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domingo, 5 de maio de 2019

Da teimosia feroz

O filho nasce e penso que seria diferente.
Penso o quanto mudaria.
Que viria, sinceramente, uma nova visão
- a esperança.

Mas tudo continua o mesmo.
O mesmo erro.
O mesmo egoísmo.
A mesma falta de enxergar.
E exclusão.

Essa que dói tanto.
Não queria afirmar.
Mas não posso deixar de fazê-lo,
seria ignorância
porque é, porque é ela que tá aqui
e existe.

Pulsa tanto que paralisa
o pulsar.
Daquela dor que vai parando o peito
devagar
diminui
o tempo de vida
o meu
e o seu

Seria tão fácil
tão simples
se não tão simples não fosse,
não seria
mas é e, mesmo assim,
acaba não sendo.

De um lado, ela me olha, tão imperiosa
de outro
o controle
que dá tanto o gosto
dói em quem gosta
dói em quem é controlado
em que observa e convive
vidas se perdem nesses exatos momentos
tanto impacto

De outro
a confusão
que faz pensar estar fazendo a coisa certa
engano infinito
pensamentos tão restritos
apequenadores.

Nossa condição é tão imensa
tão viva
que aqui estamos
encontramos esses pormenores
que assim deveriam ser
e viram tão maiores, gigantes
nos prendem e amordaçam
por quanto tempo?A
- por aquele tempo que você permitir

seria tão fácil
pela companhia sincera
pela sinceridade por si só
pela verdade
plena e limpa
como é
olhos claros
e cheios de brilho
vida inteira
pulsante
e imensa.

Sem fim,
existe um tempo em que tudo se explica.
Queria eu que se explicasse no agora.
Que fosse visto - tão claro.
Percepção tão pura.
Tão nós.
Que não se vai.
Permanece e agrandece,
acrescenta o sempre.

A mim e a tantos alguéns queridos. 
Dói um infinito.
Mas que venha descoberta ainda maior. 

domingo, 19 de agosto de 2018

Mas não hoje

Às vezes pensam que podemos viver sozinhos. Erro. Engano. Pautam suas vidas em si mesmos. Num próprio redondo. Círculo fechado. Que se reduz a um ponto. Deixa de ser círculo, deixa de agregar. Finge que agrega. Se fecha, se fecha, se fecha. Se reduz. Vira ponto. E ponto. 
Que tristeza que isso me dá, meu Deus. Diante de todas as possibilidades, diante de todas as pessoas que poderiam estar lá, que estariam felizes se lá estivessem, são todas retiradas. Excluídas. Um abandono. Pelo não pensar, pelo não imaginar. Pelo desconsiderar. As palavras podem vir suaves pela boca, mas no coração é isto. O descuido do dia a dia que leva a frieza que é desconsiderar alguém. Ausentar aquela presença. Silenciá-la. E por que? Por tantos motivos que nem sei. Por tantos, tantos motivos que no final fica nenhum. Eles olham um para os outros, ficam firmes enquanto estão, mas chega um momento, sempre chega esse momento que se olham mais uma vez e não se entendem. E se vão. 
O vazio.
De dentro, na alma, cavado por si próprio. 
A solidão.
Mas não te desejo isso, queria apenas falar. Queria apenas que enxergasse. Que visse. 
Antes.
Antes de piorar. Antes de se arrepender. Antes, bem antes de sentir o gosto amargo da boca que é fazer o mal a si mesmo. E fazer o mal aos que amam. E que sem coincidência, amavam você. Antes até mesmo (nem mesmo) tivesse o tempo de perceber. De mudar. E partisse para a brevitude, em que todos esses complexos se desfazem pelo ar. Vão para onde deveriam ter ido: embora. Seguir um caminho que não fosse junto contigo para que pudesse então seguir o caminho que fosse o teu. 
Tão comum. 
Mas não natural. Não é natural. Não é o curso fluido. É o interrompido, é o interromper. Que em si mesmo precisa de rompimento, ruptura, pra deixar de ser assim. Pra voltar a fluidez. A serenidade. O agito que vem de dentro e não é a energia que devia movimentar. Movimenta, mas paralisa. O final da história é esse. Depende das escolhas. Depende do enxergar. Tudo tão à vista e não visto. Possibilidade de enxergar é todos os dias. Possibilidade de amar. E ser amado muito mais. De se deixar ser amado. Deixar aproximar. Quem assim sentir verdadeiramente. 
Que venha. Que chegue. Que ame. Que viva. 
Que esse seja o curso natural da história. Que não é ainda. Porque hoje não foi. Foi mais uma ferida. Quem não sente sua própria ferida, não sabe que a tem, não sabe cuidar dela e machuca. Mais ainda. Quero fechar a minha. Quero que quem lê feche a sua. Quero que você feche a sua, que não seja no tarde. Vai ver como amanhece. Como o sol surge. Os raios todos amarelos vindo te acender, como nunca. Deixando ainda maior, energia, deixando de ser ponto. Acrescentando seus dias. Um após o outro sendo como um dia a mais. Somando em si mesmo o tanto mais da vida.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Andar pra frente recuando, o cômodo

Há tanto que enxergo que nem sei como colocá-lo aqui entre o papel, entre as palavras. Há espaços no tanto vazios que só em descoberta para preencher. Há outros tão cheios que só em reconhecimento para escrevê-los. Há tanto em que eu enxergo. Os olhares de quem passa. O tom da voz. O pedido. Os sonhos vivos e aqueles adormecidos, até quando? Até quando deixar que o verdadeiro se vá pelo o que não deveria permanecer? Ou, ainda, o que não permanece. O desvalor. O desamor. Criam apenas vazios incompletos, vazios-nada que nada faz surgir, apenas repetir, repetir e repetir. Sem passos. Sem brilho ao olhar. Sem vontade ao coração. Sem verdade. Como dói. Como dói só esse pensamento de imaginar e ver dia a dia que acontece. 
Eu realmente não sei escrever sobre essa dor que é não viver por causa do cômodo incompleto, sobre o vazio que fica entre uma palavra e outra. Não sei escrever sobre essa alegria que é viver, sobre cada letra que forma uma essência única em si mesma, como cada eu e nós. Mas sei o quanto é contente. E só de tentar, só de, agora sim, pensar sobre ela, já há contentamento. Já cresço. Só de imaginar já sinto (também cresço). E nada é de mais valor a ponto de deixar um momento desses para depois, não por ter o que fazer, mas por pouca coragem para fazê-lo. Um momento de escrita mas que não só ocorre com as palavras aqui, mas as de dentro, as que vivem em mim; e que se interioriza e se expressa seja aqui e seja onde eu estiver. Essa é a coragem. Essa, o acontecimento da vida em todos os dias.

À sinceridade de todos os dias, aos passos de todos os dias, ao interior de todos os dias. Simples. Verdadeiro. Vivo.
Be glad of life.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Pensamento 16 de 365

..

Céu, aguentaria a minha chuva?

..


Dois mil e ter-se anda cada vez mais complicado. A cada dia que se passa, quero ser quem eu era no passado quase-ontem. Quero o ser-eu-inteiro. (Terei-o?)
Muitas mudanças ao mesmo tempo (explosão e): tempestade. Temporal. Tempo chovendo tempo. As gotas doem quando encontram o corpo enquanto ele, sem sentir, caminha para o insensível. Só sei que não chegou ao fim dos passos porque ainda sinto as gotas. Ainda sinto sua dor doer em mim. Dor de fora pra dentro. Dor do céu que cai sobre mim.
E... se eu chovesse de dentro pra fora? E se o céu passasse a receber também minhas gotas? Pergunta (outra): o céu aguentaria se eu chovesse nele?
Pareceria guerra. Parece guerra. O motivo é a quietude que anda trazendo cada vez menos paz. A quietude transformou-se no mudo, no não falar com muito para dizer e, por isso, calar-se mais por ter me deslocado de noções de meio, fim, início. (O meio para a finalidade e quando passou a ser fim.)
Perdi. Perdi-me em mim entre o caminho de ter-me comigo. Faria isso parte da trajetória? Não sei, sinceramente, não sei. Mas estou tentando... Estou tentando descobrir. Descobrir-me. Faz verão aqui, primavera, outono, não preciso de tantos casacos ou cobertores. Descobrir-se é necessariamente o meu preciso.

[Que sempre existam pássaros
 por baixo do cobertor
 que cobre meu peito. 
Pássaros e flores. 
Também poetas. 
(Um mundo.)

Um pequeno detalhe grande:
a explosão veio da Clarice.
O texto-explosão-Clarice é
 esboço para muitas ondas
 geradas pela bomba.
 Ainda estou em fase de medição e estudo
 das suas frequências e amplitudes.]

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Insistência no insistir

A vontade me serve com seus mais belos frutos; a racionalidade me condena, lançando-me seu olhar de mãe que repreende o filho quando o vê fazendo algo de errado.
A emoção é forte demais e o medo, mais uma vez, me domina. Finjo que não ouço, que não vejo, que não sinto enquanto, em mim, há um mundo. Este mundo, coitado, cala-se quando mais quer e precisa falar; recebe somente o direito de permanecer mudo, mas grita silenciosamente de um modo, que ouvido de longe, mais se parece com um sussurro que precisamos nos esforçar para ouvir mas, se ouvido de perto, terá vontade de sair correndo para longe de tão alto, tão intenso que é. E será ainda mais, ele me disse. 
Ele anda me fazendo chantagens, me provocando, disse que a surda sou eu por não me permitir ouvi-lo. E pior: a surdez está no meu coração, que foge como louco quando conhece algo que o faz sorrir e se acelerar. Parece coração idoso que tem medo de morrer enquanto seu tum de agora aposta corrida com o tum que se foi, e assim vamos num tum-tum, tum-tum, tum-tum-um-u-m-u-t-u-m sem pausa. Tum engolindo tum. Eu, engolindo-me. 
Mesmo reconhecendo o medo, ainda sinto medo só por senti-lo, só de imaginar que ele poderá piorar, se tudo melhorar porque, quanto mais isso acontece, maior a esperança, as lembranças; maiores serão todos os sentimentos. Melhorará se piorar? Piorará se melhorar? 
Ah... Queria ser profeta, adivinha do futuro; queria saber lidar com o tempo, controlar a ansiedade, a espera e esse o-que-será-de-mim-mais-tarde-?. Queria ser adivinha de pensamentos, saber te ler por dentro sem me deixar guiar pelo o que eu quero ver, mas pelo o que realmente há. Só que é difícil controlar quando os olhos insistem em enxergar somente aquilo que desejam ver. Difícil de saber a verdade quando o coração insiste em insistir sentir. Difícil saber o que irá acontecer quando insisto em não saber se insisto no insistir ou no não-insistir. Difícil de prever quando se vive o que é fácil de imaginar quando somente se inventa.


[Engraçado quando você consegue ri daquilo que um dia te atordoou.
O rascunho está realmente empoeirado.
O momento realmente passou.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Reticências, última parte.

Sua vida foi defender-se da vida, de si... Do mundo. E isso ela fez bem. Na verdade, foi o que aprendeu a fazer de melhor durante todos esses anos: defender-se, e esta era a sua defesa contra todos os medos, inclusive o de não viver. (Falhou com este último.) 
Ao acordar do seu sonho-acordado, desejou baixinho "Vira realidade, por favor..." Seu pedido não foi uma ordem. Foi um pedido jogado ao vento que queria que passasse e levasse-na para um lugar, qualquer lugar, onde servisse de moradia para a realização de seu desejo. Mas o vento não passou. Sentiu dó, teve vontade de passar nem que fosse por um segundo... Mas, não. Ela deveria fazer isto sozinha. (Não fez.)
A lâmpada não apareceu. O gênio não apareceu para salvar aquele pobre coração que choramingava pelos cantos e que, antes mesmo de ver o ponto final da sua história, já decretava o fim. Depois, ainda se dizia esperançoso... Não sei que esperança é essa, coração. Se existir, só as paredes sabem. Elas guardam segredo nossos que nem mesmo nós sabemos, calam-se fácil. Talvez, um dia, foram como a moça que também deixava-se calar por pouco quando mais deveria seguir a sua voz, mesmo que esta faltasse no momento. Ela nasceria e haveria voz. Haveria... haveria... (Não houve.)
Foram-se embora. 
Assim que ela virou as costas, passou a inventar novamente mais um diálogo imaginário. (Ele também.)
E as paredes viram...
[De mim, nunca espere um final feliz.
Porém, se escrevo triste
não é para entristecer-te
é para criar coragem
e, nesse caso,
viver.

E outra:
nunca duvide
da imensidão
de um olhar.

Esse texto nasceu de um outro 
texto chamado Três Grandes Pontos
Pontos grandes mesmo,
por esconderem um 
mundo em si. ]

sábado, 24 de novembro de 2012

Reticências, primeira parte.

- É tão difícil...
- Tão difícil o quê?
- Tudo... Tudo é difícil. É difícil falar até mesmo a palavra difícil. É difícil te responder, me fazer falar quando estou com você... É difícil te olhar, deixar o meu olhar no seu... É difícil... É difícil terminar uma frase contigo. É difícil, meu Deus, como é difícil.
- É difícil, mesmo. É difícil te olhar quando sei que o seu modo de olhar não é o mesmo que o meu. É difícil saber que seus pensamentos sobre mim são diferente dos meus sobre você, que os seus sentimentos, ah, os seus sentimentos... É difícil... É difícil, fico com nó na garganta, aperto no peito, vontade de te abraçar, de te levar pra Terra do Sempre comigo... É difícil saber que você veria esse abraço de uma forma diferente do que ele realmente seria. É difícil saber que... que... Ah... Por que isso foi acontecer, meu Deus? Por que você? Por que eu? 
Mexeu o café com suspiros e concentrou seu olhar vago nos movimentos também vazios do café como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. Deixaram os olhares perdidos na paisagem fora da janela. Queriam perder os olhares fora da janela daquela situação, assim, com salto, pulo, fuga; queriam quebrar o vidro daquela paisagem deles e sumir com todos os cacos que se espalhariam por dentro do possível nós; queriam olhar tudo de cima, queriam não sentir o que sentiam, mas sentiam, sentiam, sentiam. 
Uma lágrima caiu. 
Era impossível controlar qualquer reação naquele momento. Se a lágrima ameaçasse cair, ela cairia. E caiu.
Desprendendo-se do vazio num susto, ele olhou para ela... 
- Não chore, por favor, não chore. 
- Não chorar?! - Dizia ainda com os olhos cheios de estrelas mortas que brilhavam insistentemente - Venha, pegue meu coração, arranque-o de mim, só assim não vou chorar. Venha, pegue meu coração e coloque-o no lugar do seu, quero ver se não irá chorar assim. Venha, pode pegar até porque ele não mais me pertence, não mais bate a todo segundo para me manter respirando, para me manter pensando, para me manter viva, mas somente bate para te manter respirando em mim, para me manter pensando em ti, para te manter vivo, bem vivo aqui.
- Sou difícil de chorar mas, acredite, estou dilacerado. Cada canto meu chora. Definitivamente, não estamos em tempos de risos. 
- E pensar que poderíamos acabar com isso tudo...
- Poderíamos?
- Poderíamos. Mas não podemos, não vê? Não vê que o que traz tanta dificuldade são todas essas correntes que carregamos em nós? Não vê que o difícil não está na situação, mas na gente? Porque a situação está aqui, e isso você consegue perceber, conhecer cada detalhe. Mas e o que te prende? Consegue se soltar? Consegue se deixar voar pelo o céu da gente, só da gente? As nuvens só nossas nunca formariam uma tempestade... Mas seus olhos preveem somente tempos cinzentos, pensou.
Não teve coragem de dizer seu pensamento em voz alta. Se fosse dito, mesmo que em sussurro praticamente inaudível, a praga poderia tornar-se realidade. Mas a verdade era que o "tornar-se realidade" já era real, já havia se tornado faz tempo mas... E o medo de admitir e trazer outros tornados ao bom tempo? 
Entre toda a agonia, uma pausa, um sorriso tão pequeno que quase não era um sorriso. Ela ficou imaginando o céu, os passarinhos, o tempo de cantos de volta. 
-  Não vejo, não consigo. - Ele respondeu.
O não-estamos-em-tempo-de-sorrisos voltou para ela antes mesmo que algum passarinho pudesse dar o primeiro pio, o primeiro voo.
- Não vejo... não vejo... Sou cego do coração... Sou insensível dos olhos... Sou surdo da mão. A minha corrente é não me acorrentar. - Admitiu isso com enorme pesar, desejou baixinho e de fininho que não fosse assim como era.
- Não se acorrentaria... Não vê que assim seria livre? Se sua corrente é esta, está me dizendo que tem uma corrente, então, se acorrenta. E onde está a parte do não se acorrentar? 
- Liberdade... Sonhei tanto em consegui-la... Nunca a terei... - Seus pensamentos envolviam-no como num sonho, nem mesmo ouviu o que foi dito.
- Terá... Comigo... Teremos. - Sua voz soava como uma súplica, assim como o seu olhar.
- O tempo me acorrenta, a vida me acorrenta, será o amor mais uma corrente? Farto estou de correntes da alma... Farto estou de correntes da vida... 
- E não vive. 
- O quê?
- Não vive, simplesmente não vive. Não ama, tem medo, morre de medo de amar. 
- Medo?
- Sim... Não vê de novo, já sei... 
- Medo, nunca tive medo, que história é essa?
- Nunca teve medo?! Ah, ora essa! Então, prove. Olha pra mim, me encare. 
Ele desviou o olhar, não conseguia deixar que seus olhares se encontrassem por muito tempo.
- Eu disse olha pra mim. Olha. 
Relutante, olhou. Olhou tímido, prestes a desviar novamente, mas algo o acorrentou e não conseguiu voltar seus olhos para o nada, para o vento que balançava a árvore tranquila lá fora, fora de toda a cena, fora deles. Viu o que queria ver mas não conseguia. Viu o que não se permitia enxergar mas que esteve na sua frente todo o tempo. Viu-a. Viu seus olhos. Viu seus lábios, seu cabelo, suas mãos perto das suas. Implorou, mentalmente, para que elas se mexessem, se aproximassem somente mais um centímetro, que se encostassem, se tocassem, se sentissem. Viu a realidade. Não viu mais a dificuldade. Tudo estava ali, o suspiro, o café, tudo. 
Os corações trocaram-se naquele momento, o dele passou a ser dela e o dela, bom, o dela já era dele. Os corações suspiram de felicidade, de alívio, deixando todos aqueles suspiros que mergulhavam e nadavam no café sonhando em ser, um dia, como eles.
Ela. 
Ele.
Jun
Tos.
Final
mente.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Ir-se, fim.

Depois dessa época, nunca mais se encontraram. Seguiram caminhos opostos. A liberdade não voltou atrás, pois só retorna se, ao menos, notarem que se foi. Ela não notou e logo, logo partiu definitivamente de desgosto que sentia por algo que não sabia nem mesmo o que era. No fundo, sabia, mas não dizia para si. Sabia, mas não investigava. 
De tanto que seus planos passaram a dar errado, parou de planejar. Esvaziou-se. Não mais sentia àquela felicidade quase imediata. A saudade quente que lhe servia como café da tardezinha virou amargura, virou a sede que chega na sua garganta em plena madrugada e você não acorda, não levanta para beber o copo d'água. Sente preguiça, prefere dormir, continuar seu sono. E dorme. E continua. E ela não mais sonhou. Deixou de viver, deixou de colecionar imagens para sua criatividade e seu subconsciente fazerem festa no único período do dia em que ainda tinham o restinho de liberdade que sobrara na xícara: o tempo em que sonhava.
Foi-se e não mais conseguiu voltar para si. Foi-se de si.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ir-se, início.

Ela criava um futuro que não viveria. E sabia que não iria vivê-lo. Mas criava, mesmo assim, por ter uma mente inquieta, andante entre pensamentos da imaginação, entre planejamentos do que poderia ou não acontecer.
Não perdia nada ao planejar. Se acontecesse, já estava com tudo pronto mentalmente; se não, seguiria em frente e planejaria algo diferente. Isso é o que os olhos enxergavam de longe e superficialmente. Se fossemos vê-la de perto, cuidar dos seus cuidados, dos seus detalhes, veríamos que entre um plano não realizado e outro, havia muito sentimento. Um deles era a saudade. Sim, saudade. De quê? De como viveu enquanto planejava. Tais momentos costumam trazê-la felicidade por pensar sempre muito positivamente, até quando enxergava a possibilidade de não acontecer o que ela queria que acontecesse. Pensava assim. Por que não?
Apesar de não poder adivinhar o futuro, poderia fazê-la de sua própria adivinha do que viria sem saber o que realmente estava por vir. Não há impedimentos para isso. Se existe um lugar onde somos livres para fazermos o que quisermos, este é o nosso querido pensar, nossa imaginação, nossa mente. A liberdade vive aqui, a não ser que você cisme de acorrentá-la com pensamentos anti-liberdade que, ultimamente, encontramos soltos por aí. 
Nascemos com liberdade e esta pode se perder em nós através do tempo ou não; pode ser encontrada depois ou não; pode ter uma vida curtíssima enquanto você vive longamente, pode viver longamente enquanto você vive sua vida curta, pode ser tão curta quanto a vida ou tão longa quanto ela. Pode, sempre pode. Pode qualquer coisa. Pode, pode, pode. Ela é a liberdade, então, pode. 
Entretanto, a liberdade deixava de habitar tal moça aos poucos, tão devagar e tão rápido como o Sol que surge ao amanhecer cor a cor, tom a tom; rápido e lento. A diferença é: o amanhecer, você nota quando ele se vai e a liberdade quando se vai... Ah... Talvez você não perceba, não diga adeus sem pronunciar tal palavra por, simplesmente, não vê-la partir dia após dia, segundo após segundo num tchau-de-mão tão vagaroso quanto o distanciamento fugaz que em câmera lenta se faz, se acontece. Mas, infelizmente, não se percebe, não se observa, não se vê, deixa-se partir e se deixa partir. Deixou-se partir ao deixa-la partir; partiram-se, uma de si; outra, em si.

sábado, 13 de outubro de 2012

Pincelada de eternidade

A festa acabou, era hora de nos despedir. Flor pegou o seu casaco, vestiu o seu melhor sorriso e cumprimentou um a um.
- Tchau, querida. Fica com Deus. Ah! Continua linda desse jeito que você é. Tchau, tchau, até.
Passou por mim, me abraçou, falou comigo. Quando terminou, olhou ao redor e disse:
- Faltou falar com alguém? Não, né? - Mas o seu olhar cruzou com o meu e...- Ah! Como pude me esquecer de você? Poxa, vida! Tchau, tchau, querida. Continue com toda essa beleza. Ah, que sorriso lindo! Não deixe que ele desapareça, se cuida, até. 
Falou comigo novamente.
E, assim, passou a cumprimentar a todos mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. E mais uma vez. 
Seus filhos tinham paciência. Deixavam que ela falasse com todos duas vezes, pelo menos, mas chegava uma hora em que precisariam colocar um ponto final em todos aqueles abraços e beijos, se não nunca sairiam de lá.
Flor falou comigo de novo. Abracei-a com gosto e sorri, como da primeira vez. Recebi o mesmo olhar, o mesmo abraço, o mesmo sorriso, o mesmo carinho, as mesmas palavras, os mesmos desejos e pedidos delicados como se fosse a primeira vez em que eu tivesse recebido-os. 
- Vamos, mãe. A senhora já falou com todos. 
- Não, não. Falta falar com a tua tia. Só um minuto, filha, só um minuto. Ô, Cibele! Não falei contigo, vem cá, vem cá. 
E lá ia ela novamente. 
Do canto, assistia Flor com cuidado, com um sorriso fraquinho nos lábios que escondia uma preocupação: será que piora? Por enquanto, era engraçadinho. Mas, com o passar do tempo... E se ela se esquecer de todas as suas outras memórias? Ah, ela tem memórias tão lindas. Sempre que nos encontramos, ela me conta sobre a época em que vivia na fazenda de seu pai em Minas Gerais. Lembra de tudo tão perfeitamente que cada palavra dita me pega pela mão e me faz voltar no tempo com ela, ir até Minas, andar a cavalo, sentir o vento... Ah, Flor, Flor... Ah, Flor...
Acordei ao ver que ela estava caminhando até a mim novamente.
- Tchau, querida. 
- Vamos logo, mãe!, gritou sua filha do portão. 
- Ai, esses filhos de hoje em dia não sabem mais esperar... Tchau, tá? Continua sempre... 
- Com esse sorriso. 
- O meu nunca mais morrerá.
- Não esquece de fazer as suas cruzadinhas, viu?
- Não esqueço, não.
Lançou-me um olhar de carinho, passou a mão pelo meu cabelo. Ficamos assim não sei por quanto tempo. A tela pintada por este momento me presenteou com uma pincelada de eternidade que, mesmo quando passasse, continuaria em mim, seria eterno em mim. Despertamos assim que sua filha gritou novamente. Apressada, porém ainda com olhar calmo, ela disse: - Um beijo, se cuida. 
- Tchau, Flor, tchau. E... não se esqueça de lembrar, por favor. 

sábado, 8 de setembro de 2012

Ser aspas: não se foi e séria, seria.

As aspas falam mais por ela do que quando estava sem elas. Sem aspas, estava sem roupas. 
Assim, sua vida baseou-se em aspar. Ouvia uma opinião, achava boa e dizia que esta, agora, seria dela. E fazia dela sem nunca pensar profundamente sobre o que agora chamava de seu realmente queria dizer, o que ele era, o que ela estava se tornando ao não pensar, ao deixar de ser. Só repetia, repetia e repetia; até um dia em que encontrou alguém questionador. Ele, além de questioná-la, tentava fazer com que enxergasse o outro lado da moeda, os outros peixes que nadavam no mar tão coloridos, tão bonitos, mas que ela nem notava, se negava e renegava fazer tal absurdo. Não sabia mais pensar além do que aquilo que ouviu falar. Sentia-se ameaçada, agredida, violentada por ele ter tentado tirar as suas roupas, as aspas, e afastou-se.
Ao invés de aproveitar esse momento para parar e pensar em tudo que dizia, continuou vivendo da maneira que vivia, continuou sendo quem não era, continuou fazendo o que sabia fazer sem vergonha e com medo de mudar. Continuou a aspar.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Falta a cor dá


Estão assistindo o jogo
sem vontade de jogar
Estão na torcida há tanto tempo
que a esperança de ganhar
aos poucos, se vai
e vai
e vai
e leva junto o que há de nós
e leva junto a vontade de lutar,
de levantar energia na arquibancada
como quando estamos prestes a fazer um gol
E traz outros para nós
outros que não são quem somos
outros que roubam o que somos
que devoram-nos sem que percebamos,
sem que sintamos,
sem que haja uma reação qualquer

Acorda, povo.
Insiste, povo.
Não espera mais pela esperança,
não espera que ela te encontre,
encontre-na já.

Acorda, povo.
Insiste, povo.
Antes que a corda se vá.

Força, temos
Alegria e energia também
Falta vontade de ir em frente e saber enxergar
Falta sentir falta daquilo que estamos perdendo
Falta sentir falta da falta que nos trará
Falta o faltar do nosso pão
Falta o acordar.
Falta perder a cor que nos dão e começarem a dar a cor que temos
Receber aquilo que já nos pertence para o acordar

Acorde, você.
Acorde, amor.
Acorde, povo.
Acorde entre novos acordes.
Acorde, acorde!

sábado, 5 de maio de 2012

Pensamento 6 de 365


Planos para esta noite: 
me preocupar, 
me convencer de que 
tudo ficará bem, 
me (pre)ocupar, 
me convencer de que 
todo o bem ficará
e me vencer
ao dizer que 
"Além de ficar, 
ele se fincará."

domingo, 27 de novembro de 2011

O encontro, parte um.

Não poderia ser. Ou seria? Não, não. Já estou numa idade avançada, não posso confiar nos meus olhos. Mas parece real. Não pode ser. Apertei mais meus olhos e agucei meus ouvidos em vão. Ele estava tão distante. Num momento, pareceu perceber que eu o estava fitando e olhou para mim. Oh, céus. Não pode... Era ele. Era ela. Eram eles três. Escondi-me nas sombras, deixando-os ir.
Passei dias repensando sobre aquele momento que durou menos de dez minutos. Parecia ter sido mais de tanto sentimentos e pensamentos complexos que se passaram dentro de mim com tamanha rapidez. 
O menino, num outro dia, quando me dei por mim, ele estava ao meu lado. Trouxe-o comigo sem que ninguém percebesse. Devolveria-o, mas só depois. Agora ele era meu. Precisava aproximar-me um pouco mais daquela criatura.
Quando o observei mais de perto e mais demoradamente, consegui estudar cada detalhe nele. Os seus olhos... Os seus lábios... Os seus cabelos loiros... A sua voz... Tudo me lembrava dela. Agarrei-me ao que  senti naquele instante e deixei que todos os sentimentos tomassem conta de mim, até que tive que virar meu rosto para outro lado. Senti lágrimas pedindo para saltar dos meus olhos. Não. Não ali e com ele. Escondi-me mas, dessa vez, foi dentro das minhas próprias sombras. Queria tocá-lo, tenho certeza de que a sua pele também era igual a dela, macia. 
Ouvi boatos de que aquele menino existia, porém recusei-me a acreditar, e, agora, ele estava alí, bem a minha frente. A destruição da minha vida existia em carne e osso e encarava-me com aqueles lindos olhos castanhos-claro tão parecidos com os de sua mãe. 

sábado, 19 de novembro de 2011

O navio que seguia a caminho da Ilha de Vera Cruz

Corpos suados
Corações amedrontados
Para onde iremos?
 Para onde estão nos levando?
Queremos voltar

Era o que todos falavam
Mesmo sem falarem a mesma língua
Mesmo sem dizerem uma só palavra
Era o que todos gritavam silenciosamente:
Queremos o nosso lar, queremos a nossa casa

Escuridão
Viam-se apenas os dentes
Silêncio e calor
Saudade e dor

Para onde estavam nos levando?
Retorne, retorne
Estou com medo
Retorne. Logo.

Mas nunca retornaram
Foi uma viagem
não só ao trabalho desumano
Mas à morte

Se pensas
que seremos aquilo
que queres que sejamos
Estais enganado, meu senhor
Resistiremos, meu caro
Pelo nosso país
Pela nossa cultura
Lutemos

[E lutam até hoje.]

Laryssa Guimarães

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Choro da Alma, terceira parte.

No final de tudo, o silêncio continuou no ar. A violência não acabou, apenas fugiu para as sombras, para lugares onde nossos olhos não enxergariam quando entrassem em ação. Vieram com papo de liberdade intelectual mas, depois disso, não encontrei nenhum pensamento novo, nenhuma ideia nova, nada revolucionário. Isto está mais me parecendo com a Idade Média. E a Igreja não é única que anda no poder. Encontrei uma comodidade sem fim em que ouço reclamações sobre mas não vejo movimentarem um músculo para que haja mudanças ou melhoras.
Se tens liberdade, por que não pensas? Se teu pensamento és o limite, por que não crias, homem? Pense por todos os pensamentos que ainda não foram pensados. Fale em tudo que ainda não foi falado. Não se acomode, necessite, pois a criação caminha ao lado da necessidade. Há um mundo de ideias te encarando ao seu redor, elas esperam que você escolha, ao menos, uma delas mas continuas fingindo que não são existentes e as ignora por completo. Ah, homem...

Nota: agora, a Ditadura Militar deixou de ser o personagem principal do meu choro da alma. Enxergue que a violência que falo na primeira linha do texto não é do tipo causada por assaltos, por exemplo, é o tipo que o governo utiliza junto com a sua brutalidade, quando usada.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Choro da Alma, segunda parte.

Imagine seus maiores ídolos morrendo, um após o outro, e suas esperanças e inspirações falecendo. Imagine. Agora, imagine mais: seus familiares também morreriam por um fato que nunca foi atuado por eles, nunca sequer pensado em ser agido. Você sorriria diante de tudo isso? Sentiria-se feliz? Não, claro que não. Agora, imagine, se sua mente permitir, se fosse o governo que fizesse tudo isso contigo e com toda a população brasileira, de maneira que não você não tivesse defesa alguma. Para quem correria? Denunciaria tudo a polícia? Péssima escolha, amigo. Assim, você acabaria na prisão, se tivesse sorte, é claro.
Grandes mentes, brilhantes ideias, uma juventude maravilhosa, a liberdade, a força de uma população, a expressão e o pensamento foram sufocados, limitados ou mortos. Foram perdidos, jogados fora como quem amassa um papel e joga-o no lixo. Restaram-se para causar esse nó na minha garganta que não sai, não me abandona, para causar lágrimas de saudade, de sofrimento, de tristeza, de rancor, de mágoa. Muitos sentimentos ruins, mas como sentir algo bom e bonito num caso desses? Amigo, como uma boa sonhadora, eu sonho alto e, para desafiar o mundo, digo mais: tenho esperança. Ela é pouquinha e pequenina, mas cresce imperceptívelmente a cada dia que se passa. Quando me der por mim, ela será maior que eu mesma e, quando isso acontecer, estarei pronta para liderar esse exército de loucos que pensam como eu. Não estamos aqui para aceitar os fatos de cabeça baixa e sorrir como se tudo estivesse bem. Pense nisso.

Nota da autora: "Não sei se posto ou não, não sei se posto... Ah, vou postar. Hm, melhor não. Pronto, postei." Estava impossível de conviver com todas as palavras sufocadas dentro de mim. Guardo-as há muitos anos junto com a minha coleção de lágrimas que após choradas, seguem-se de um belo sorriso o qual tem como resultado a esperança. Desculpe se exagerei um pouquinho no final do texto. E decidi fazer uma terceira parte para esse texto.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Choro da alma, primeira parte.

Naquele momento, o plano era o seguinte: matar todas as esperanças existentes em todos os corações de uma massa de pessoas, uma população. O plano foi feito com sucesso, salvo algumas exceções que, felizmente, tiveram forças para resistir em tempos tão difícies como aqueles.
Eles não só mataram as esperanças, mas também ideias inovadoras junto com seus criadores; mataram o bom gosto do povo sobre muitas artes, como a música e a poesia. O Brasil era todo Chico Buarque, Renato Russo, Juscelino Kubitschek e todo Karl Marx.
Nós enxergávamos bem, sabíamos usar nossos olhos. Falávamos sobre certos assuntos corretamente, como quem fosse mestre naquilo, tome a política como exemplo, pois qualquer jovem de quinze anos em diante tinha uma opinião (muito bem) formulada sobre ela. Não éramos alienados aos acontecimentos do governo, a televisão mostrava o que deveria mostrar e não somente o que gostaria que soubéssemos.
Sonho com que esses tempos voltem. Chorarei eternamente pelo o que reprimiu tais tempos tão intensamente que sonhar com sua volta parece ser um sonho impossível. Alias, todos que viveram-no, choram. Estas lágrimas já caíram pelo canto de nossos olhos inumeravelmente de vezes e não foi o suficiente para tamanha tristeza. A alma decidiu fazer um favor  para olhos tão cansados: encranhar tais lágrimas dentro de si. Quando lágrimas chegam na alma, é uma viagem sem volta. Não houve escolha, pois não tinha como esquecer, como parar de sofrer.
Ainda choramos pelas ideias, pelas boas vontades, os bons corações, os bons brasileiros, os que sabiam fazer história que morreram junto com a morte do bom tempo. Choramos por termos morrido por dentro. Choramos por vermos as consequências de toda essa morte atingir este novo século que estamos. Alias, uma curiosidade, você enxerga as consequências com clareza ou seus olhos ainda estão vendados? Se estiveram, não te culpo, é difícil tirar tais vendas, só te peço para lutar contra elas e conseguir vencê-las antes que deixe esse mundo. Veria tudo tão diferente que seria uma pena morrer sem saber da verdade que não é dita nunca, que muitos sabem mas que guardam-nas como se fossem segredo de Estado.
Conheça melhor os fatos, não deixe-se manipular e ser usado como mais uma ferrementa para a política, o capitalismo e o mundo. Não seja somente mais um nesse mundo, mostre o quanto humano você é e use a sua mente para pensar. Essa é a maior diferença entre os humanos com os demais animais, nós somos capazes de elaborar nossos próprios pensamentos. Honre esse dom. Se ele estiver morto, sobreviva-o. Assim, você também sobreviverá.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A morte

Morro quando me alimento, respiro, fecho os olhos e durmo; quando abro os olhos e acordo. Estou morrendo a cada vez que bebo um copo d'água, a cada vez que sinto fome, que sinto meus lábios secos. Morro a cada vez mais quando penso, quando falo, quando imagino ou sonho. Morro cada vez mais quando provo para o mundo e quando digo para mim mesma "Sou um ser humano." Por sermos humanos, nossos pés, em todos os segundos que se passam, nos direcionam a um caminho que nos levará a morte.

"O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela."
Fernando Pessoa

sábado, 30 de abril de 2011

Enxergue

Eu te disse que tenho o costume de escrever textos dedicados as pessoas que são especiais para mim no dia do aniversário dela. Mas não te disse que o seu texto foi o qual eu mais me preocupei em escrever. As palavras saíram dificilmente, é complicado falar de você e de nós mas, mesmo assim, me esforcei.
Se eu já tinha o maior cuidado para encaixar palavras e vírgulas, criar frases corretamente, sem que entrassem naquele meu mundo repleto de pensamentos confusos que saiem de um lugar e levam a lugar algum. Ontem, cuidei disso mais do que já cuido. Importei-me com todos os significados, todas as verdades. Queria descrevê-las ali, para você, mas não foi possível. Há tantos sentimentos mesclados que fica complexo demais quando tento descrevê-los separadamente ou como são quando estão juntos juntos.
Após uma semana, me arrependi de ter descrito tais sentimentos e por ter me esforçado. Você não os merece. Não merece, também, saber de sua existência em mim. Primeiro, deveria crescer, saber pensar, ter consciência do que é o mundo, do que é a vida, do que são os sentimentos. Percebi que te vejo como uma criança recém-nascida que tem a mesma idade que a minha mas, que ainda sabe pouco sobre tudo que existe ao seu redor, sobre tudo que você pode tocar, provar e sentir. Não sabe nada, mas acha que sabe tudo. Isto é o que eu chamo de "grande ilusão". Uma curiosidade: em que lugar você chegará com tal ilusionismo? Tenho noção de qual lugar seja. Não será bom. Acorde, menino. Acorde, enquanto ainda há tempo, enquanto ainda tem vida e vontade de viver.