvete. Foi uma tarde agradável mas que, ao passar dos anos, caiu no abismo do esquecimento para as duas. Contudo, não chegou no final do abismo e foi salva por uma delas, a criança.
Após seis anos, a criança que ficou curiosa com a questão dos formatos que as nuvens faziam, tornou-se uma adolescente. Porém, outra criança estava com ela, agora, uma outra prima.  Numa manhã ensolarada, deitaram-se no gramado, que ficava no mesmo quintal citado anteriormente, e passaram a conversar sobre as coisas boas da vida com direito a muitos sorrisos, sonhos e suspiros. Num momento, a menor das duas que ali estavam, disse:
- As nuvens são estranhas.
- Por que diz isso?, a adolescente, um pouco assustada com o comentário, quis saber.
- Olhe só para elas! Não possuem um desenho único.
- Mas essa é a graça, querida.
- Por que são assim?
Ao ouvir essa pergunta, a adolescente lembrou-se momento que passou com a sua prima na sua infãncia como um filme que invandiu a sua mente de repente. Sorriu por ver, praticamente, o mesmo momento se repetindo e tirou aquela tarde que passaram juntas do esquecimento. Então, respondeu:
- Porque são feitas para trabalhar com a nossa criatividade. Por causa delas e de seus formatos podemos imaginar tantas coisas e, assim, passar o tempo de maneira agradável. Não diga nunca que são estranhas. Tente enxergá-las de outra forma, sei que conseguirá. Verá que se assemelham com coisas da nossa realidade. Sua mente é livre para imaginar, apenas deixe que seus olhos abram as portas para a imaginação. As nuvens são muito mais do que pedaços de algodão no céu.
A criança não sabia o significado de algumas palavras usadas na fala de sua prima mas, de alguma forma, conseguiu entendê-las e levou-as na mente e no coração pelo resto de sua vida. Passou a imaginar mais, a criar mais ao longo de sua caminhada. Mais tarde, tornou-se uma artista plástica maravilhosa conhecida, até este momento, nacionalmente. E, é claro, nunca deixou-se esquecer das palavras ditas por sua prima quando era criança. Frequentemente, andava olhando para as nuvens.