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domingo, 2 de dezembro de 2012

Reticências, última parte.

Sua vida foi defender-se da vida, de si... Do mundo. E isso ela fez bem. Na verdade, foi o que aprendeu a fazer de melhor durante todos esses anos: defender-se, e esta era a sua defesa contra todos os medos, inclusive o de não viver. (Falhou com este último.) 
Ao acordar do seu sonho-acordado, desejou baixinho "Vira realidade, por favor..." Seu pedido não foi uma ordem. Foi um pedido jogado ao vento que queria que passasse e levasse-na para um lugar, qualquer lugar, onde servisse de moradia para a realização de seu desejo. Mas o vento não passou. Sentiu dó, teve vontade de passar nem que fosse por um segundo... Mas, não. Ela deveria fazer isto sozinha. (Não fez.)
A lâmpada não apareceu. O gênio não apareceu para salvar aquele pobre coração que choramingava pelos cantos e que, antes mesmo de ver o ponto final da sua história, já decretava o fim. Depois, ainda se dizia esperançoso... Não sei que esperança é essa, coração. Se existir, só as paredes sabem. Elas guardam segredo nossos que nem mesmo nós sabemos, calam-se fácil. Talvez, um dia, foram como a moça que também deixava-se calar por pouco quando mais deveria seguir a sua voz, mesmo que esta faltasse no momento. Ela nasceria e haveria voz. Haveria... haveria... (Não houve.)
Foram-se embora. 
Assim que ela virou as costas, passou a inventar novamente mais um diálogo imaginário. (Ele também.)
E as paredes viram...
[De mim, nunca espere um final feliz.
Porém, se escrevo triste
não é para entristecer-te
é para criar coragem
e, nesse caso,
viver.

E outra:
nunca duvide
da imensidão
de um olhar.

Esse texto nasceu de um outro 
texto chamado Três Grandes Pontos
Pontos grandes mesmo,
por esconderem um 
mundo em si. ]

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Reticências, segunda parte.

Sentiu o vento que a encontrava pela janela que quebrou todo o seu corpo - agora feito de vidro - ao piscar os olhos de seu sonho acordado. Acordou. Soltou um suspiro preso. Soltou-o ao prender-se, ao prender toda a cena na imaginação... como sempre. 
- Ah... por que é tão difícil?
Voltou ao ponto inicial.
- O quê?
- Nada...
E, de lá, não se moveu.
Não houve mais diálogo. O que existiu depois foi somente olhares presos - e não entre os olhos que se encaravam porque não se encarara - entre as vozes das paredes e das coisas ao redor que criavam vida ao rir da sua falta de coragem, do seu medo de agir. Gargalhavam e agrediam a cada risada solta. Como defesa, ela se fazia de surda, ignorava. Ele não se fazia de surdo também porque não tinha ouvidos capazes de ouvir tais risadas, mas estava se saindo um cego nato, e ignorava. Os objetos ouviam e enxergavam. A vida passava. E era só: passava....
Passou...
Seus sonhos moraram somente dentro dela, coitados, nunca conheceram lugares diferentes, nunca respiraram novos ares que não fossem os de sua mente. Mesmo assim, tinham um bom lar, disso não podiam reclamar. Apesar de serem sonhos nascidos de uma imaginação que não os realizaria, eram bem sonhados. E tinham sorte por isso. O coração sonhador que habitavam era forte e, assim, faziam com que este não perdesse sua força, sua vontade... Não os perdesse agora nem aos outros que viriam. Faziam com que ela não se perdesse. Ajudavam-na sem que percebesse.
Mas esta ajuda muito lhe custou...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Ir-se, fim.

Depois dessa época, nunca mais se encontraram. Seguiram caminhos opostos. A liberdade não voltou atrás, pois só retorna se, ao menos, notarem que se foi. Ela não notou e logo, logo partiu definitivamente de desgosto que sentia por algo que não sabia nem mesmo o que era. No fundo, sabia, mas não dizia para si. Sabia, mas não investigava. 
De tanto que seus planos passaram a dar errado, parou de planejar. Esvaziou-se. Não mais sentia àquela felicidade quase imediata. A saudade quente que lhe servia como café da tardezinha virou amargura, virou a sede que chega na sua garganta em plena madrugada e você não acorda, não levanta para beber o copo d'água. Sente preguiça, prefere dormir, continuar seu sono. E dorme. E continua. E ela não mais sonhou. Deixou de viver, deixou de colecionar imagens para sua criatividade e seu subconsciente fazerem festa no único período do dia em que ainda tinham o restinho de liberdade que sobrara na xícara: o tempo em que sonhava.
Foi-se e não mais conseguiu voltar para si. Foi-se de si.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Ir-se, início.

Ela criava um futuro que não viveria. E sabia que não iria vivê-lo. Mas criava, mesmo assim, por ter uma mente inquieta, andante entre pensamentos da imaginação, entre planejamentos do que poderia ou não acontecer.
Não perdia nada ao planejar. Se acontecesse, já estava com tudo pronto mentalmente; se não, seguiria em frente e planejaria algo diferente. Isso é o que os olhos enxergavam de longe e superficialmente. Se fossemos vê-la de perto, cuidar dos seus cuidados, dos seus detalhes, veríamos que entre um plano não realizado e outro, havia muito sentimento. Um deles era a saudade. Sim, saudade. De quê? De como viveu enquanto planejava. Tais momentos costumam trazê-la felicidade por pensar sempre muito positivamente, até quando enxergava a possibilidade de não acontecer o que ela queria que acontecesse. Pensava assim. Por que não?
Apesar de não poder adivinhar o futuro, poderia fazê-la de sua própria adivinha do que viria sem saber o que realmente estava por vir. Não há impedimentos para isso. Se existe um lugar onde somos livres para fazermos o que quisermos, este é o nosso querido pensar, nossa imaginação, nossa mente. A liberdade vive aqui, a não ser que você cisme de acorrentá-la com pensamentos anti-liberdade que, ultimamente, encontramos soltos por aí. 
Nascemos com liberdade e esta pode se perder em nós através do tempo ou não; pode ser encontrada depois ou não; pode ter uma vida curtíssima enquanto você vive longamente, pode viver longamente enquanto você vive sua vida curta, pode ser tão curta quanto a vida ou tão longa quanto ela. Pode, sempre pode. Pode qualquer coisa. Pode, pode, pode. Ela é a liberdade, então, pode. 
Entretanto, a liberdade deixava de habitar tal moça aos poucos, tão devagar e tão rápido como o Sol que surge ao amanhecer cor a cor, tom a tom; rápido e lento. A diferença é: o amanhecer, você nota quando ele se vai e a liberdade quando se vai... Ah... Talvez você não perceba, não diga adeus sem pronunciar tal palavra por, simplesmente, não vê-la partir dia após dia, segundo após segundo num tchau-de-mão tão vagaroso quanto o distanciamento fugaz que em câmera lenta se faz, se acontece. Mas, infelizmente, não se percebe, não se observa, não se vê, deixa-se partir e se deixa partir. Deixou-se partir ao deixa-la partir; partiram-se, uma de si; outra, em si.

domingo, 27 de novembro de 2011

O encontro, parte um.

Não poderia ser. Ou seria? Não, não. Já estou numa idade avançada, não posso confiar nos meus olhos. Mas parece real. Não pode ser. Apertei mais meus olhos e agucei meus ouvidos em vão. Ele estava tão distante. Num momento, pareceu perceber que eu o estava fitando e olhou para mim. Oh, céus. Não pode... Era ele. Era ela. Eram eles três. Escondi-me nas sombras, deixando-os ir.
Passei dias repensando sobre aquele momento que durou menos de dez minutos. Parecia ter sido mais de tanto sentimentos e pensamentos complexos que se passaram dentro de mim com tamanha rapidez. 
O menino, num outro dia, quando me dei por mim, ele estava ao meu lado. Trouxe-o comigo sem que ninguém percebesse. Devolveria-o, mas só depois. Agora ele era meu. Precisava aproximar-me um pouco mais daquela criatura.
Quando o observei mais de perto e mais demoradamente, consegui estudar cada detalhe nele. Os seus olhos... Os seus lábios... Os seus cabelos loiros... A sua voz... Tudo me lembrava dela. Agarrei-me ao que  senti naquele instante e deixei que todos os sentimentos tomassem conta de mim, até que tive que virar meu rosto para outro lado. Senti lágrimas pedindo para saltar dos meus olhos. Não. Não ali e com ele. Escondi-me mas, dessa vez, foi dentro das minhas próprias sombras. Queria tocá-lo, tenho certeza de que a sua pele também era igual a dela, macia. 
Ouvi boatos de que aquele menino existia, porém recusei-me a acreditar, e, agora, ele estava alí, bem a minha frente. A destruição da minha vida existia em carne e osso e encarava-me com aqueles lindos olhos castanhos-claro tão parecidos com os de sua mãe.