Uma hora é preciso largar tudo que me segura. Tudo que me segura para ir direto, correndo, sem cambalear, duvidar, para aquilo que é mais puro em mim, mais interior. Largar o que seguro em minhas mãos, o caminho para onde eu ia ao perceber que existe um que é antes de todos. O próprio perceber. Diante dele, não há preguiça ou motivo para desviar, apenas a única e melhor escolha se segui-lo. (O quanto já me fez sofrer... eu nunca saberei, nem mesmo o quanto eu ainda sofrerei por ele.) E então vou. Não é pressa, mas determinação que me leva. E me faz pensar um pensamento indo para o outro, que parecem seguir ainda mais do que eu ou ir embora. Por isso eu vou, antes que vão. E vão também. Como já percebi também esse momento e como dói não vivê-lo. Como pode algo que faz parte de você às vezes parecer ir embora como se não fizesse? Mas ainda bem que existe o momento que essa parte volta. Até porque, é parte de mim. (E nunca se vai. Eu que vou, não é ela.( Que eu sempre volte.).) E continuará sendo, assim, dessa maneira uma das únicas de me libertar: escrever. No infinitivo. Desviar-me do que me desvia, do que eu seguro e me encontrar. Mais uma vez. Todas necessárias. Todas essências, e sempre em minha essência. Mesmo que eu nunca consiga escrever de verdade o que realmente é, mas enquanto houver esse lampejo, escreverei.
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quinta-feira, 25 de agosto de 2016
sábado, 24 de maio de 2014
Do dia a dia
Palavras que você lerá um dia
Se digo que vou, não é por desinteresse. Mas saber que posso dizer que vou por ter comigo a certeza da minha volta. E, assim, mesmo na minha ida, a presença da permanência.
A cada pequeno adeus de cada dia. A cada acordar do outro dia. A cada reencontro. Ao vivê-lo juntos.
terça-feira, 1 de abril de 2014
Help, a hero is bleeding
- Como ele está?
Lembrei-me de seus olhos e a lembrança me respondeu. Uma mania que estou tendo era fugir de respostas que não me agradassem - caminho perigoso, eu sei. Às vezes é fugir, às vezes evitar, outras procurar por uma outra resposta que a anule - às vezes encontro. Seus olhos ali tão agitados, refletiam ao fluxo de seu pensamento, todos rápidos, muitas percepções ao mesmo tempo - e o que eu sempre admirava: as palavras certas. Por mais que parecesse inquieto, as palavras eram certas, alvos, peças da minha procura. E acalmavam. Diante de uma realidade assombrosa de egoísmo ou de uma beleza da vida, acalmavam. Elas permitiam o abrir dos olhos, o enxergar, o coração em pleno ritmo com a mente, trazendo paz (mesmo que inquieta).
Esperei para ouvir a resposta:
- Você não soube...? Ele não está bem.
Ele não está bem. Era a mesma resposta de seus olhos. A diferença era que eles aqui me gritavam: eu não estou bem. E intocável (por não saber de suas dores) e com vontade de abraçá-lo ao mesmo tempo, me respondiam. Respondiam em cada palavra dita, em cada lugar para que olhava. Respondiam com a paz - ainda existente - pedindo ajuda. Não sabia de quem. Nem como. Ajuda. Pura. Desde as simples até as complexas.
A partir daí, veio a sua ausência. Encontrar um ser parecido com você (e da lembrança que tenho da sua melhor época) faz-te ausente ainda mais. Saber que não entrará pela porta que abre caminho aonde estou faz-te ausente. Ausente no lugar, ausente no momento, presente em mim. Presente em tudo que te ausenteia.
Saudade.
Duas vezes tu me levantaste. Numa, eu estava me reerguendo, noutra, caindo. E, - já com a semente de inquietude que hoje te perturba -, me salvaste acreditando em mim. Me lembrou que posso falar ao me ouvir. Me lembrou que posso agir:
"Laryssa, enfrenta.
Enfrenta.
É isso que você quer? Então!, enfrenta."
Teu acreditar foi uma luz que acendeu o meu acreditar. Fê-lo emergir da onde quer que estivesse, fê-lo viver. Eu posso falar e posso agir; saber disso foi como aprender a andar: o momento em que os passos que nascem dentro de ti surgem até os seus pés e te fazem caminhar.
Sofremos. Eu, constantemente. Tu, pelos motivos que te tornam intocável e abraçável. Eu, por não saber como te abraçar agora. Se sofremos, acredito que é para ser melhores do que somos. Um dia, nos encontraremos com a calma no coração que sonhamos.
domingo, 30 de março de 2014
Parenthesis of the text
Who am I here? Where am I walking? I have dreams, because of them I kind know who I am and where I'm going. (They are the voice of my heart.) But actually I will never know. But actually I know every little second. (We don't have to wait to get there, arrive). I don't know what I will know in the end, I know that I'm knowing something important now: live. Sometimes it has the sound that you're living nothing, but you are. You're living always, even when you forget it for a while (you'll remember. This forgetfulness is just a time to remember.) it comes to remember that you live. That you exist.
Now, I remember. With all I have, that is all I had and all I will have. Because of my know non-knowing, I find an art. Invent. I'm inventing my way. Inside of it, there is another art: reinvent my steps. (I'm walking but it doesn't forbid me to dance sometimes or fly.) Now, I'm flying. Calm and seren, a bird that knows that has a nidus. (But never calm not find a new stick to build it each little, fast and eternal day.)
(Going back to it can makes my-self higher.)
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
Assim que eu descobrir, terei descoberto tanto e talvez não descubra por completo.
Como viver o último dia do teu ano? E o primeiro? Listar tuas metas e prender-se entre limites e, assim, perder tanto da liberdade? E a mensagem, que é sempre a mesma? Sei que precisamos dos mesmos desejos, eles são realmente necessidade mas escrever ou dizer palavras que os denominam, assim, somente entre vírgulas é como se transformassem-nos em palavras soltas. Ou palavras que se prendem somente entre as vírgulas. Uma ou outra, chegam ao mesmo ponto: repetição de verdades que passam a ser automáticas e, no fim, sem muito sentimento. Gosto quando me falam os desejos. Mas onde está aquela naturalidade e expontaneidade que há na alegria que me trazes? E a paz que citas? E a luz que me dizes? Gosto: tentar libertá-los, de enxergá-los como são, começando pelas imagens que me trazem, depois os sentimentos que me despertam e, por fim, a fala ou escrita (prefiro) do que encontrei ao tentar enxergar, imaginar (o que não vivi e também as lembranças de minha vida sendo estas na minha vida ou em outra que me toca) e sentir. Essa tentativa me traz uma palavra, também enxergue, imaginada e sentida: renovação. Renovação a partir do que já existe, transformá-lo em algo que não existia aos meus olhos antes.
Essas palavras não são minhas. As ideias podem até ser (podem até). Mas as palavras não são. A maneira que estão. Não vem de mim, não vem de dentro, vem sem sentir direito, organizadas demais, não quero, preciso de minha desorganização, dos pensamentos correntes. Parece faltar parte delas aqui, chego perto do que quero mas não o bastante para ser realmente o que quero, e não me realizo, não me sinto bem. É superficial, é até verdade, sim, mas superficial. E elas, essas que me aparecem, são realmente minhas? Como saber da minha originalidade se não sou eu que a sinto? Ela é tão minha, não sinto. Mas sentem, e como saber que existe de verdade assim?
As palavras do início eram pra ser sobre o fim de um ano e início de outro. Não são mais. Mais uma transformação. São agora sobre mim (ou mais?). Talvez aqui seja o passo da renovação, um passo da. Mas não quero pensar nisso agora, idealizá-la, apesar de querer que chegue. Porque ela não é assim: se quer muito e se tem. Ela acontece. Se vier, virá. E no meu querer que venha há o possível não-virá.
Às vezes penso que não sou mais Andorinha. E entristeço. Gostava de voar. Sei que ainda voo, mas não é como antes, e é mais raro. Aliás, há mais medo. Quando me sinto prestes, recuo, me afasto e a nuvem que vinha não chega ou, se insistente, aguenta-me com toda a insegurança e medos, segura-me ao saber que, apesar de pesados agora, não são só eles que existem em mim. E só por estar nela, há também a coragem. Se tivesse olhos, falariam isso. Mas como não tem, fala mesmo assim com tudo que tem, tudo que é: toda água que vira ar, todo o ar que é água.
Queria realmente dizer palavras boas, simplesmente dizer, soltas como dizem. Mas perdoa-me os amigos e familiares e os que estão entre um e outro, não consigo. Meu coração não consegue só ser paz. Não só ser amor. Amor cru. Amor. Aqui somente a palavra. Paz crua. Perdoa-me se pensarem que é por falta de sentimento, falta de lembrança. Peço, sim, perdão pelo o que (talvez) pensarão sem me perdoar. Talvez não pensem nada. Talvez pense algo diferente que não estou pensando agora. Talvez até me entendam sem que eu diga uma palavra, sem que leiam essas minhas palavras. Talvez não me perdoem, no fundo, e fique aquele restinho de algo-não-sei-o-que-é incomodando toda vez que olhe nos meus olhos ou que pense neles e o que há interiormente ou no ex. Mas realmente não consigo. Se há paz e amor, há o mundo dentro deles. E é desse mundo que quero imaginar, sentir e falar. O mundo entre as letras que se juntam formando a palavra que é. Esperança para enxergar.
Uma simplicidade sem sentimentos, sem sentidos, olhos, ouvidos, coração: a crueza nas palavras. Uma simplicidade sentida, consentida, tão tida que se perde (não pode): sentir o que há de não cru. Sentir o que é a paz. E o amor. Aqui, meus desejos: sinta. Sinta as palavras que te vem. Sinta o que são entre as reticências, não vírgulas. Três pontos e a infinitude que nunca conseguiremos dizer por completo. Três pontos que podemos tentar sentir por completo (sempre tentar). Três pontos que de tão grandes, ficam pequenos aos desatentos e igualam-se a um só ou nada. Onde me encontro? Onde se encontra? Onde se encontras? Há o um, o três e o nada ou o tudo que há entre o um e o nada.
É assim que viro o ano. Assim, sem saber onde irei chegar. Sabendo onde quero chegar, mas sem deixar de ouvir o sopro do vento. Sem saber se chegarei. Assim, sendo. E não sendo. Assim, o ponto que há nas reticências. Ainda assim, acreditando com esperança no ser que existe e não-existe. A procura de ouvidos que saibam ouvi-los, da fala que saiba interpretá-lo, do coração que saiba senti-lo, da mente que saiba pensá-lo, lembrá-lo, co-memorá-lo. Assim, a procura do eu. A procura que se torna caminho de descoberta de tanto que pode até ser que não se encontre o que queria no início, mas encontre o que queria sempre e não sabia. Descobriu.
Dois mil e cá tô a ser, (tu serás difícil e amável)
bem-vindo.
Título completo: Assim que eu descobrir, já terei descoberto tanto e, por isso, não descubra por completo. Enorme como será. Enorme como significa. Poderia se chamar também "Os pontos das reticências.", apelido do infinito.
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
"O ponto de esperança
É para o leitor ou para mim?"
Tento poupar a dor, apesar de necessária. Deixo-a comigo somente até o estágio de reflexão, se esse a ultrapassasse e começasse a doer, paro. Vejo os grandes autores, vejo como retratam-na com tanta facilidade, e são dores fortes, fortes demais. E essa é parte da grandeza que têm, saber falar sobre elas a ponto de mostrá-las a outros, que refletem sobre, se enxergam e enxergam mais.
Ainda não chego nela quando escrevo, e percebo: para que surjam e mostrem também a sua beleza (tem), assim como a beleza que há em outros tantos sentimentos, precisam de sinceridade. Sinceridade vinda da simplicidade. Sinceridade consigo. Aqui já há uma esperança.
Outro ponto: não deixá-la como ponto final, se não, seria somente espera. Ela é continuativa, é outro parágrafo que ainda está para ser escrito, é esperança.
domingo, 15 de dezembro de 2013
Pensamento 19 de 365
A linha
Toda vez que me pede para dizer a verdade, acontece: a verdade é desmontada como verdade. O que é real, tão real passa a ser questionado: por que tão real? Aquela interrogação tão certa de si, tão segura é capaz de desasegurar o que há equilibrado, como pode? Como pode mover minha própria segurança às vezes por segundos, às vezes por dias inteiros de pensamentos inconstantes. Será isso parte também dos dias? Por que há necessidade de algo que nos abale? Será isso renovação? Não me sinto renovada. Essa tempestade tempesteia e traz a calmaria com toque de esquecimento de seus pingos dolorosos. Com pena de mim, esqueço. A fim de me amenizar, esqueço. Até quando? E se vem e volta, não esqueço. Evitar o péssimo não me faz enxergar mais belezas, como eu pretendia. Como lidar, então? Só de chegar perto, penso em evitar, penso em esquecer. E o que se perde com essa escolha? O que a lembrança ou o esquecimento (mais fácil) ausenteia?
Tua pergunta é tão certa que mexe com minhas certezas. Tornam-se dúv ida s, d úvidas, dú vidas. É tão simples me mexe com as minhas simplicidades do dia a dia, os pensamentos do bom dia, os sentimentos à tarde e os sonhos e deslumbramentos à noite. Você me ama? Se te amo? É claro que te amo... É claro que te amo? Pois, quando é que o ideal e os sentimentos - também idealizados - correspondem certamente ao que é visto na realidade? O quanto de não-dito e não-feito fica no dito e feito? Pois é, moça, pois é.
A primeira interrogação e a sua resposta: a linha tênue entre a verdade e a mentira, a mesma existente entre o ideal-real. Vi. Deslumbrei, e é noite.
E assim: não é verdade nem mentira. É: sentimento. Puro e sentido. Puro sentido vindo dos sentidos. É, assim como os sentimentos são, sentimento.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
Pensamento 18 de 365
Autocrítica:
momentos-talvez-branda-demais
momentos-talvez-exagerada-demais
As imagens rápidas. O pensamento-segundo (segura, se não escapa) prolongado nos tempos: futuro e presente (presenteia a quem? A mim vai longe (ou perto e mal sei?)). Que graciosidade perceber que ainda há interrogações. Aqueles que reclamam, pestanejam por enxergar muitas, continuem enxergando. A sensação de não tê-las por perto é de silêncio-morto e palavra-morta. Palavra que diz mas que, se não fosse dita, não faria diferença nenhuma para alguém e para quem a fala. Por que falar, então?
Silêncio.
Silêncio que não sabe o que dizer, não por vergonha ou timidez, realmente não sabe. Não por nervosismo, não por fuga das palavras. Não sabe. O que dizer? É personagem que não vive, que anda e o único pensamento é o passo (silêncio). Silêncio vago, não de mistério, é de vazio, de lugar que nem mesmo passarinhos chegam perto no recolher da tarde, muito menos no acordar da manhã, que festejam entre os bons-dias em cantos e voos.
Se antes havia procurado ajuda por não saber expressar os pensamentos, agora a ajuda é por não saber o que expressar. E pergunto-me: por quê? Será isso o ser humano? O lidar bem com a fala não é somente o falar bem, mas falar de modo que não fique a sensação de que tudo foi falado. E as pausas entre as palavras, o que elas não disseram? Ou disseram sem dizer? Aprender a falar e a andar parece maior, parece que é para toda a vida, assim como ser. (Aliás, aprende-se?). O falar-bem trouxe-a excitação, ânimo de quanto mais se tem, mais se quer. Mais se fala. Daí, os equívocos. E da percepção do princípio de equívocos, o silêncio. Pelo menos, percebia. Não percebia tudo porque o labirinto estava montado, e assim como um belo labirinto, havia aquelas paredes que fazia-a encontrar-se com si mesma. E só aí percebia porque no caminhar, sem perceber o labirinto, pensava apenas no caminhar. Equívoco. O cultivo de pensamentos limitados a um ato. Traz silêncio e o som oco dos passos por dentro, com o tempo, dói e corrói. O eco exterior, se existe, ouvi-lo não é pecado, transformá-lo em interior, sim. Feroz, destrói possibilidades de plantações e flores que, em pensamento, imaginavam em nascer. E não nascem. Brutalidade: transformar-se em bruto, material, objeto, silencioso como coisa - silêncio de coisa, é isso -. Não quero ser pedra que só recebe as marcas da água do tempo.
[Sobre a personagem que aparece e some de repente:
Eu ou ela? Até aonde vai o limite entre o ser-criado e o ser-que-existe?
Não sei, mas os verbos que se mesclam na terceira e primeira pessoa querem,
sim, me (nos) dizer alguma coisa.]
sábado, 26 de outubro de 2013
Infinitivo
Entre a fala, soltou uma palavra. Um susto, na verdade. Um impacto.
- Para!
O susto respondeu, assustado. Tomou controle do meu corpo, moveu meus lábios. Sem respirar, disse.
- Para... - respirando - O que você disse?
- Disse o quê?
- Isso que você acabou dizer, o que foi?
- Isso que eu... (susto)... Ser? Eu disse...
- Ser, disse ser!
Estranhou a própria voz que tinha saído ao dizer aquela palavra. Estranhou a própria palavra ter saído ali, naquele momento. Estranhou. Não sei se percebeu - percebi -, mas não havia hora mais certa para ter aparecido. Tinha que ser dita. Ali. Tinha que fazer parte do vento daquele ambiente. Saltou como um passarinho que voa tão alegre que parece até assustado, de tão veloz. E também como o passarinho: poderia ser perdida no segundo depois, se escapar entre os sons das palavras e dos silêncios, de tanto que sabe cortar o ar e viver camuflada. Camufla-se por ser camuflada por nós. Ela não tem necessidade de autoproteção, nós que temos a mania de nos proteger da realidade, escondendo-a embaixo dos narizes, dos tapetes. Mas narizes não aguentam o mundo; mas de poeira em poeira, o tapete forma uma montanha e passa a ser notado. E quando esse for o agora?
Ser.
Ele disse ser. Disse ser no momento em que eu contava-lhe sobre a realização de um dos meus planos, o caminho que segui após ter decidido não temer ao medo e me expor ideias filhas de meus valores que carregava comigo em silêncio. Elas em silêncio, eu em silêncio. Falava sobre o momento igualíssimo em que apareceu: o pensamento interior que se exterioriza: s e r. Vozes-flashes permanentes que se tornam palavras, e são ouvidas, e pintam-te como exatamente o que há dentro de se: s e r.
Ser entre sonhos. Ser entre caminhos. Ser entre passos. Disse ser entre frases. E foi. A voz veio do eu-interno que quase não fala com o mundo, num tom incontrolável que se demorasse mais um segundo passaria a ser controlado e não mais teria existido. Um grito: ser! Ser, no infinitivo. Enquanto passados são o fui-fora, futuro era seria-será, presente é, este veio no tempo do infinito. Não dizia para ser, que foi, que seria, que era. O grito-quase-perdido tão pequeno-enorme quanto o ar, disse: ser. Ser. Acima de tudo, ser. Apesar de tudo, ser. Ser, todavia, entre as vidas. Entre todas as vias, os caminhos seguidos e não, ser. Ser, já que foi. Ser porque é. Ser por será.
[Ser. Disse ser.
O tom fez-se presente e instante que existe.
(Canto, Clarice.)
[Ser. Disse ser.
O tom fez-se presente e instante que existe.
(Canto, Clarice.)
Dia 29 de julho de dois mil e ter-se.]
Asinhas:
Caça palavras,
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Simplicidades
sábado, 7 de setembro de 2013
Excertos de um monólogo interior
Já não sei mais onde está o que escrevo. Os versos vêm, a prov[s]a vêm, acomodam-se em algum lugar de mim, aconchegam-se e perco-os de vista. Seus rastros ficam, sinto, aparecem como imagens escritas que dançam pela mente, correm pela mente como quem surge do esconderijo para ver se você consegue seguir e encontrar aonde está escondido. Mas é rápido, rápido demais. E meus passos são lentos, lentos demais. Tornam-se lentos a medida que tento correr. Se o cotidiano é corrido - a ponto de transformar-se em corriqueiro [não!] -, não ando. Com o mundo, a pressa deve ser devagar. Com as palavras, o devagar deve ser a pressa, que é a vontade e a curiosidade de descobrir o que está além, mesmo que os olhos estejam voltados ao aquém, pois há além no aquém [e se há]. Nos dois: quanto mais lento se for, mais longe se chega. O lento é a calma. A calma dos passos, do caminho, do refletir, do escolher. O refletir é olhar para si e transmitir o que vê para o exterior. Antes, o interior precisa ter traços simples e próprios. Não é transformar-se em arte final, não [olha, a calma]. Mais simples, depois próprios. Virão quase juntos, acompanham-se. Se achar a simplicidade, te achará (o próprio). Os passos e o caminho, formaram os ninhos e as paisagens. O nascer, o por, o tarde. Escolhidos são pelo olhar ao passo que o caminho é traçado. Nos quatro: a calma. Na calma: o descobrir-se. Estou eu diante de que céu?
Texto-suspiro-sufocado, setembro.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Pensamento 17 de 365
Doce de junho de dois mil e ter-se:
Tu,
Aproximou-me ainda mais de mim. Entre conversas e chocolate ao leite, mostrou meus doces com café. Café doce pra não esquecer que é preciso me adoçar (renovar-me o meu eu que é sempre o mesmo) e acordar todos os dias. Pra não esquecer que não é preciso, que não é pedra, mas um sorriso o acordar todos os dias por ter um motivo. Ter um caminho, e não se esquecer dos anteriores. Café que tomo na janela olhando pro céu pra não esquecer de que ele existe, as nuvens existem, as chuvas existem. Eu existo.
Com "your live is your live" e (agora) comigo,
a mim.
[R: Eu que preciso aguentar os meus pingos, o meu chuvisco, chuva, temporais. O céu já se aguenta com toda a sua leveza. Preciso aprender com ele como ser leve, mesmo que pesada. Preciso aprender com os passarinhos como voar, comigo como me ser e com a vida como viver sendo-me céu com ou sem chuva.]
Pensamento 16 de 365
..
Céu, aguentaria a minha chuva?
..
Céu, aguentaria a minha chuva?
..
Dois mil e ter-se anda cada vez mais complicado. A cada dia que se passa, quero ser quem eu era no passado quase-ontem. Quero o ser-eu-inteiro. (Terei-o?)
Muitas mudanças ao mesmo tempo (explosão e): tempestade. Temporal. Tempo chovendo tempo. As gotas doem quando encontram o corpo enquanto ele, sem sentir, caminha para o insensível. Só sei que não chegou ao fim dos passos porque ainda sinto as gotas. Ainda sinto sua dor doer em mim. Dor de fora pra dentro. Dor do céu que cai sobre mim.
E... se eu chovesse de dentro pra fora? E se o céu passasse a receber também minhas gotas? Pergunta (outra): o céu aguentaria se eu chovesse nele?
Pareceria guerra. Parece guerra. O motivo é a quietude que anda trazendo cada vez menos paz. A quietude transformou-se no mudo, no não falar com muito para dizer e, por isso, calar-se mais por ter me deslocado de noções de meio, fim, início. (O meio para a finalidade e quando passou a ser fim.)
Perdi. Perdi-me em mim entre o caminho de ter-me comigo. Faria isso parte da trajetória? Não sei, sinceramente, não sei. Mas estou tentando... Estou tentando descobrir. Descobrir-me. Faz verão aqui, primavera, outono, não preciso de tantos casacos ou cobertores. Descobrir-se é necessariamente o meu preciso.
E... se eu chovesse de dentro pra fora? E se o céu passasse a receber também minhas gotas? Pergunta (outra): o céu aguentaria se eu chovesse nele?
Pareceria guerra. Parece guerra. O motivo é a quietude que anda trazendo cada vez menos paz. A quietude transformou-se no mudo, no não falar com muito para dizer e, por isso, calar-se mais por ter me deslocado de noções de meio, fim, início. (O meio para a finalidade e quando passou a ser fim.)
Perdi. Perdi-me em mim entre o caminho de ter-me comigo. Faria isso parte da trajetória? Não sei, sinceramente, não sei. Mas estou tentando... Estou tentando descobrir. Descobrir-me. Faz verão aqui, primavera, outono, não preciso de tantos casacos ou cobertores. Descobrir-se é necessariamente o meu preciso.
[Que sempre existam pássaros
por baixo do cobertor
que cobre meu peito.
Pássaros e flores.
Também poetas.
(Um mundo.)
Um pequeno detalhe grande:
a explosão veio da Clarice.
O texto-explosão-Clarice é
esboço para muitas ondas
geradas pela bomba.
Ainda estou em fase de medição e estudo
das suas frequências e amplitudes.]
Um pequeno detalhe grande:
a explosão veio da Clarice.
O texto-explosão-Clarice é
esboço para muitas ondas
geradas pela bomba.
Ainda estou em fase de medição e estudo
das suas frequências e amplitudes.]
terça-feira, 4 de junho de 2013
Passar, no infinitivo
"Isso passa.
Passa quem?
Passa o quê?
Passa. Passa.
Passa, dizem os pontos inquestionáveis
(que não questionam.)
Passa.
Os instantes.
As nuvens.
O eu. - Será que ainda fico quando me for?
O ser nuvem instantânea (querer ser)
logo água-rio, num piscar, chuva
sem respeitar o ciclo:
passa
(sim) (não)
pa u s a
Eu vou crescer:
perdas
Vou passar:
perdas, perdas
Vai passar:
perdas, perdas, perdas
Passar, passar, passar.
O infinitivo não é à-toa,
e ainda gargalha de ti quando não o percebe
- por que se venda
quando deveria enxergar?
(Percebe-te?)
Todos também
sede passagem,
enquanto, sedentos de pressa,
passam.
São: aberturas dos próprios caminhos que não seguem.
São? Não.
Crescem
e perecem
- isso passa?
(Passam.)
Eu passo.
Vento-passarinho-pedra.
Passos.
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O tempo passa...,
Poetisando,
Simplicidades
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Pensamento 15 de 365
você marcha, José!
José, pra onde?
C. Drummond
Pra onde? Pra onde? Pra onde?
Eu marcho... José, pra onde?
José, bem que você poderia ter todas as respostas do (mu)n(do).
Mas isso seria uma rima ou uma solução? Ou talvez devesse ser mesmo assim: você, José, a marcha,
o onde-não-se-sabe-onde-é.
Mas é logo ali, José. Sempre logo ali...
E, enquanto isso, a gente marcha.
Marcha, enquanto o isso
E, enquanto isso, a gente marcha.
Marcha, enquanto o isso
nos atropela.
[Não é poema. Não é prosa. Não tem rima. É José. É interrogação.]
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sábado, 30 de março de 2013
Pensamento 14 de 365
..
Amanhecer Clarice
..
Eu escrevo mesmo sem rumo. Como um vento que brota sem querer e vira ventania para ser quem é de vez em quando: vento. E aí, venta. Só para não se esquecer. Não se esquecer de quem é. Não se esquecer do que faz. Não se esquecer de como é ser quem é, de como é fazer o que faz. Não se esquecer. (Ou se lembrar enquanto esquece?) O dia a dia engole qualquer um, o vento pode não ser exceção. Então, vento também. Vento, sim. Junto com o vento que me vem. Ultimamente, o que me encontra é o da agonia. Ando devendo muito ao devir*.
Escrevo sem rumo. Não sou profissional. Só crio esquemas se for para me libertar ainda mais. Gosto de interrogações. E como é bom criar sem saber como irá acabar. Começar a escrever sem saber de nada que será. Deixar somente que as palavras se escrevam por si só. Deixar o vento traçar o caminho sozinho, guiando o pensamento pela mão, os dedos, as palavras que brotam sem saber se serão fruto, fruta, semente, árvore, ninho, espinho. Sem saber se, ao menos, serão algo.
Escrevo mesmo sem rumo. É assim que levito, que esvazio minhas dívidas ao tempo. É assim que levo-me ao leve. Leva-me o leve, mesmo que pesado. Mesmo que corrente. Mesmo que lágrima não chorada. Mesmo que sorriso impossível de se sorrir. O leve ainda existe. Mesmo que os mesmos quês existam. Existe.
Escrevo mesmo sem rumo. É assim que levito, que esvazio minhas dívidas ao tempo. É assim que levo-me ao leve. Leva-me o leve, mesmo que pesado. Mesmo que corrente. Mesmo que lágrima não chorada. Mesmo que sorriso impossível de se sorrir. O leve ainda existe. Mesmo que os mesmos quês existam. Existe.
[Enquanto eu escrever sem rumo.]
*"Nunca dever ao devir / Nunca deixai de ouvir com outros olhos, com outros olhos" Teatro Mágico
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Pensamento 13 de 365
O ano começou mas eu ainda estava no ritmo do fim de dois mil e doze, ainda no ritmo do silêncio que não se calava: o silêncio das reflexões, dos pensamentos, das lembranças que viram filmes daqueles que você precisa parar tudo que está fazendo para assistir, como se sua vida dependesse disso (e depende). Ele não gritava, dizia tudo num sussurro que, apesar de ser baixo, não precisa crescer seu tom para ser ouvido com clareza. Assim, passei a virada sem muito comemorar. O clima ainda era de adeus. O problema era que eu me despedia como se nunca mais fosse vê-lo novamente. Esqueci-me de um detalhe: ele sempre viveria em mim, assim como todos os anos que se passaram e que, pouco a pouco, fazem de mim quem e como sou. Então, apesar de partir, poderíamos nos reencontrar sempre que quiséssemos. E o medo era justamente esse: quando eu quisesse, conseguiria encontrá-lo? Com o passar do tempo, criamos tantos labirintos em nós que alguns caminhos deixam de existir por nunca mais serem encontrados; transformam-se em tesouros de pirata enterrados onde não há mapa para que descubra seu caminho, seu lugar. Você nem percebe esse perder ou, quando percebe, é pela metade, pois aparece por meio daquele acordar sentindo algum sentimento, talvez mágoa, talvez saudade daquilo que você não sabe o que é (e, se não for você, quem mais saberá?).
Sabe, tenho uma mania (é uma do meu mundo de manias, na verdade). Acostumei-me a caçar palavras dentro de outras palavras e fiquei com a mania de tentar descobrir o que está bem diante de nossos olhos e não é visto. Mania que me fez olhar para a palavra "palavras" agora e encontrar "lavras". ("Ah... Uma lavra toda de palavras.", imaginei. Palavra vem de lavra, será? Investigarei esse caso mais tarde.) Isso não acontece somente com os olhos, mas também com os ouvidos. Ouço a palavra e encontro outro som semelhante para ela. Já fiz tanto isso que muitas vezes me pego ouvindo tudo retorcido, me pego escutando sentidos não falados. Parece um mundo não visto mas que espera ser percebido há todo o momento e, quando percebido, mostra-se mundo sem timidez.
No início de dois mil e doze, enquanto andava pela internet, encontrei um som diferente para doze... Doce. Uma letrinha trocada, uma palavra que resumiria o ano inteiro. Dois mil e doce doce seria (e foi). Com o fim do ano, passei um tempo temendo deixar todo o doce, temendo que ele me deixasse com a vinda desse desconhecido treze. Ainda não havia descoberto uma outra palavra para treze até que de repente... Antônio. Lá estava ela perdida na voz de Antônio, nos desejos de fim de ano que ele fazia; lá estava ela perdida em poesia (ou seja: muito bem achada)... Encontrei e muito bem encontrado. Treze: ter-se: ter-me comigo. Não poderia haver nada melhor, plano melhor, meta melhor para esse ano. Passei muito tempo planejando esse desejo, mas só agora tenho força o suficiente para desejar. Se tivesse desejado antes, não iria realizar por ainda não ser o tempo certo. Não há como colher uma fruta quando a planta ainda é só semente. E esse ano será o ano em que plantarei essa semente que por muito tempo ficou guardada em mim. Ter-me comigo, é o que preciso. Ter-me com outros já aprendi. Aprendi antes mesmo de ter-me comigo, quem diria? Lembro-me uma vez que, numa conversa, eu disse que nasci invertida. Enquanto muitos não sabiam lidar com os outros, pensar nos outros por conseguirem pensar somente em si, eu pensava em todos como se pensasse por todos que não sabem pensar por eles. Mas não pensava em mim. Ainda era muito egoísta, sim. Muito injusta, sim. Muito egoísta e injusta... comigo. Sempre comigo, até que Antônio me ajudou a descobrir as pétalas da rosa quando eu só enxergava seus espinhos e, no vazio, encontrei seus olhos me dizendo aquilo que eu já deveria ter me dito há muito tempo: "você é o seu maior bem".
No início de dois mil e doze, enquanto andava pela internet, encontrei um som diferente para doze... Doce. Uma letrinha trocada, uma palavra que resumiria o ano inteiro. Dois mil e doce doce seria (e foi). Com o fim do ano, passei um tempo temendo deixar todo o doce, temendo que ele me deixasse com a vinda desse desconhecido treze. Ainda não havia descoberto uma outra palavra para treze até que de repente... Antônio. Lá estava ela perdida na voz de Antônio, nos desejos de fim de ano que ele fazia; lá estava ela perdida em poesia (ou seja: muito bem achada)... Encontrei e muito bem encontrado. Treze: ter-se: ter-me comigo. Não poderia haver nada melhor, plano melhor, meta melhor para esse ano. Passei muito tempo planejando esse desejo, mas só agora tenho força o suficiente para desejar. Se tivesse desejado antes, não iria realizar por ainda não ser o tempo certo. Não há como colher uma fruta quando a planta ainda é só semente. E esse ano será o ano em que plantarei essa semente que por muito tempo ficou guardada em mim. Ter-me comigo, é o que preciso. Ter-me com outros já aprendi. Aprendi antes mesmo de ter-me comigo, quem diria? Lembro-me uma vez que, numa conversa, eu disse que nasci invertida. Enquanto muitos não sabiam lidar com os outros, pensar nos outros por conseguirem pensar somente em si, eu pensava em todos como se pensasse por todos que não sabem pensar por eles. Mas não pensava em mim. Ainda era muito egoísta, sim. Muito injusta, sim. Muito egoísta e injusta... comigo. Sempre comigo, até que Antônio me ajudou a descobrir as pétalas da rosa quando eu só enxergava seus espinhos e, no vazio, encontrei seus olhos me dizendo aquilo que eu já deveria ter me dito há muito tempo: "você é o seu maior bem".
Treze... Ter-se. Dois mil e ter-se. Sorrio bonito com essa descoberta e te agradeço, Antônio. Fez os fogos de Copacabana surgirem no rio de mim. Agora, sim, feliz dois mil e ter-se. Feliz, que seja muito feliz, que seja de ter-se.
[E, com vocês, Antônio:]
[E, com vocês, Antônio:]
"Que o seu 2013 possa ser lido como dois mil e ter-se. Isso mesmo! Tenha-se; cuide-se; pertença-se; seja-se: você é seu maior bem. Eu sempre encaro o fim com a esperança de quem encara um recomeço. Tudo o que acaba preserva aquela beleza necessária do repensar. "Repensar" é a palavra que eu desejo a todos vocês, todos os dias. Os amantes quando terminam precisam repensar. Os empregos quando terminam precisam ser repensados. O dia quando termina também precisa ser repensado: esse fenômeno é humanamente conhecido como sonhar. Muito obrigado por terem feito meu 2012 um ano para repensar!"
Eu me chamo Antônio
[Coincidência boa: esse é o Pensamento 13 de 365 de 2013. 13 de 2013.
Dedico esse texto a mim, a você e a mais duas pessoas queridas
que desejo muito ter-se: Patrícia e Tairini.]
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sábado, 22 de dezembro de 2012
Os nós de nós
Sempre tive vontade de montar um blog com um grupo de pessoas. Tentei uma vez e pouco consegui, a ideia continuou sendo ideia e só. Mas, nesse ano, me encontrei dentro de muita gente. Gente que me faz bem. Gente que me quer bem. Gente que sorri ao me ver sorrindo. Gente que me abraça forte como se o abraço de hoje fosse o último que eu pudesse receber, que a pessoa pudesse me dar. Gente bonita no olhar - cheio de vida -, gente bonita de coração, gente que traz beleza em tudo e qualquer canto de si - mesmo quando canta de palhaçada e desafina por querer. Dentro dessa gente, plantei um sonho: o de escrever, o de conhecer as palavras, de fazer amizade com elas, de brincar com elas - caçando uma dentro de outra, trocando uma letrinha aqui e ali, rimando acolá. Nem mesmo sabíamos o quanto havia dessa árvore em nós, ficamos surpresos - quase assustados até - por vê-la crescer, crescer e crescer tão forte e rapidamente. E percebi, "Precisa criar raiz, arvorezinha." Não poderia crescer com tudo que pode agora para desabar daqui a um ano. Precisa criar raiz. E essa raiz se chama nó. É toda feita de nós embolados, não desamarrados. É toda feita de nós, assim, desatado nos nós da gente. O sol é a nossa ligação, a luz é as ideias e a água, um espaço para o pensamento, para o sonho, para dizer o segredo, o que não sai de nossos lábios mas que vive, respira dentro de nós. É o espaço nosso, o espaço que temos para sermos livres e só.
[Se, um dia, você pensou em fazer um blog em grupo, eu digo, faça. É bom demais. Antes, saiba apenas lidar com as diferenças. Por ser diversas pessoas, haverá diferenças em cada vírgula. Faça duetos, escreva poesia em trio, prosa em quarteto. É bonito ver um pensamento se ligando com o outro. É bonito de ver um nó se tornando laço. É bonito, e eu não vou esquecer.]
sábado, 24 de novembro de 2012
Reticências, primeira parte.
- É tão difícil...
- Tão difícil o quê?
- Tudo... Tudo é difícil. É difícil falar até mesmo a palavra difícil. É difícil te responder, me fazer falar quando estou com você... É difícil te olhar, deixar o meu olhar no seu... É difícil... É difícil terminar uma frase contigo. É difícil, meu Deus, como é difícil.
- É difícil, mesmo. É difícil te olhar quando sei que o seu modo de olhar não é o mesmo que o meu. É difícil saber que seus pensamentos sobre mim são diferente dos meus sobre você, que os seus sentimentos, ah, os seus sentimentos... É difícil... É difícil, fico com nó na garganta, aperto no peito, vontade de te abraçar, de te levar pra Terra do Sempre comigo... É difícil saber que você veria esse abraço de uma forma diferente do que ele realmente seria. É difícil saber que... que... Ah... Por que isso foi acontecer, meu Deus? Por que você? Por que eu?
Mexeu o café com suspiros e concentrou seu olhar vago nos movimentos também vazios do café como se isso fosse a coisa mais importante do mundo. Deixaram os olhares perdidos na paisagem fora da janela. Queriam perder os olhares fora da janela daquela situação, assim, com salto, pulo, fuga; queriam quebrar o vidro daquela paisagem deles e sumir com todos os cacos que se espalhariam por dentro do possível nós; queriam olhar tudo de cima, queriam não sentir o que sentiam, mas sentiam, sentiam, sentiam.
Uma lágrima caiu.
Era impossível controlar qualquer reação naquele momento. Se a lágrima ameaçasse cair, ela cairia. E caiu.
Desprendendo-se do vazio num susto, ele olhou para ela...
- Não chore, por favor, não chore.
- Não chorar?! - Dizia ainda com os olhos cheios de estrelas mortas que brilhavam insistentemente - Venha, pegue meu coração, arranque-o de mim, só assim não vou chorar. Venha, pegue meu coração e coloque-o no lugar do seu, quero ver se não irá chorar assim. Venha, pode pegar até porque ele não mais me pertence, não mais bate a todo segundo para me manter respirando, para me manter pensando, para me manter viva, mas somente bate para te manter respirando em mim, para me manter pensando em ti, para te manter vivo, bem vivo aqui.
- Sou difícil de chorar mas, acredite, estou dilacerado. Cada canto meu chora. Definitivamente, não estamos em tempos de risos.
- E pensar que poderíamos acabar com isso tudo...
- Poderíamos?
- Poderíamos. Mas não podemos, não vê? Não vê que o que traz tanta dificuldade são todas essas correntes que carregamos em nós? Não vê que o difícil não está na situação, mas na gente? Porque a situação está aqui, e isso você consegue perceber, conhecer cada detalhe. Mas e o que te prende? Consegue se soltar? Consegue se deixar voar pelo o céu da gente, só da gente? As nuvens só nossas nunca formariam uma tempestade... Mas seus olhos preveem somente tempos cinzentos, pensou.
Não teve coragem de dizer seu pensamento em voz alta. Se fosse dito, mesmo que em sussurro praticamente inaudível, a praga poderia tornar-se realidade. Mas a verdade era que o "tornar-se realidade" já era real, já havia se tornado faz tempo mas... E o medo de admitir e trazer outros tornados ao bom tempo?
Não teve coragem de dizer seu pensamento em voz alta. Se fosse dito, mesmo que em sussurro praticamente inaudível, a praga poderia tornar-se realidade. Mas a verdade era que o "tornar-se realidade" já era real, já havia se tornado faz tempo mas... E o medo de admitir e trazer outros tornados ao bom tempo?
Entre toda a agonia, uma pausa, um sorriso tão pequeno que quase não era um sorriso. Ela ficou imaginando o céu, os passarinhos, o tempo de cantos de volta.
- Não vejo, não consigo. - Ele respondeu.
O não-estamos-em-tempo-de-sorrisos voltou para ela antes mesmo que algum passarinho pudesse dar o primeiro pio, o primeiro voo.
- Não vejo... não vejo... Sou cego do coração... Sou insensível dos olhos... Sou surdo da mão. A minha corrente é não me acorrentar. - Admitiu isso com enorme pesar, desejou baixinho e de fininho que não fosse assim como era.
- Não se acorrentaria... Não vê que assim seria livre? Se sua corrente é esta, está me dizendo que tem uma corrente, então, se acorrenta. E onde está a parte do não se acorrentar?
- Liberdade... Sonhei tanto em consegui-la... Nunca a terei... - Seus pensamentos envolviam-no como num sonho, nem mesmo ouviu o que foi dito.
- Terá... Comigo... Teremos. - Sua voz soava como uma súplica, assim como o seu olhar.
- O tempo me acorrenta, a vida me acorrenta, será o amor mais uma corrente? Farto estou de correntes da alma... Farto estou de correntes da vida...
- E não vive.
- O quê?
- Não vive, simplesmente não vive. Não ama, tem medo, morre de medo de amar.
- Medo?
- Sim... Não vê de novo, já sei...
- Medo, nunca tive medo, que história é essa?
- Nunca teve medo?! Ah, ora essa! Então, prove. Olha pra mim, me encare.
Ele desviou o olhar, não conseguia deixar que seus olhares se encontrassem por muito tempo.
- Eu disse olha pra mim. Olha.
Relutante, olhou. Olhou tímido, prestes a desviar novamente, mas algo o acorrentou e não conseguiu voltar seus olhos para o nada, para o vento que balançava a árvore tranquila lá fora, fora de toda a cena, fora deles. Viu o que queria ver mas não conseguia. Viu o que não se permitia enxergar mas que esteve na sua frente todo o tempo. Viu-a. Viu seus olhos. Viu seus lábios, seu cabelo, suas mãos perto das suas. Implorou, mentalmente, para que elas se mexessem, se aproximassem somente mais um centímetro, que se encostassem, se tocassem, se sentissem. Viu a realidade. Não viu mais a dificuldade. Tudo estava ali, o suspiro, o café, tudo.
Os corações trocaram-se naquele momento, o dele passou a ser dela e o dela, bom, o dela já era dele. Os corações suspiram de felicidade, de alívio, deixando todos aqueles suspiros que mergulhavam e nadavam no café sonhando em ser, um dia, como eles.
Ela.
Ele.
Jun
Tos.
Final
mente.
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segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Pensamento 12 de 365
"O vento pronunciava os muitos dias de neve por vir, frio gelado, de acordar de manhã sem qualquer esperança de lar, amor, carinho, alegria. Sua mansão de pensamentos não tinha calor. Que estranho ele nunca ter percebido. Continuou a andar, mas com a vaga impressão de que sua casa e sua vida foram construídas sob alicerces falsos e frágeis."
A cura de Schopenhauer
E essa é crise que me fez parar momentaneamente com a série Pensamentos.
Parece que o que penso é vento, que passa, que venta, que vai. Mas ele pretende voltar... Sempre volta. Só não sei quando voltará.
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
O sorriso do abraço, o abraço dos olhos
Da janela do ônibus, encontrei um par de olhos distraídos mas que logo encontraram os meus. Os olhos pequenos que me enxergavam, apertaram-se num sorriso sincero que sonhava em ser abraço. Os meus, sorriram o mais bonito que poderiam sorrir, abraçaram o mais forte que poderiam abraçar, pois eles sabiam que aquele momento iria partir assim que o sinal fechado se abrisse. Aquele momento de segundos que se eternizou, que até mesmo deixou o sinal vermelho sem vontade de virar verde para que pudesse observar por mais tempo a cena que presenciava; mas enverdeceu-se logo, tomando a cor da grama de um enorme campo feito para se deitar, conversar, rir, sorrir, se abraçar e se momentear. Deixei-me rolar por ela e ela rolar por mim. Acenei para a criança dos olhos risonhos que abraçam, deixei-a partir com o vento que seu ônibus jogou nos meus cabelos, como um suspiro de quem se vai sem querer ir, de quem se vai mas, de certa forma, fica.
E ficou.
O seu sopro assemelhou-se mais a um beijo de despedida em minha testa que recebi ainda sorrindo e com o coração dizendo "Fica, fica, fica." Mas foi-se sem ficar. Mas ficou-se sem ir.
E ficou.
O seu sopro assemelhou-se mais a um beijo de despedida em minha testa que recebi ainda sorrindo e com o coração dizendo "Fica, fica, fica." Mas foi-se sem ficar. Mas ficou-se sem ir.
Guardei-te. Agora, mora na Rua das Surpresas que nos Trazem Felicidade numa casinha simples que visito, com tempo ou sem tempo, visito sempre que posso.
Da série Olhares e Sinal Fechado.
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