Mostrando postagens com marcador Personagens que me compõem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Personagens que me compõem. Mostrar todas as postagens

sábado, 17 de outubro de 2020

Sólido de mim

 Sobre aprender a ser só, Gil.

Vivo e enquanto penso, vivo. Enquanto penso, vivo. E no enquanto desses pensamentos (ou no enquanto dessa vida), vai despertando uma ideiazinha dizendo: é preciso aprender a viver só. Não necessariamente solidão. Mas o aprender a lidar com o sólido de si. O encarar. O respeitar. E o mais lindo, encontrar felicidade na minha solidez. Vê-la parte se dissolvendo, parte se recriando e o sólido permanecendo, entre mudanças, permanecendo. 

Nessas manhãs o sólido me vêm. Me vêm cheio de palavras, cheio de sorrisos, em silêncio, que abraça. Nesse tempo que não há tantos abraços, ele me vêm no só, me abraça. Não quer nada em troca. Quer só dizer, só sorrir e só deixar por aqui, em algum espaço do estar só, em algum espaço da solidez, o seu abraço. A sua presença, que é a minha. 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A questão do silêncio

O corpo se arrepiava de minuto em minuto. Esquecia-se dos arrepios até que um voltasse e viesse (vinham). Ao meu redor, frases automáticas, comentários automáticos: preocupavam-se em sentir o que não sentiriam pouco depois de saírem dali. Deve ter sido um choque. Olhe só, como está. (Não sabia como estava, não queria me olhar.) Os abraços não acolhiam, os olhares também não. E eram tantos que me perdia, então focava em mim até parecer-me só. Os queridos, até eles com automatismos, eles que pensei que iriam lutar contra... Como eu devo estar, depois de tanto tempo, lutei, venci, me deixei levar, perdi ou nada, não fiz nada? Depois, isso é pra depois. Talvez fosse trágico demais para que libertassem realmente o que sentiam e pensavam, se soubessem do alívio que eu sentiria (sentiria?) se essa liberdade se concretizasse... Por que esconder o que realmente se sente? Eis a questão da minha vida. Questões de vida que se voltam a superfície ao enxergar um momento de ausência dela, ou de afirmação dela. Eis aqui a questão, olhe para ela. E a resposta, não sei se a tenho em palavras, provavelmente não. Muitos vezes é assim, como um conhecimento silencioso que se cala assim que tento dá-lo voz, mas está ali porque fala silenciosamente. Muito de mim é assim, silêncio. Silêncio despertado na distração e na atenção, depende do silêncio.
Hoje era um momento de atenção, pura atenção que ninguém tinha, por isso os automatismos. Era tanta a atenção exigida que não se responsabilizavam por ela, não lidavam com ela, mais fácil assim. E em tanta atenção, se distraiam e tentavam me distrair com as frases soltas que pareciam dizer alguma coisa mas ficavam onde sempre estavam: vaguidão. O que salvava era, às vezes, um pequeno olhar, notado apenas na distração tão atenta. Entre todos, um olhar, às vezes, chegava com um brilho diferente, apesar da frase ser a mesma, isso salvava. Um olhar que parecia falar mais do que as palavras que surgiam sem muito sentido, apesar de parecerem ter algum (não tinham). Notá-lo era saber que ainda há vida. Senti-lo era saber que ainda estou viva. 
Salvava. 

Terminar o texto com um ponto de esperança:
faço isso pelo leitor ou por mim?

Uma observação:
o texto se transformou.
Começou com um momento e depois 
já não enxergava tanto o mesmo momento no final.
Sei que essa transformação diz algo sobre a vida.
Mas essa parte, em mim, ainda está no silêncio.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Pensamento 18 de 365


                                                                                                                                              Autocrítica:
momentos-talvez-branda-demais 
momentos-talvez-exagerada-demais

As imagens rápidas. O pensamento-segundo (segura, se não escapa) prolongado nos tempos: futuro e presente (presenteia a quem? A mim vai longe (ou perto e mal sei?)). Que graciosidade perceber que ainda há interrogações. Aqueles que reclamam, pestanejam por enxergar muitas, continuem enxergando. A sensação de não tê-las por perto é de silêncio-morto e palavra-morta. Palavra que diz mas que, se não fosse dita, não faria diferença nenhuma para alguém e para quem a fala. Por que falar, então?

Silêncio.

Silêncio que não sabe o que dizer, não por vergonha ou timidez, realmente não sabe. Não por nervosismo, não por fuga das palavras. Não sabe. O que dizer? É personagem que não vive, que anda e o único pensamento é o passo (silêncio). Silêncio vago, não de mistério, é de vazio, de lugar que nem mesmo passarinhos chegam perto no recolher da tarde, muito menos no acordar da manhã, que festejam entre os bons-dias em cantos e voos. 
Se antes havia procurado ajuda por não saber expressar os pensamentos, agora a ajuda é por não saber o que expressar. E pergunto-me: por quê? Será isso o ser humano? O lidar bem com a fala não é somente o falar bem, mas falar de modo que não fique a sensação de que tudo foi falado. E as pausas entre as palavras, o que elas não disseram? Ou disseram sem dizer? Aprender a falar e a andar parece maior, parece que é para toda a vida, assim como ser. (Aliás, aprende-se?). O falar-bem trouxe-a excitação, ânimo de quanto mais se tem, mais se quer. Mais se fala. Daí, os equívocos. E da percepção do princípio de equívocos, o silêncio. Pelo menos, percebia. Não percebia tudo porque o labirinto estava montado, e assim como um belo labirinto, havia aquelas paredes que fazia-a encontrar-se com si mesma. E só aí percebia porque no caminhar, sem perceber o labirinto, pensava apenas no caminhar. Equívoco. O cultivo de pensamentos limitados a um ato. Traz silêncio e o som oco dos passos por dentro, com o tempo, dói e corrói. O eco exterior, se existe, ouvi-lo não é pecado, transformá-lo em interior, sim. Feroz, destrói possibilidades de plantações e flores que, em pensamento, imaginavam em nascer. E não nascem. Brutalidade: transformar-se em bruto, material, objeto, silencioso como coisa - silêncio de coisa, é isso -. Não quero ser pedra que só recebe as marcas da água do tempo. 


[Sobre a personagem que aparece e some de repente:
Eu ou ela? Até aonde vai o limite entre o ser-criado e o ser-que-existe?
Não sei, mas os verbos que se mesclam na terceira e primeira pessoa querem, 
sim, me (nos) dizer alguma coisa.]

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Sopro

Era seu aniversário. Os pais lhe deram parabéns, desejaram força; os tios e os primos, felicidade; os avós, saúde; a irmã deu-lhe somente um abraço, não disse nada, mas dentro dele, dentro do coração, havia um desejo: amor, mais amor. 
Ela decidiu fazer o seu próprio bolo. Não havia planejado nada e, para não passar o dia em branco, só em branco, decidiu que esta cor fosse acompanhada com um pouquinho de doce, granulado e chocolate. Ao terminar as compras no mercado, começou a conversar com o caixa. Os produtos lembraram-no festa, e os comentários, aqueles que costumam não dizer nada, que existem somente para disfarçar o silêncio, foram por este caminho. Festa? Digamos que sim. Só um bolo de chocolate, na verdade. Hoje eu meu aniversário, e eu não abro mão daquele momento faça-o-seu-pedido, sabe? Ele parou de passar as compras. Havia perdido muito nessa vida, mas não a sensibilidade, sabia a importância de um dia de aniversário até para aqueles que dizem "Não ligo." Liga, sim. Todos ligam. E então:
- O que há de bom nesse dia é ter vários momentos faça-o-seu-desejo direcionados das pessoas para você. Espero que você, moça, tenha sempre criatividade para recriar a realidade. Este é meu sopro, minha velinha para o seu bolo. 
De todos os desejos, a do desconhecido foi a mais sincera, por isso profunda. Por não ver marcações de tempo-humano como qualquer outra coisa do dia-a-dia, transformou suas palavras exatamente no que disse: um sopro. Um sopro de vida. Eles sentiram o resultado. O sopro saiu do peito dele, quente, chegou até o dela, tão fervoroso que deixo-a gelada. Mil pensamentos. Mil sensações. O olhar traduzia o mil que os lábios não conseguiriam nem mesmo balbuciar. E o gesto de retorno foi exatamente esse: o olhar. Mais do que suficiente, mais do que completo. Ele mostrou que o céu existia novamente, ela mostrou as estrelas nos olhos, os brilhos captaram-se.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Pensamento 15 de 365

você marcha, José!
José, pra onde?


C. Drummond 

Pra onde? Pra onde? Pra onde? 
Eu marcho... José, pra onde?


José, bem que você poderia ter todas as respostas do (mu)n(do).
Mas isso seria uma rima ou uma solução? Ou talvez devesse ser mesmo assim: você, José, a marcha, 
o onde-não-se-sabe-onde-é. 

Mas é logo ali, José. Sempre logo ali...
E, enquanto isso, a gente marcha.
Marcha, enquanto o isso
nos atropela.


[Não é poema. Não é prosa. Não tem rima. É José. É interrogação.]

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O céu embrulhado pelo presente

Dezembro chegou e trouxe de presente - antes do Natal - as férias de Pedrinho, que se presenteou com tardes embrulhadas às vésperas do pôr-do-sol entre laços de pássaros e pipas. Sua pipa preferida era a azul "Para combinar com o céu.", pensava. O seu tempo de pipa era precioso e eterno, por menos que durasse até mesmo quando mais queria que durasse. Era sempre eterno. A eternidade vinha vestida do pingo de chuva que ele implorava para não cair entre outros tantos pensamentos, como aqueles repletos de perguntas. Era um acordo, o céu não choraria se Pedrinho chovesse interrogações. E chovia. Era interrogação descendo de cabeça pra baixo, valsando, sorrindo, voando. Era interrogação pra tudo qualquer lado, na nuvem, do peito ao pé. Um dia, reparando sua pipa, começou "Como ela consegue? Como ela consegue ficar, assim, tão pertinho das nuvens? Por que ela não cai? E o que será que segura ela lá em cima? Por que ela não bate numa nuvem e despenca? E se aparecesse uma com formato de dragão e a engolisse?" Arrepiou-se todinho só de imaginar tal crueldade. Olhou em volta procurando urgentemente por algum dragão que estivesse por perto mas, não, não havia dragão. Ufa. Reparando de longe as quatro pontas que sua pipa tinha, outra interrogação nasceu.  "Por que ela precisa ter um formato certo? E se fosse em forma de estrela com cinco pontas? E se fosse igual a um passarinho? Árvore? Coração? Riu. Talvez, assim, Luíza comece a gostar de soltar pipa comigo. Ah... Nós dois aqui seria tão bonito, ah..."
Acordou de seu sonho momentâneo, uma outra pipa estava bem próxima da sua. "Como chegou tão...?" Ante que concluísse o pensamento, a pipa intrusa no céu havia cortado a sua e agora era tarde. Perdeu a pipa. Perdeu o sonho com a Luíza. Perdeu as interrogações - do momento -, que se transformaram em ponto final - continuativo. Observou sua pipa partir pelo azul enquanto a rabiola dizia adeus. Foi-se embora para o seu dono novo. "Quem seria? Será um dragão? Ah... Será que vou te ver novamente, pipa?" Sentou-se para assistir a cena que logo, logo acabaria e aproveitou para esperar e se despedir de mais um outro alguém que também se preparava para partir: a tarde. Assim, assistiu a noite mergulhar no dia. 
Outras pipas viriam aparecer no céu de Pedrinho. Quanto às interrogações, estas não mais apareceriam porque nunca desapareceram/rão. Elas moravam na sua alma. [Pedrinho seria filósofo, mas ainda não sabia, talvez descobrisse num próximo Natal, como um presente da vida.]

[Presente de Natal ao querido Delvair,
deixou que interrogações criassem raízes em si.
(E ainda distribui mudas por aí.)
Alma grandiosíssima a sua, Del.]

domingo, 2 de dezembro de 2012

Reticências, última parte.

Sua vida foi defender-se da vida, de si... Do mundo. E isso ela fez bem. Na verdade, foi o que aprendeu a fazer de melhor durante todos esses anos: defender-se, e esta era a sua defesa contra todos os medos, inclusive o de não viver. (Falhou com este último.) 
Ao acordar do seu sonho-acordado, desejou baixinho "Vira realidade, por favor..." Seu pedido não foi uma ordem. Foi um pedido jogado ao vento que queria que passasse e levasse-na para um lugar, qualquer lugar, onde servisse de moradia para a realização de seu desejo. Mas o vento não passou. Sentiu dó, teve vontade de passar nem que fosse por um segundo... Mas, não. Ela deveria fazer isto sozinha. (Não fez.)
A lâmpada não apareceu. O gênio não apareceu para salvar aquele pobre coração que choramingava pelos cantos e que, antes mesmo de ver o ponto final da sua história, já decretava o fim. Depois, ainda se dizia esperançoso... Não sei que esperança é essa, coração. Se existir, só as paredes sabem. Elas guardam segredo nossos que nem mesmo nós sabemos, calam-se fácil. Talvez, um dia, foram como a moça que também deixava-se calar por pouco quando mais deveria seguir a sua voz, mesmo que esta faltasse no momento. Ela nasceria e haveria voz. Haveria... haveria... (Não houve.)
Foram-se embora. 
Assim que ela virou as costas, passou a inventar novamente mais um diálogo imaginário. (Ele também.)
E as paredes viram...
[De mim, nunca espere um final feliz.
Porém, se escrevo triste
não é para entristecer-te
é para criar coragem
e, nesse caso,
viver.

E outra:
nunca duvide
da imensidão
de um olhar.

Esse texto nasceu de um outro 
texto chamado Três Grandes Pontos
Pontos grandes mesmo,
por esconderem um 
mundo em si. ]

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Reticências, segunda parte.

Sentiu o vento que a encontrava pela janela que quebrou todo o seu corpo - agora feito de vidro - ao piscar os olhos de seu sonho acordado. Acordou. Soltou um suspiro preso. Soltou-o ao prender-se, ao prender toda a cena na imaginação... como sempre. 
- Ah... por que é tão difícil?
Voltou ao ponto inicial.
- O quê?
- Nada...
E, de lá, não se moveu.
Não houve mais diálogo. O que existiu depois foi somente olhares presos - e não entre os olhos que se encaravam porque não se encarara - entre as vozes das paredes e das coisas ao redor que criavam vida ao rir da sua falta de coragem, do seu medo de agir. Gargalhavam e agrediam a cada risada solta. Como defesa, ela se fazia de surda, ignorava. Ele não se fazia de surdo também porque não tinha ouvidos capazes de ouvir tais risadas, mas estava se saindo um cego nato, e ignorava. Os objetos ouviam e enxergavam. A vida passava. E era só: passava....
Passou...
Seus sonhos moraram somente dentro dela, coitados, nunca conheceram lugares diferentes, nunca respiraram novos ares que não fossem os de sua mente. Mesmo assim, tinham um bom lar, disso não podiam reclamar. Apesar de serem sonhos nascidos de uma imaginação que não os realizaria, eram bem sonhados. E tinham sorte por isso. O coração sonhador que habitavam era forte e, assim, faziam com que este não perdesse sua força, sua vontade... Não os perdesse agora nem aos outros que viriam. Faziam com que ela não se perdesse. Ajudavam-na sem que percebesse.
Mas esta ajuda muito lhe custou...

sábado, 24 de novembro de 2012

Reticências, primeira parte.

- É tão difícil...
- Tão difícil o quê?
- Tudo... Tudo é difícil. É difícil falar até mesmo a palavra difícil. É difícil te responder, me fazer falar quando estou com você... É difícil te olhar, deixar o meu olhar no seu... É difícil... É difícil terminar uma frase contigo. É difícil, meu Deus, como é difícil.
- É difícil, mesmo. É difícil te olhar quando sei que o seu modo de olhar não é o mesmo que o meu. É difícil saber que seus pensamentos sobre mim são diferente dos meus sobre você, que os seus sentimentos, ah, os seus sentimentos... É difícil... É difícil, fico com nó na garganta, aperto no peito, vontade de te abraçar, de te levar pra Terra do Sempre comigo... É difícil saber que você veria esse abraço de uma forma diferente do que ele realmente seria. É difícil saber que... que... Ah... Por que isso foi acontecer, meu Deus? Por que você? Por que eu? 
Mexeu o café com suspiros e concentrou seu olhar vago nos movimentos também vazios do café como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. Deixaram os olhares perdidos na paisagem fora da janela. Queriam perder os olhares fora da janela daquela situação, assim, com salto, pulo, fuga; queriam quebrar o vidro daquela paisagem deles e sumir com todos os cacos que se espalhariam por dentro do possível nós; queriam olhar tudo de cima, queriam não sentir o que sentiam, mas sentiam, sentiam, sentiam. 
Uma lágrima caiu. 
Era impossível controlar qualquer reação naquele momento. Se a lágrima ameaçasse cair, ela cairia. E caiu.
Desprendendo-se do vazio num susto, ele olhou para ela... 
- Não chore, por favor, não chore. 
- Não chorar?! - Dizia ainda com os olhos cheios de estrelas mortas que brilhavam insistentemente - Venha, pegue meu coração, arranque-o de mim, só assim não vou chorar. Venha, pegue meu coração e coloque-o no lugar do seu, quero ver se não irá chorar assim. Venha, pode pegar até porque ele não mais me pertence, não mais bate a todo segundo para me manter respirando, para me manter pensando, para me manter viva, mas somente bate para te manter respirando em mim, para me manter pensando em ti, para te manter vivo, bem vivo aqui.
- Sou difícil de chorar mas, acredite, estou dilacerado. Cada canto meu chora. Definitivamente, não estamos em tempos de risos. 
- E pensar que poderíamos acabar com isso tudo...
- Poderíamos?
- Poderíamos. Mas não podemos, não vê? Não vê que o que traz tanta dificuldade são todas essas correntes que carregamos em nós? Não vê que o difícil não está na situação, mas na gente? Porque a situação está aqui, e isso você consegue perceber, conhecer cada detalhe. Mas e o que te prende? Consegue se soltar? Consegue se deixar voar pelo o céu da gente, só da gente? As nuvens só nossas nunca formariam uma tempestade... Mas seus olhos preveem somente tempos cinzentos, pensou.
Não teve coragem de dizer seu pensamento em voz alta. Se fosse dito, mesmo que em sussurro praticamente inaudível, a praga poderia tornar-se realidade. Mas a verdade era que o "tornar-se realidade" já era real, já havia se tornado faz tempo mas... E o medo de admitir e trazer outros tornados ao bom tempo? 
Entre toda a agonia, uma pausa, um sorriso tão pequeno que quase não era um sorriso. Ela ficou imaginando o céu, os passarinhos, o tempo de cantos de volta. 
-  Não vejo, não consigo. - Ele respondeu.
O não-estamos-em-tempo-de-sorrisos voltou para ela antes mesmo que algum passarinho pudesse dar o primeiro pio, o primeiro voo.
- Não vejo... não vejo... Sou cego do coração... Sou insensível dos olhos... Sou surdo da mão. A minha corrente é não me acorrentar. - Admitiu isso com enorme pesar, desejou baixinho e de fininho que não fosse assim como era.
- Não se acorrentaria... Não vê que assim seria livre? Se sua corrente é esta, está me dizendo que tem uma corrente, então, se acorrenta. E onde está a parte do não se acorrentar? 
- Liberdade... Sonhei tanto em consegui-la... Nunca a terei... - Seus pensamentos envolviam-no como num sonho, nem mesmo ouviu o que foi dito.
- Terá... Comigo... Teremos. - Sua voz soava como uma súplica, assim como o seu olhar.
- O tempo me acorrenta, a vida me acorrenta, será o amor mais uma corrente? Farto estou de correntes da alma... Farto estou de correntes da vida... 
- E não vive. 
- O quê?
- Não vive, simplesmente não vive. Não ama, tem medo, morre de medo de amar. 
- Medo?
- Sim... Não vê de novo, já sei... 
- Medo, nunca tive medo, que história é essa?
- Nunca teve medo?! Ah, ora essa! Então, prove. Olha pra mim, me encare. 
Ele desviou o olhar, não conseguia deixar que seus olhares se encontrassem por muito tempo.
- Eu disse olha pra mim. Olha. 
Relutante, olhou. Olhou tímido, prestes a desviar novamente, mas algo o acorrentou e não conseguiu voltar seus olhos para o nada, para o vento que balançava a árvore tranquila lá fora, fora de toda a cena, fora deles. Viu o que queria ver mas não conseguia. Viu o que não se permitia enxergar mas que esteve na sua frente todo o tempo. Viu-a. Viu seus olhos. Viu seus lábios, seu cabelo, suas mãos perto das suas. Implorou, mentalmente, para que elas se mexessem, se aproximassem somente mais um centímetro, que se encostassem, se tocassem, se sentissem. Viu a realidade. Não viu mais a dificuldade. Tudo estava ali, o suspiro, o café, tudo. 
Os corações trocaram-se naquele momento, o dele passou a ser dela e o dela, bom, o dela já era dele. Os corações suspiram de felicidade, de alívio, deixando todos aqueles suspiros que mergulhavam e nadavam no café sonhando em ser, um dia, como eles.
Ela. 
Ele.
Jun
Tos.
Final
mente.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ir-se, início.

Ela criava um futuro que não viveria. E sabia que não iria vivê-lo. Mas criava, mesmo assim, por ter uma mente inquieta, andante entre pensamentos da imaginação, entre planejamentos do que poderia ou não acontecer.
Não perdia nada ao planejar. Se acontecesse, já estava com tudo pronto mentalmente; se não, seguiria em frente e planejaria algo diferente. Isso é o que os olhos enxergavam de longe e superficialmente. Se fossemos vê-la de perto, cuidar dos seus cuidados, dos seus detalhes, veríamos que entre um plano não realizado e outro, havia muito sentimento. Um deles era a saudade. Sim, saudade. De quê? De como viveu enquanto planejava. Tais momentos costumam trazê-la felicidade por pensar sempre muito positivamente, até quando enxergava a possibilidade de não acontecer o que ela queria que acontecesse. Pensava assim. Por que não?
Apesar de não poder adivinhar o futuro, poderia fazê-la de sua própria adivinha do que viria sem saber o que realmente estava por vir. Não há impedimentos para isso. Se existe um lugar onde somos livres para fazermos o que quisermos, este é o nosso querido pensar, nossa imaginação, nossa mente. A liberdade vive aqui, a não ser que você cisme de acorrentá-la com pensamentos anti-liberdade que, ultimamente, encontramos soltos por aí. 
Nascemos com liberdade e esta pode se perder em nós através do tempo ou não; pode ser encontrada depois ou não; pode ter uma vida curtíssima enquanto você vive longamente, pode viver longamente enquanto você vive sua vida curta, pode ser tão curta quanto a vida ou tão longa quanto ela. Pode, sempre pode. Pode qualquer coisa. Pode, pode, pode. Ela é a liberdade, então, pode. 
Entretanto, a liberdade deixava de habitar tal moça aos poucos, tão devagar e tão rápido como o Sol que surge ao amanhecer cor a cor, tom a tom; rápido e lento. A diferença é: o amanhecer, você nota quando ele se vai e a liberdade quando se vai... Ah... Talvez você não perceba, não diga adeus sem pronunciar tal palavra por, simplesmente, não vê-la partir dia após dia, segundo após segundo num tchau-de-mão tão vagaroso quanto o distanciamento fugaz que em câmera lenta se faz, se acontece. Mas, infelizmente, não se percebe, não se observa, não se vê, deixa-se partir e se deixa partir. Deixou-se partir ao deixa-la partir; partiram-se, uma de si; outra, em si.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Encantado, passou a viver

Levantou da cadeira, saiu maravilhado. Os olhos de seu coração haviam transmitido tudo que enxergavam com sentimento para os olhos do rosto. Levantou cambaleando de tanto sentimento, de tantos pensamentos. Segurou-se no braço da poltrona como quem segura um fio de ideia entre os dedos. Agarrou-a e fê-la habitar em seu ser - a poltrona, tudo. 
A cada passo que dava, parecia não se mover, apesar de sua mente estar se movimentando ainda mais rápido do que qualquer outro movimento feito pelo corpo, até mesmo os próprios batimentos cardíacos, que aceleravam apostando corrida com o batimento do segundo anterior. 
Nunca se esqueceria de tal dia, nunca se esqueceria de tais cenas. 
Tudo se passava rapidamente, e não como um filme, mas como um livro que respira e se move. Tinha vida, se mexia, sentia, respirava, até sorria. E fazia-o sorrir, respirar, sentir, se mover e, principalmente, viver. Vivia por ter visto o que viu; por ter vivido o que foi vivenciado por outro, passava a viver, passava a enxergar. Passou a caminhar com o coração, a caminhar com o ser humano que estava prestes a se entregar ao abismo da realidade cruel criada por outros ao seu redor, mas que foi resgatado no último minuto da sua existência. Passou a pensar. Passou a não somente passar. 
Assim, passou por mim pela porta do teatro ao fim da primeira peça que ele teve a oportunidade de assistir. Encontrei-o no final, parado em frente ao teatro olhando-o como quem olha para o tempo que se vai, despedindo-se do que era antes de encontrá-lo e abraçando o novo que estaria por vir.

[Inspiração: você  lembra da primeira vez em que foi ao teatro?]

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O sorriso do abraço, o abraço dos olhos

Da janela do ônibus, encontrei um par de olhos distraídos mas que logo encontraram os meus. Os olhos pequenos que me enxergavam, apertaram-se num sorriso sincero que sonhava em ser abraço. Os meus, sorriram o mais bonito que poderiam sorrir, abraçaram o mais forte que poderiam abraçar, pois eles sabiam que aquele momento iria partir assim que o sinal fechado se abrisse. Aquele momento de segundos que se eternizou, que até mesmo deixou o sinal vermelho sem vontade de virar verde para que pudesse observar por mais tempo a cena que presenciava; mas enverdeceu-se logo, tomando a cor da grama de um enorme campo feito para se deitar, conversar, rir, sorrir, se abraçar e se momentear. Deixei-me rolar por ela e ela rolar por mim.  Acenei para a criança dos olhos risonhos que abraçam, deixei-a partir com o vento que seu ônibus jogou nos meus cabelos, como um suspiro de quem se vai sem querer ir, de quem se vai mas, de certa forma, fica.
E ficou.
O seu sopro assemelhou-se mais a um beijo de despedida em minha testa que recebi ainda sorrindo e com o coração dizendo "Fica, fica, fica." Mas foi-se sem ficar. Mas ficou-se sem ir. 
Guardei-te. Agora, mora na Rua das Surpresas que nos Trazem Felicidade numa casinha simples que visito, com tempo ou sem tempo, visito sempre que posso.

Da série Olhares e Sinal Fechado.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Ela seria a sua própria filósofa

Ela estava sentada no sofá do consultório enquanto ouvia aquelas perguntas, uma atrás da outra, ao perceber que, mesmo sendo perguntas sobre ela, não sabia responder. Percebeu, também, que ela não era o seu assunto preferido para pensar, se preocupar e que, mesmo sendo ela, não sabia sobre si mesma. Como pode? Não há outra pessoa no mundo em que ela havia passado mais tempo perto do que ela própria. Como não podia conhecê-la? Como não conseguia responder aquelas perguntas?
Sua voz começou a tremer, sua mente procurava incansavelmente por respostas, ela não conseguia organizar os (milhões de) pensamentos que se passavam e que competiam entre eles para ser a melhor explicação, a melhor resposta, mas nenhum servia. Ouvia-se apenas um silêncio ensurdecedor que parecia que nunca mais cessaria.
Suas mãos começaram a suar, o nervosismo a encontrou. Ela disse qualquer coisa só para acabar com o silêncio e o momento, aparentemente, passou. Aparentemente porque este momento havia ficado dentro dela, e não iria embora enquanto não fosse resolvido da maneira que deveria ser. Porém... como ele deveria ser?
Precisava se perguntar mais sobre ela mesma, tentar se descobrir mais. Percebeu que de tanto escondê-la do mundo, acabou se escondendo em si, e fez isso tão bem a ponto de ficar difícil dela mesma se encontrar.
Ela costumava se descobrir no meio da madrugada, enquanto dormia, sem perceber que havia se descoberto. Deveria encontrar algum momento do dia, em que estivesse acordada (e talvez até despercebida), para retirar a coberta de dentro dela. Para isso, seria preciso armar um plano contra ela mesma e ele a desmascaria, e é exatamente isso que queria. Assim, passou a pensar sobre o que nunca fora pensado por ela sobre ela.
Há pessoas que se preocupam em observar os detalhes, aquilo que quase não é observado ou percebido pelos outros. Ela faria o mesmo, mas não seria com aquilo que estivesse ao seu redor, mas com o que está dentro dela. Pensaria sobre aqueles pensamentos que tinha de costume, talvez até diariamente, e que, por causa disso, não eram mais notados. Pensaria sobre o que os olhos dela, naquele momento, não viam, e faria com que vissem. Pensaria sobre o que não deveria ter acostumado em pensar, mas que acabou acostumando. Pensaria sobre ela como filósofos pensam sobre o mundo. O primeiro passo seria: pergunte-se a procura de respostas e explicações sobre si.
Deste modo, havia acordado do próprio sono. Estava disposta a ser a filosófa de si que questionará sempre os seus próprios pensamentos, objetivos e sentimentos. Assim, poderia se descobrir, se ajudar, se melhorar e ser mais quem realmente era sem ter sombras dentro da própria personalidade.

domingo, 27 de novembro de 2011

O encontro, parte dois.

Ele olhava para todos os lados, todos os cantos, corria pelo lugar, os olhos incansavelmente procuravam guardar todas aquelas imagens na mente. Ele estava encantado, curioso e havia se perdido de si com a beleza que nunca havia imaginado encontrar algum dia. Tudo isso lembrou-me ela. O passado repetiu-se em mim mais uma vez, detalhadamente, todas as palavras, todas as expressões, os tons que ela usara ao cantar, a voz angelical, tudo estava em mim e não deixaria que se perdesse nunca. Acordei dos meus sonhos que fizeram fugir completamente da minha realidade ao ouvi-lo dizer, com sua própria voz, que gostava do meu mundo. Sorri de escárnio. Devia estar brincando. Porém, não estava. Era inocente. Não sabia o que ele significava para mim e para o meu mundo. Não sabia que o meu mundo deixou de ser belo como era antes a partir do momento em que ela me deixou. E com o nascimento dele... ficou... horrendo. Mas sobrevivia, fui salvo pelo amor.
Fiquei a me perguntar se aquela criatura havia escutado sobre mim alguma vez, alguma história, alguma memória sendo contada pela sua mãe ou se, simplesmente, esta última havia feito questão de deixar todas essas lembranças longe da pobre criança.
Como pôde fazer isto comigo? Aquele jovem, ah, aquele jovem, se aproveitou da beleza aparente que o pertencia e da sua fraqueza, fingiu te amar e acabou te amando. E eu, sem fingimentos, com toda a sinceridade de minha alma, te amei, te amo e morrerei te amando.
Como eu desejava que esse menino fosse meu, fosse nosso. Poderia até mesmo imaginar os meus traços nele juntando-se com os seus.

Gustave: It soars so beautiful
Phantom: Can it be?
Gustave: Almost too beautiful.
Phantom and Gustave: Do you see what I see?
Gustave: Heavenly.
Phantom: To him it's beautiful
My world is beautiful
Gustave: How can this be what it seems?
(The Beauty Underneath)

Baseado em: Love Never Dies.

O encontro, parte um.

Não poderia ser. Ou seria? Não, não. Já estou numa idade avançada, não posso confiar nos meus olhos. Mas parece real. Não pode ser. Apertei mais meus olhos e agucei meus ouvidos em vão. Ele estava tão distante. Num momento, pareceu perceber que eu o estava fitando e olhou para mim. Oh, céus. Não pode... Era ele. Era ela. Eram eles três. Escondi-me nas sombras, deixando-os ir.
Passei dias repensando sobre aquele momento que durou menos de dez minutos. Parecia ter sido mais de tanto sentimentos e pensamentos complexos que se passaram dentro de mim com tamanha rapidez. 
O menino, num outro dia, quando me dei por mim, ele estava ao meu lado. Trouxe-o comigo sem que ninguém percebesse. Devolveria-o, mas só depois. Agora ele era meu. Precisava aproximar-me um pouco mais daquela criatura.
Quando o observei mais de perto e mais demoradamente, consegui estudar cada detalhe nele. Os seus olhos... Os seus lábios... Os seus cabelos loiros... A sua voz... Tudo me lembrava dela. Agarrei-me ao que  senti naquele instante e deixei que todos os sentimentos tomassem conta de mim, até que tive que virar meu rosto para outro lado. Senti lágrimas pedindo para saltar dos meus olhos. Não. Não ali e com ele. Escondi-me mas, dessa vez, foi dentro das minhas próprias sombras. Queria tocá-lo, tenho certeza de que a sua pele também era igual a dela, macia. 
Ouvi boatos de que aquele menino existia, porém recusei-me a acreditar, e, agora, ele estava alí, bem a minha frente. A destruição da minha vida existia em carne e osso e encarava-me com aqueles lindos olhos castanhos-claro tão parecidos com os de sua mãe.