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segunda-feira, 28 de julho de 2014

De tanto tentar descobrir quem sou, a surpresa (que sempre fui quem era) / Sintonia, vida surpresa ao descobri-la

Passei sonhando com o futuro.
O passado que me conto
o torno possível ou não
O presente que me vivo
o torno sensível ou não.

O sonho como o que cega.
Perdi-me um pouco no tempo.
Olhar ao redor é agora a solução.
Ao redor e ao que há dentro de mim
(em mim, todos os tempos em um).

Como tudo pode acabar num suspiro.
Toda efemeridade, um dia
me enlouquece.
Me faz viver
por mostrar-me o que não vi.
Tudo tão escondido
Encolhido que se expande
no mistério de si.

Decifra-me ou devoro-te.
Tentar decifrar foi o caminho do te devoro.
Necessário apenas se sentir
se enxergar
Mas mais difícil do que isso
seria fazê-lo plenamente
(um dia, consigo)

(talvez viva uma vida e
perceba no fim que o fiz
a vida inteira).

As surpresas que me esperam,
um caminho para colher flores
enquanto se vai pra casa.

Às surpresas que me esperam.
                                                 
[Descobertas
Do pensar e sentir
 em sintonia com o agir.
Do ser quem realmente é.]

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Ser-primavera

Nasceu
Fruto de outras sementes, nasceu.

Cresceu.
Cresceu colhendo os raios de sol
e o brilho da lua
(regavam-no)
enquanto plantava-os
pouco a pouco
em si.

Agora era a hora dele próprio ser:
fruto (amadurecendo-se)
semente (plantada em outras mentes)
sol, que ensinou-o a amanhecer
após cada noite, seja num céu azul ou numa tempestade
lua, como continuar luzindo mesmo na escuridão

E as estrelas assistiram:
transformou-se na própria primavera
que entre as cores das flores distribuía
a leveza do sonhar
a persistência para seguir
os caminhos traçados a nós

Mesmo que a estação passasse,
ainda haveria a lembrança
ainda há as sementes
(fruto daquela que se foi)
e primaveras ainda haverão


Ítalo.
 Não só tinha a primavera em si,
 mas também distribuía,
com pureza e alegria,
 sementes que trariam outras
 próximas primaveras.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Passar, no infinitivo

"Isso passa.
Você vai crescer, passa."

Passa quem?
Passa o quê?
Passa. Passa.
Passa, dizem os pontos inquestionáveis
(que não questionam.)

Passa.
Os instantes.
As nuvens.
O eu. - Será que ainda fico quando me for?
O ser nuvem instantânea (querer ser)
logo água-rio, num piscar, chuva
sem respeitar o ciclo:

                        passa   

                       (sim)                                                 (não)

                         pa   u  s a


Eu vou crescer:
                                perdas
Vou passar:
                                perdas, perdas
Vai passar:
                                perdas, perdas, perdas

Passar, passar, passar.
O infinitivo não é à-toa,
e ainda gargalha de ti quando não o percebe
- por que se venda
quando deveria enxergar?
(Percebe-te?)

Todos também
sede passagem,
enquanto, sedentos de pressa,
passam.
São: aberturas dos próprios caminhos que não seguem.
São? Não.

Crescem
e perecem
- isso passa?

(Passam.)

Eu passo.
Vento-passarinho-pedra.
Passos.

sexta-feira, 1 de março de 2013

À noite, o sol também sonha

Dó de mim
se lá
o sol
da ré.

Mas farei-me
sol lá
dentro de quem
houver alguém
Sim,
sem dó
com sol, sim
lá, sem recuar
de mim
[A peça ideal para o título seria - a 
inspiração - "Lá se dorme um sol em mi menor", 
verso da música Pena, do Teatro Mágico.]

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poema segundo abraços

Encaixar um ano nos abraços de
segundos.

Encaixar um ano
inteiro
nos (a)braços dos segundos

Abraços
de um ano
a cada cinco segundos:

                                                                               re
                                                                                encontros.


[Segundos. Inteiro(s). De um ano.]

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Querer saber o que ser



Quero ser tanto que nem mesmo sei o tanto que quero ser.
Quero ser tanto que nem mesmo sei o quanto quero ser.
Quero ser tanto que nem mesmo sei como quero ser.
Quero ser tanto que nem mesmo sei como vai ser.
Quero ser tanto que nem mesmo sei...
Quero ser.
Não sei.
O tanto.
Quero ser
e sei mesmo
que não sei
se sei o que quero ser
Mesmo sendo, será que serei?
Mesmo sabendo, será que serei?
E se eu não souber, quando saberei?
E se eu souber, quanto serei?
E se eu for sem saber?
E se, sem saber, eu souber?
E se eu souber e, mesmo assim, não ser?
E se, mesmo assim, acontecer, o que será de mim?

Falta a cor dá


Estão assistindo o jogo
sem vontade de jogar
Estão na torcida há tanto tempo
que a esperança de ganhar
aos poucos, se vai
e vai
e vai
e leva junto o que há de nós
e leva junto a vontade de lutar,
de levantar energia na arquibancada
como quando estamos prestes a fazer um gol
E traz outros para nós
outros que não são quem somos
outros que roubam o que somos
que devoram-nos sem que percebamos,
sem que sintamos,
sem que haja uma reação qualquer

Acorda, povo.
Insiste, povo.
Não espera mais pela esperança,
não espera que ela te encontre,
encontre-na já.

Acorda, povo.
Insiste, povo.
Antes que a corda se vá.

Força, temos
Alegria e energia também
Falta vontade de ir em frente e saber enxergar
Falta sentir falta daquilo que estamos perdendo
Falta sentir falta da falta que nos trará
Falta o faltar do nosso pão
Falta o acordar.
Falta perder a cor que nos dão e começarem a dar a cor que temos
Receber aquilo que já nos pertence para o acordar

Acorde, você.
Acorde, amor.
Acorde, povo.
Acorde entre novos acordes.
Acorde, acorde!

Se a(firmar) por dentro

O poeta que não se continha
escrevia, escrevia, escrevia
Não relia, não mostrava a ninguém
Jogava um poço de tudo
o poço do teu alguém
num caderno vazio,
num redemoinho discreto,
num sentimento inconcreto
que fugia, que sentia,
que corria, que mentia,
que sorria, que sofria,
que convidava, que amava,
que se mantinha... que ele fugia

Dentro dele, todos
Dentro de todos, ninguém
Dentro de ninguém, alguém
Dentro de alguém, sua poesia
Dentro da sua poesia, a liberdade
Dentro da liberdade, um passarinho
Dentro do passarinho, o voo
Dentro do voo, o vento
Dentro do vento, o medo de ventar
Dentro do medo de ventar, a falta
Dentro da falta, a fala
Dentro da fala, a escrita
Dentro da escrita, as palavras
Dentro das palavras, a dança
Dentro da dança, o ritmo
Dentro do ritmo, o contágio
Dentro do contágio, o amor
Dentro do amor, o amar o amor
Dentro do amar o amor, a vida.

sábado, 5 de maio de 2012

Pensamento 6 de 365


Planos para esta noite: 
me preocupar, 
me convencer de que 
tudo ficará bem, 
me (pre)ocupar, 
me convencer de que 
todo o bem ficará
e me vencer
ao dizer que 
"Além de ficar, 
ele se fincará."

Laura



Laura minha
minha Laura
doce como o
doce mais doce
do mundo

Laura doce
como jabuticaba
que não vira jabuti
nem acaba

Laura dos sorrisos
que crescem
que nascem
em mim,
da felicidade,
que parte 
do meu peito;
parte sem partir,
pois ficará sempre aqui

Laura, te terei
eternamente
na mente
no sorriso
no peito e
na alma

Laura, te quero bem
te bem quero
te quero-quero.

Laura de ouro,
de pluma,
de mel

Laura da beleza
do sorriso,
da doçura,
da felicidade
na feliz idade,
da brandura.

Laura dos sonhos,
da força,
da luz,
do brilho,
do amor.

Laura, minha Laura
este poeminha
é teu, meu amor

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Bem-vinda, Vida.

A vida
que voa
que fica
que vai
que morre
que é infinita

A vida
que é lembrada 
que é sentida
que é marcante
que é vivida
que é vida

A vida
no passo
do compasso
do tempo
passa

A vida que 
bem fica,
mal se vai
que mal fica
e bem se foi

A vida bem-vinda
é bem-ida
Bem-vinda, vida

segunda-feira, 26 de março de 2012

A pena

Há pena
onde apenas
não deveria
existir pena


Apenas há pena
onde não deveria
existir

Há pena
apenas onde
não há pena

Porém,
há penas
em pelos
há penas
em pele,
quero voar

A pena que
comanda a mente
comandada
 pelas mãos
escreve, voa
mentalmente
pelas nuvens
da imaginação

A pena que sente
que descreve
que enxerga
que ouve
que cria
que dá vida
que faz voar
pelo mundo
da emoção
das palavras,
o mundo
aqui dentro,
bem adentro
do coração

A pena que toca
que me toca
que te toca
sem ter mãos

A pena que me dá asas
que me traz respiração
suave, leve
como um sorriso
de felicidade
de inspiração

Há penas
em pelos, 
em pele
quero voar


[Começo escrevendo uma coisa e termino escrevendo outra.]

quinta-feira, 8 de março de 2012

Elas

Do olhar que,
sem palavras, falava,
sem sorrir, sorria;

A delicadeza,
a sabedoria,
a coragem,
a admiração e
a força

A procura da felicidade
A procura do amor
A luta pelos direitos
da rosa vermelha
da rosa rosa, amarela,
uma infinidade de cores
assim como elas

Se para chegar onde chegamos
lutamos
suamos
e aprendemos
a sorrir,
a viver,
a ser quem somos.

A mãe,
a filha,
a vó,
a madrinha,
a tia,
a prima,
a trabalhadora,
a professora,
a juíza,
a artista,
a amiga,
a Lua,
a mulher.

[Não temos um dia dedicado apenas a nós porque gostamos de receber parabéns.]

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Mapa

Às vezes,
é preciso se sentir sozinho
para encontrar um mundo
dentro de ti
Às vezes,
é preciso se sentir fraco
para encontrar força
no mundo
que é você

Às vezes,
é preciso sentir nervosismo
para achar calma
refletir e se precaver
Às vezes,
é preciso se sentir vazio
para buscar por pequenos pedaços
que completam a alma

É preciso se conhecer
se perceber
se ser
para sentir
conhecer
e ser

Se não há,
não há ti
Se não sabes quem tu és
Não me conhecerás inteiramente
Nem conhecerás o mundo por completo

"Conheça-te a ti mesmo."
disse uma grande mente
que para ser capaz
para compreender,
e não apenas entender
para enxergar,
e não apenas olhar
para escutar,
e não apenas ouvir
É preciso ser

[Para ser,
   preciso saber
 quem sou
quem fui e
quem serei]

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O azul que decidiu ser mais do que azul

Da nave víamos
O azul
Gigantesco
Brilhante
Um mundo
azulado,
A Terra

Imaginávamos
os corações
os sorrisos
os abraços

Imaginávamos
as outras imaginações
as esperanças
os pensamentos
e as outras luzes
e as outras cores

De repente
Pude ver mais 
do aquele o azul
Será que ele também veria 
o mesmo?
"Você vê?"
Não, não via

Aquele azul colorido
estava só nos meus olhos
E em mim

Que pena que vê apenas o azul sem cor
Lindo, mas sem cor
Este era mais belo ainda
E não estava sozinho

Chamou os amigos
Fizeram a festa 
dentro de mim
Assim como faziam 
Com os outros olhos 
lá de baixo
Que os observavam 
brilhantemente

Explodiam 
junto a mim, 
junto a eles
Eram os fogos, 
os vestígios deles

O quase nada 
Transformou-se
Em tudo
Ganhei minha noite
Ganhei o mundo
Nascia, assim, 
no meio de toda a solidão,
uma alegria

[Sobre dois astronautas em órbita numa noite de ano novo. Um imaginou tanto que chegou a enxergar o que seria impossível de enxergar naquelas circunstâncias. E, foi assim que imaginação ganhou vida.]

Laryssa Guimarães

domingo, 27 de novembro de 2011

Por que não parlas?

Tive uma ideia 
sem pés, 
mas com cabeça,
 sem pernas 
mas que queria andar, 
sem língua, 
mas que queria falar.

Por que não parlas,
ideia minha?
Parle com o mundo
Não só comigo
Não seja tímida

Te darei língua,
pernas e pés
Andarás e falarás
E pensar tu já pensas

Tu há de me dar o mesmo
E continuar sendo minha
Até que consigamos 
trabalhar a nossa timidez

Tu me ensinarás a falar a tua língua
A andar e a pensar como você.

Ideia, casar-me-ei contigo
Digo sim, e repito, sim
E teremos como nossa
Melhor amiga, adivinhe,
a coragem

Não tanta, pois assim
será chamada de audácia
Nem pouca, pois
seria covardia
Mas a coragem 
Pura e simples, 
Coragem

Laryssa Guimarães

sábado, 19 de novembro de 2011

O navio que seguia a caminho da Ilha de Vera Cruz

Corpos suados
Corações amedrontados
Para onde iremos?
 Para onde estão nos levando?
Queremos voltar

Era o que todos falavam
Mesmo sem falarem a mesma língua
Mesmo sem dizerem uma só palavra
Era o que todos gritavam silenciosamente:
Queremos o nosso lar, queremos a nossa casa

Escuridão
Viam-se apenas os dentes
Silêncio e calor
Saudade e dor

Para onde estavam nos levando?
Retorne, retorne
Estou com medo
Retorne. Logo.

Mas nunca retornaram
Foi uma viagem
não só ao trabalho desumano
Mas à morte

Se pensas
que seremos aquilo
que queres que sejamos
Estais enganado, meu senhor
Resistiremos, meu caro
Pelo nosso país
Pela nossa cultura
Lutemos

[E lutam até hoje.]

Laryssa Guimarães